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Foto de grupo

Foto de grupo

Grupo de estudantes fotografa-se numa cabine de Purikura.

Tóquio, Japão

Fotografia Tipo-Passe à Japonesa

No fim da década de 80, duas multinacionais nipónicas já viam as fotocabines convencionais como peças de museu. Transformaram-nas em máquinas revolucionárias e o Japão rendeu-se ao fenómeno Purikura.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O casaco de peles, os botins pretos de cano alto acima do joelho e os calções de ganga diminutos são pouco fiéis aos visuais aconselhados no interior do estúdio mas nada parece desmotivar a jovem gyaru. O recanto da rua movimentada de Shibuya está longe de lhe conceder alguma privacidade mas, enquanto manipula o pincel de rímel à pressa, só o seu reflexo no pequeno espelho e o volume das longas pestanas parecem contar. Uma mala já etiquetada sugere-nos que a adolescente está prestes a viajar e que quer levar consigo uma recordação narcisista dos últimos tempos em Tóquio.

No interior, a loja confirma-se tão movimentada como colorida. É a terceira vez que lá entramos. Logo na primeira, fomos elucidados de que não podíamos fotografar nem os outros clientes nem com máquinas profissionais. A proibição obriga-nos a um complicado jogo do gato e do rato com o funcionário de serviço, no labirinto das cabines que supervisiona.

Cortinas decoradas com flores e imagens de amigas com peles imaculadas, grandes olhos quase ocidentais,  cabelos caju ou alourados lustrosos e sorrisos brilhantes fecham os espaços dos aparelhos à imaginação ou capacidade de imitação dos utilizadores. Muitos não se fazem de rogados e inspiram-se naqueles visuais que os criadores baptizaram em nipónico mas com complementos semi-preciosos em inglês: Pink Eye, Jewel is Saphire, Jewella, entre outros.

Introduzidos os 500 ou 600 ienes requeridos na ranhura, os clientes correm para a zona fotográfica da cabine, assumem as poses e as expressões mais frescas de que se conseguem lembrar. Aguardam o fim da contagem Uan, tsū, surii, pōzu (adaptada do inglês – One, two, three, Pose)  enunciada por video-anfitriãs com vozes femininas e juvenis e deixam-se congelar pelos flashes potentes.

Em qualquer cabine de fotografia convencional, a experiência terminaria por aqui mas, a tecnologia japonesa tratou de a enriquecer para depois  rentabilizar.

Percorremos os corredores entre as cabines e, através das cortinas entreabertas, percebemos o entusiasmo dos grupos de amigas e dos casais que, em contra-relógio, decoram as suas imagens com estrelinhas, corações, flores, arco-íris e restante miríade de símbolos e efeitos que as canetas digitais e os menus complexos dos ecrãs lhes permitem combinar. 

Foi esta a visão que Sasaki Miho teve e que transmitiu à companhia para que trabalhava - a Atlus, criadora de jogos de computador – permitindo-lhe desenvolver, em joint venture com a famosa SEGA, os aparelhos de Purikura revolucionários. Miho inspirou-se no hobby da juventude nipónica de enfeitar as capas dos livros da escola, mochilas, armários, telemóveis e tudo o mais com figurinhas populares nipónicas e lembrou-se que se poderia transpor o hábito para formato electrónico.

Por mais estranho que agora pareça, quando os primeiros modelos das estranhas máquinas surgiram no mercado, em 1995, suscitaram pouco interesse. Mas, alguns anos de persistência depois, a banda J-Pop (leia-se Japanese pop) SMAP ofereceu fotos suas produzidas em Purikura, ao vivo num programa de televisão e deu o mote. A ideia não tardou a ser copiada por outros grupos de música e personalidades. E a moda de produzir, trocar e coleccionar estas fotos divertidas depressa se alastrou entre as adolescentes.

Na Primavera de 1998, já existiam cerca de 25.000 cabines por todo o país e muitas imitações. Outros empresários oportunistas foram instalando, na proximidade, casas de fatos cosplay (costume play) cabeleiras e de outros adereços, ideia que, entretanto, alguns estúdios purikura vieram a assimilar.

Popularizou-se, assim, o conceito de um Print Club japonês que os mais jovens converteram primeiro para um gairaigo (transliteração) quase obrigatório, “purinto kurabu” e, logo, abreviaram para Purikura.

Muito Mais que Simples Fotos de Passe

A materialização da Purikura é opcional. Vemos a história repetir-se, nas lojas de Shibuya e em tantas outras espalhadas pelo resto do país: saídos das máquinas de “design” – chamemos-lhes assim – os utilizadores decidem se recebem a imagem final em folhas de contacto de papel brilhante ou, através de um sistema semelhante ao Bluetooth, directamente para os ecrãs dos seus telemóveis, tablets e companhia de última geração.

Como pudemos comprovar, primeira escolha exige algum trabalho de tesoura, para separação das tiras ou imagens individuais que podem sair de distintos tamanhos. A última prova-se mais prática e permite cópias e reenvios fáceis e imediatos enquanto MMS ou emails. 

