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Minhocas

Minhocas

Os edifícios MUITO polémicos do Music Theatre and Exhibition Hall, em pleno vale do rio Mtkvari (Kura) que passa a meio da cidade.

Tbilissi, Geórgia

Geórgia ainda com Perfume a Revolução das Rosas

Em 2003, uma sublevação político-popular fez a esfera de poder na Geórgia inclinar-se do Leste para Ocidente. De então para cá, a capital Tbilisi não renegou nem os seus séculos de história também soviética, nem o pressuposto revolucionário de se integrar na Europa. Quando a visitamos, deslumbramo-nos com a fascinante mixagem das suas passadas vidas.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O fim-de-semana aproxima-se e as autoridades religiosas da capital preparam a zona em redor da igreja da Assunção de Metekhi para as celebrações ortodoxas do fim do dia seguinte. Nessa manhã, à laia de milagre meteorológico, a atmosfera cinzenta e chuvosa em que tínhamos chegado a dera lugar a uma oposta, límpida, de céu azul e solarenga a condizer.

O vento aumentava desde a aurora. Irritava os funcionários camarários que se debatiam com enormes cartazes iconográficos destinados a uma fixação no cimo do muro elevado junto à estátua do rei fundador de Tbilissi, Vakhtang Gorgasali. Os posters evitavam o destino final como se de um encontro com o Diabo se tratasse. Só com argúcia e persistência mecânica, conseguiram os homens dominá-los, ainda assim, antes do término da missa a decorrer no interior místico do templo.

Um padre volumoso, de batina negra e longa barba branca caída acima de dois enormes crucifixos dependurados deixa-o no momento em que nos preparávamos para entrar. Mesmo apressado, examina-nos de alto a baixo e confirma que dificilmente faríamos parte do seu rebanho.

Lá dentro, as dezenas de velinhas que os fiéis acendiam, acentuavam um dourado sagrado. Geravam o ambiente acolhedor em que cresceram a rezar, de bíblia ou caderninhos bíblicos nas mãos, ou de olhar esperançoso nas imagens de Cristo e dos santos.

O sacerdote de serviço ressurge das profundezas da nave. Reúne o rebanho diante de si e retoma o serviço religioso onde o tinha deixado. Uma das suas crentes segura uma criança ao colo, de costas para o altar. Intrigada pela nossa azáfama fotográfica, a bebé fixa o olhar em nós minutos a fio, sem nunca reclamar da conversão invertida em que a mãe a mantinha.

A cena que observávamos fazia parte da Tbilissi de sempre mas tanto o país do sul do Cáucaso como a sua capital secular passaram por mudanças bruscas recentes.

De 1921 a 1991, a Geórgia integrava a esfera soviética. O mais notório e maquiavélico dos líderes soviéticos, Joseph Stalin, fora um georgiano de Gori, com o nome original de Iosif Vissarionovich Dzhugashvili. Eduard Shevardnadze, outro georgiano, manteve-se como Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética de 1985 a 1991. Foi responsável por muitas das decisões marcantes da presidência perestroikika de Mikhail Gorbachev. Sem surpresa, quatro anos após a independência georgiana de Dezembro de 1991, Shevardnadze obteve a segunda presidência da Geórgia. Outros oito anos passaram. A população georgiana fartou-se daquilo em que a sua nação se estava a tornar, um estado virtualmente falhado. Em Novembro de 2003, o povo georgiano saturou-se de vez. Saiu para as ruas em sucessivas manifestações concentradas em frente ao parlamento de Tbilissi. A determinada altura, um grupo de manifestantes conduzido pelo líder da revolução Mikheil Saakashvili invadiu o parlamento de forma pacífica. Munidos de rosas, os intervenientes interromperam um discurso de Eduard Shevardnadze. Este, fugiu com os seus seguranças, declarou o Estado de Emergência e procurou, em vão, mobilizar as forças armadas e a polícia. Acabou por anunciar a sua demissão. Na sequência, uma multidão de mais de cem mil pessoas celebrou o sucesso revolucionário com fogo de artifício e concertos de rock.

