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Volta ao coral grande

Volta ao coral grande

Lancha contorna um banco de coral nas imediações da Plantation Island.

Viti Levu, Fiji

Ilhas à Beira de Ilhas Plantadas

Uma parte substancial de Fiji preserva as expansões agrícolas da era colonial britânica. No norte e ao largo da grande ilha de Viti Levu, também nos deparámos com plantações que há muito só o são de nome.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O baptismo das povoações por que íamos passando nunca nos ajudaria a concluir qual a principal génese étnica de Fiji.

Os quilómetros de curvas e mais curvas sucediam-se na costa leste montanhosa e verdejante. À medida que os percorríamos, confrontávamo-nos com um elenco inacreditável de aldeolas e lugarejos com sílabas repetidas: Rakiraki, Lomolomo, Kulukulu, Sanasana, Malolo, Malololailai, Namuamua, Tabutautau e por aí fora. Quanto mais conduzíssemos para norte, mais exemplos poderíamos listar, encaixados entre a Kings Road e o Mar de Koro ou entre aquela estrada real semi-circular da ilha e as cordilheiras florestadas ou de um forro vegetal verde-amarelado que se impunham a ocidente.

Fosse como fosse, a conclusão nunca se provaria nem fácil, nem inequívoca. Perdido para oeste do Pacífico do Sul, o arquipélago fijiano foi moldado ao longo de 3500 anos por diversas culturas polinésias, melanésias e micronésias desde que o povo Lapita ali chegou proveniente dos arquipélagos vizinhos das ilhas Salomão e de Vanuatu, se dedicou à agricultura e se multiplicou desmesuradamente o que deu azo a confrontações tribais recorrentes.

Hoje, os conflitos mais frequentes têm lugar, acima de tudo, entre os generais das forças armadas e os políticos que disputam o poder no arquipélago com recurso a frequentes golpes de estado e até a sequestros. Já a agricultura, mantém-se pujante estimulada pela comunidade indo-fijiana que os colonos britânicos levaram da Índia para o arquipélago de 1879 a 1916 e que ali se estabeleceu para todo o sempre. Entre os povoados de beira de estrada, confirmámos que a cana-de-açúcar a que os britânicos condenaram os seus novos trabalhadores ainda é soberana e preenche a maior parte de Viti Levu que os nativos e colonos conseguiram roubar à selva original na época em que as grandes plantations garantiam fortunas ainda maiores.

A cana-de-açúcar nunca se tornou, todavia, monopolista. Ao largo da costa norte, proprietários de ilhas demasiado pequenas para acolherem a planta protegida da brisa salina do mar, optaram por uma alternativa óbvia. À chegada, muitas dessas ilhas já estavam rodeadas de coqueiros. O coco sempre teve o seu próprio valor, tanto o da casca, usado para uma série de fibras, tecidos e materiais, como o da polpa, quando não conservada para alimentação directa, entregue à indústria da copra (do dialecto Tamil malayalam: koppara) que dela produz o apreciado óleo de coco.

Já explorávamos Viti Levu havia algum tempo. De repente, assaltou-nos a ideia de espreitarmos algumas das ilhas secundárias ao largo até porque nos aproximávamos de Lautoka e Nadi, de onde partiam ligações de ferry para várias delas.

Parámos em Lautoka com o fim de recuperarmos energias. Aproveitámos para fazer algumas chamadas a partir de uma cabine telefónica local, perdida numa praça com lojas de um lado muçulmanas, do outro hindus. Dessas chamadas, resultou um convite para passarmos uns dias numa tal de Plantation Island. A precisarmos de algum descanso balnear, aceitámo-lo com agrado e, apressámo-nos a entregar o carro alugado e para lá nos mudarmos.

Fomos recebidos por Hannah e Brian Kirsch, um jovem casal australiano que cuidava dos resorts da ilha.