Desde que o fluxo de clientes seja elevado, qualquer uma das máquinas e modalidades é altamente proveitosa. De acordo, encontramos purikuras por todo o Japão urbano e até em alguns recantos mais rurais, tanto em casas de máquinas de jogos como em estúdios próprios onde a quantidade e a variedade aumenta e a decoração, desde a fachada do estabelecimento à porta de saída, lhes é inteiramente dedicada.

Uma vez que se banalizou a base fotográfica da Purikura foram lançados no mercado desenvolvimentos ambiciosos, com expoente óbvio nas chamadas Videkura, máquinas que permitem a criação e envio de pequenos vídeos através da rede de telemóvel ou da Internet. 

Diferentes empresas optaram por atrair públicos-alvo distintos com conceitos que lhes são atractivos. A Love & Berry apostou nos relacionamentos amorosos, as Mushi King e Naruto permitem aos aficionados das artes marciais exibirem os seus movimentos de combate mais impressionantes. Uma outra, criada pela companhia Ututu, escolheu o nome MYSQ – My Style So Qute e parece condenada ao sucesso ao desafiar os utilizadores a produzir vídeos de diversos estilos com recurso a efeitos especiais e música.

Da Inovação Tecnológica ao Fenómeno Internacional

Como é de esperar, nem a invenção original nem estas evoluções se ficam pelo Japão. Descobriu-se há alguns anos que Taipé, capital de Taiwan e imitadora atenta das novidades japonesas, já era a cidade com maior número de máquinas per capita. Em Ximen – a sua Shibuya – há inclusive um edifício com três andares equipado com dezenas de Purikura de última geração.

Na China continental, o mais normal é existirem modelos antigos, em casas de jogos ou pequenas lojas. Banguecoque e Manila também são clientes regulares enquanto na Austrália - onde a população japonesa, chinesa e coreana não pára de aumentar - e em alguns países ocidentais, as máquinas surgem quase sempre em pequeno número. 

Durante uma excursão em que tomamos parte pelo Outback do Red Centre e Território do Norte, as sucessivas brincadeiras com máquinas digitais trazem à conversa o tema purikura. Yummi, uma das várias passageiras participantes nipónicas, reage de pronto, ao mesmo tempo entusiasmada e envergonhada com o protagonismo que está prestes a assumir: “I’ have !! Look here, so many !!!”. E saca da carteira e de um PDA para nos exibir a sua extensa colecção.

No Japão, qualquer transeunte até aos quarenta anos é um potencial utilizador das Purikura mas alguns são mais que outros. Os  grupos de colegas teenagers a caminho ou de regresso da escola nos seus uniformes de casaco,  pulôver escuro e saia encurtada com meias pouco abaixo do joelho provaram-se as clientes perfeitas. Logo em seguida, vêm as amigas exuberantes um pouco mais velhas que se livraram dessa fase ditatorial da vida e dedicam a maior parte do seu tempo a embelezar-se para apurar a sua identidade. Para muitas raparigas e mulheres, as purikura funcionam como mais uma extensão dessa busca perfumada de sentido e são elas a principal razão de ser do fenómeno. Numa tarde de diversão, cada uma pode gastar até 4000 ienes (40€). Chegámos a ver filas longas em frente de algumas máquinas recém-saídas ou mais populares.

Mas certos desvios comportamentais em redor do fenómeno vieram desafiar a harmonia instalada da sociedade hipócrita japonesa. O problema tornou-se mais sério quando certos homens passaram a visitar as casas com o objectivo de seduzir e engatar adolescentes. E agravou-se quando algumas dessas adolescentes começaram a deixar prints seus com números de telefone, oferecendo-se para novas amizades ou enjo kosai, como são chamadas no Japão, as relações financeiramente assistidas.

A reacção ao escândalo surgiu em pouco tempo, com a proibição da entrada de homens nas casas de Purikura se não estivessem acompanhados de amigas ou namoradas e a instalação de cabines para uso único de casais. Esta restrição era esperada. Estamos a falar de uma nação com costumes espartanos e moral aparentemente imaculada em que a as pessoas quase nunca tocam as outras, ou mostram afecto, em público. 

Da Purikura à Videkura

Banalizado o envio das imagens para os telemóveis (de onde podem ser remetidas para outros telemóveis ou dispositivos enquanto MMS ou e-mails), foram lançados recentemente no mercado desenvolvimentos ambiciosos, com expoente óbvio nas chamadas Videkura.

Como o nome deixa entender, estas máquinas permitem a criação de pequenos vídeos e o seu envio através da rede de telemóvel ou da Internet.

No reino do imperador, qualquer protótipo revolucionário depressa se converte num lixo tecnológico ou, com alguma sorte, numa peça de museu. Apesar da modernização permanente a que são sujeitas, as Purikura continuam a merecer o respeito devido por parte das fãs. Afinal, estas cabines prodigiosas há dez anos que fazem parte das suas vidas. E tornam mais feliz a vida do Japão.