Em 2004, o apoio generalizado dos E.U.A., de vários países europeus e do magnata auto-proclamado filantropo George Soros e da sua Open Society Foundation, garantiu a eleição de Saakashvili como terceiro presidente da Geórgia. Saakashvili implementou de imediato políticas de secessão com a esfera russa e de aproximação à Europa Ocidental. Malgrado diversos revezes, estimulada por uma forte expansão do sector bancário, a economia do país recuperou e entrou na linha, enquanto a praga da corrupção foi mitigada.

No ranking do Banco Mundial, a Geórgia subiu de 122º país para o 18º. Durante um largo período, o investimento estrangeiro manteve-se em redor dos três biliões de dólares e o crescimento anual do país em 9.5%. Esta súbita escalada de prosperidade não tornou os georgianos ricos de um dia para o outro mas gerou um desafogo há muito esperado tendo em conta que, antes da revolução, o salário oficial de um ministro georgiano era de 75 dólares americanos.

A abertura social e o empreendedorismo então gerados continuam a florir nas ruas antigas e elegantes de Tbilissi. Os edifícios soviéticos mantêm o seu lugar. Ficamos alojados num hotel um pouco acima do parlamento pelo que, quando descemos rumo ao centro, as sucessivas colunas do edifício massivo são o primeiro elemento arquitectónico dessa era que nos assalta. Muitos mais vão surgindo, com destaque para os da actual sede do Banco da Geórgia, em tempos o Ministério da Construção de Auto-Estradas georgiano, terminado em 1975, com visual de obra excêntrica de legos.

Os “monos” soviéticos são, no entanto, desafiados por outros mais arrojados do que muitos dos habitantes da cidade desejavam. É o caso do novo Music Theatre and Exhibition Hall, no parque Rhike, um par de estruturas tubulares desenhado pelo casal italiano Maximiano e Doriana Fuksas. Vladimir, o motorista arménio que, por vezes, nos pareceu bastante saudoso dos tempos soviéticos, informa-nos que lhe chamavam “as minhocas” e que a construção havia sido suspensa. Durante um bom tempo após os descobrimos, os transeuntes continuaram a passar por diante, meio desconfiados das intenções das “bocas” de “Aliens” em que terminavam os enormes e invasivos edifícios.

O rio Mtkvari flui logo ali em frente, ao longo vale que cavou século após século. É atravessado por uma ponte não menos polémica. Apesar do nome, e tal como o Music Theatre and Exhibition Hall, a Ponte da Paz suscitou uma onda de criticismo vinda de diversos quadrantes. Gerou acusações, em particular, de ser demasiado exuberante para o distrito histórico da cidade e de obscurecer as suas atracções históricas. Não obstante, os amigos e jovens casais, sejam forasteiros ou gente da cidade atravessam-na deliciados com a iluminação que se acende à sua passagem e com as formas curvilíneas que aproveitam para compor novas selfies.

O coração histórico de Tbilissi surge do lado de lá de quem vem da margem ocupada pelos “vermes” do Music Theatre and Exhibition Hall. Estende-se entre a margem oposta e a encosta íngreme de Sololoaki em que se instalou a fortaleza de Narikala. As suas ruas e ruelas foram moldadas nos tempos em que acolhiam uma encruzilhada de rotas euroasiáticas de comércio. São delimitadas por edifícios medievais, clássicos, Art Nouveau, mesmo nesta área anciã, também por alguns Estalinistas e Modernistas.

Subimos de teleférico às alturas da fortaleza sobranceira. Deixamos a cabine aos pés da estátua prateada Kartlis Deda, a Mãe da Geórgia dos tempos soviéticos que dali contempla a grande urbe da nação. Dali admiramos o casario antigo, colorido e harmonioso, “as minhocas” e a Ponte da Paz. Também a igreja de Metekhi e a sucessão de mansões avarandadas históricas encaixadas sobre o cimo da margem elevada e escarpada do rio. E, uns metros atrás, a fachada de um prédio soviético hiperbólico, desdobrado em incontáveis janelas azuis e brancas.

Na Cidade Velha, multiplicaram-se os bares, cafezinhos, casas de vinho e de artesanato, pousadas e até discotecas, uns negócios mais pitorescos que os outros, todos com uma mesma missão: conquistar a atenção dos mochileiros que disseminaram a fama de Tbilissi, proclamada sem cerimónias, a mais aberta e dinâmica das capitais do Cáucaso.