Hannah tratou de que nos instalassem e mimassem o melhor possível. “Tenho a certeza que vão adorar!” assegurou-nos. ”Eu só saio de cá para viagens longas. Não gosto nada de Nadi e dá-me demasiado trabalho chegar ao resto de Viti Levu.” Fizemos o possível para mostrar agrado da sua reclusão da verdadeira Fiji, aparentemente com sucesso. Hannah pareceu satisfeita por desabafar com visitantes que considerou mais ou menos do seu tipo: “Vou muito mais vezes à Austrália do que a Viti Levu. Sabem que eu tinha família em Port Arthur, na Tasmânia. Mas houve aquele problema do serial killer, não sei se ouviram falar. A minha tia safou-se do rol de vítimas. Ainda assim, viu-se forçada a vender o hotel e tudo o resto por causa da fama negativa do massacre.”

O mundo não é propriamente pequeno mas, por coincidência, estávamos a par do que nos narrava a anfitriã. Alguns meses antes, tínhamos passado pelo lugar do crime. Ficámos a par da matança perpetrada por Martin Bryant, em 1996, na colónia-penal museu local, a mais mortífera de sempre provocada por tiros de uma só pessoa até ao norueguês Anders Breivik, renovar o recorde há quatro anos atrás, na ilha de Utoya.

Não tardámos a perceber que, enquanto a tia vendera o seu hotel tasmaniano, Hannah e os três irmãos que pareciam já viver num óbvio desafogo financeiro, tinham acabado de herdar toda aquela inacreditável ilha do recém-falecido pai, Reginald Raffe. Reginal tornou-se respeitado em Fiji pelo contributo pioneiro que deu para o desenvolvimento das Mamanucas, um arquipélago repleto de praias de areia de giz, mares cristalinos, por vezes turquesa, outras vezes esmeralda com bancos de areia e recifes de coral fotogénicos e submersos aos capricho das marés.

A Plantation Island – também conhecida por Malolo Lailai – era a segunda maior e a ilha com mais infraestruturas desse arquipélago. Até 1966, fora detida por uma tal de família chinesa Wong Ket que retirava um lucro irregular dos milhares de coqueiros plantados.

Os endinheirados australianos Raffe e outros sócios compraram-na e construíram a pista de aterragem actual. Aos poucos, dotaram-na também de bures (cabanas fijianas) requintadas e prepararam-na para acolher a vaga de visitantes aussies e kiwis (depois, asiáticos) que começava a dar às costas de Fiji e que fez desta nação insular a mais turística do Pacífico do Sul.

Centenas de nativos viram-se prendados com os empregos criados pelos investidores. Na Plantation Island, eram sobretudo mulheres e mahus (assim é chamado terceiro género da Polinésia) os responsáveis pelo atendimento e tratamento dos clientes. “Que tal estão a achar até agora da ilha?” questionavam-nos com demasiada frequência funcionários como Teresia e Api - este último com fortíssimos trejeitos efeminados - mais que fiéis à função que exerciam e à tradição de acolhimento da sua terra: “Já foram espreitar a vista do Uluisolo, o ponto mais alto da ilha? De lá conseguem-se ver até as Yasawas. Vão entretanto, que apanham o pôr-do-sol! “

Ainda para lá caminhámos mas não chegámos a tempo. Para compensar, no dia seguinte, bem cedo, saímos directos num itinerário de lancha e snorkeling pela barreira de recife de Malolo com uma derradeira paragem balnear nos bancos de areia em frente à ilha. O timoneiro e o auxiliar a bordo tinham a evolução da maré controlada quase ao segundo e fizeram desembarcar os passageiros no preciso momento em que a água começava a descobrir os baixios. Num ápice, ficaram descobertas pequenas praias quase privadas de que todos os hóspedes desfrutaram sem cerimónias, alguns simplesmente deleitados em banhos simultâneos de mar e de sol, outros, num corrupio de actividades bastante mais físicas.

Estava a comitiva da lancha neste recreio sortido quando, vindo do nada, qual super-herói dependurado das nuvens, apareceu a toda a velocidade um jovem kitesurfer que se entreteve a exibir a sua mestria sobre a prancha. Um dos tripulantes do barco não resistiu ao mexerico: “É o Jason Raffe, um dos irmãos da Hannah. Quando cá está, passa os dias ou a fazer mergulho ou naquilo. Há vidas assim!” 

Guias: Fiji+