Ainda assim, muito voltou a mudar. A economia deixou de crescer aos níveis dos anos seguintes à revolução. Com a desaceleração em pleno modelo capitalista, aumentaram tanto o individualismo e a ganância como o desemprego e a instabilidade geral das vidas dos georgianos. Tamara Giorgadze nasceu em Tbilissi, em 1985 e é nossa anfitriã na sua cidade. Explica-nos que uma certa nostalgia se tem apoderado sobretudo das gerações dos seus pais e avós. “Vejam só a diferença: o meu pai é de uma aldeia do ocidente da Geórgia, veio para cá estudar. Arranjou casa em Tbilissi mas, como o regime só permitia uma casa por família, ele e a minha mãe divorciaram-se para poderem ter uma casa cada um. Os mais velhos apreciam a vida de agora e dão com eles a suspirar pela União Soviética. A maior parte continua inclusive a respeitar o Estaline. Nessa altura, tinham o seu dinheiro mas não podiam gastá-lo porque não havia nada para comprar. Quando eu era pequena, os caramelos chegavam-nos de vez em quando da Turquia. Era tão raro que quase nos parecia Natal. Eu e a minha geração já vemos as coisas de outra maneira. Desde que haja dinheiro, podemos comprar tudo mas o salário médio ainda só é de 350 ou 400€. Estão a ver o que nos falta evoluir... De qualquer maneira, na Geórgia, nunca nada será fácil, muito menos garantido. Somos um país pequeno mas estamos num lugar estratégico que se farta. Toda a gente nos quer controlar.”

Descemos da fortaleza que garantiu tantas vezes a resistência de Tbilissi para o seu sopé. Detectamos uma mais óbvia influência muçulmana na mesquita de Jumah, de que se destava o seu minarete exuberante de tijolo. Na base, um cacho de homens acompanha dois outros que se confrontam numa partida de gamão jogada sobre um muro dos banhos termais históricos da cidade, em que tanto os moradores como os viajantes-comerciantes se habituaram a descontrair. Subsistem os sulfúricos e os orbeliani, estes mais próximos do sopé da encosta que albergou a fortaleza e da queda d’água de enxofre Dzveli que dela flui. Um edifício adicional congrega os banhos públicos. À moda antiga, obriga os frequentadores a separar-se consoante o sexo. É coisa já rara em Tbilissi onde, de uma forma cada vez menos arregimentada, os namorados exibem a sua paixão sem grandes restrições morais, inspirados pelos estímulos vinícolas mais cupidíneos do Cáucaso. A Geórgia leva a sério a sua reclamação de que é o berço mundial da produção de vinho. A condizer, disseminaram-se, em Tbilissi, adegas e casas de vinho que vendem e dão a provar os melhores néctares do país. Mas se o vinho é o produto de eleição nas ruas de Metekhi, outros são exibidos com igual afinco e orgulho. A fruta em geral, as uvas em particular, quando na sua época. Pelo ano fora, as coloridas churckhela, um curioso derivado de ambas. Quando as vimos pela primeira vez, pensávamos tratar-se de velas de igreja. Até que Tamara nos esclareceu e fizemos questão de as provar. Espécie de salsicha estriada, a forma daquele famoso doce georgiano é confeccionada com uma mistura de sumo de uva com farinha. Envolve um delicioso recheio de nozes.

Compramos algumas churckhelas já sobre o anoitecer. Continuamos a percorrer a Betlemi Street de novo apontados à zona da igreja de Metekhi e à enorme Praça da Europa que, do outro lado do rio, a anuncia. Quando nos aproximamos, a procissão religiosa que tínhamos visto a ser preparada seguia em pleno e atafulhava a ponte de pedra. Protagonizavam-na crentes em trajes ortodoxos pitorescos que, à luz de velas, cantavam ladainhas litúrgicas.

Por mais que a Geórgia e Tbilissi mudassem (fosse para melhor ou para pior), uma boa parte dos georgianos poderão sempre encontrar o conforto da sua milenar tradicionalidade e religiosidade.