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Cidade dourada

Cidade dourada

Jerusalém, disposta para lá das velhas muralhas mandadas reerguer pelo sultão otomano Suleiman I, a partir de 1537.

Jerusalém, Israel

Mais Perto de Deus

Três mil anos de uma história tão mística quanto atribulada ganham vida em Jerusalém. Venerada por cristãos, judeus e muçulmanos, esta cidade irradia controvérsias mas atrai crentes de todo o Mundo.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O lento entardecer apresta-se a encerrar mais uma sexta-feira de Verão, quando a sirene longa e grave do sabat ecoa pela Cidade Velha e assinal o início do descanso obrigatório. Movida pela sua fé e identidade religiosa, uma multidão judaica desce as ruas labirínticas e apertadas de Jerusalém. O movimento faz oscilar os tzizits (franjas de cordão) das ancas dos fiéis haredim, a que se usa chamar ultraortodoxos. E o mesmo acontece aos peot, os cabelos encaracolados que lhes pendem das têmporas como que a querer escapar à clausura dos solidéus e da panóplia de chapéus que, consoante a origem geográfica de cada seita, coroam as suas vestimentas típicas: borsalinos, fedoras, shtreimels, kolpiks, trilbys e por aí fora.

As mulheres acompanham a curta peregrinação, degrau atrás de degrau, em vestidos simples e com todas as extremidades compridas, como aconselha a conduta tzniut que lhes requer modéstia de aparência e comportamento.

Não tardamos a confirmar a importância do negro para os ultraortodoxos, a sua cor da severidade, que denota o receio pelo céu, o respeito por Deus e pela vida, o repúdio total da frivolidade. À medida que o tempo passa, revela-se predominante nos longos trajes (bekishes, kapotehs e rekels) que vemos agrupados na secção masculina do Muro das Lamentações, o Kotel como preferem que se lhe chame os judeus. Não afecta a onda de festejo e comoção generalizada que, confronta a mudez milenar das suas gigantescas pedras e toma conta do lugar. Pelo contrário, de cada uma das entradas, afluem à praça contígua mais e mais judeus solidários, predispostos a renovar a sua crença e a comemorar o triunfo do sionismo.

Chegam grupos eufóricos de jovens soldados das IDF – Israel Defense Forces - fardados de verde-azeitona e juntam-se-lhes estudantes yeshivá, de folga dos seus estudos da tora e do Talmude.

Segundo o quarto mandamento das escrituras hebraicas, o sabat sugere a veneração do compromisso de Deus perante o povo de Israel (Exodus 31:13-17), a celebração do dia em que descansou depois de ter completado a Criação (Exodus 20:8-11) e o fim dos sete dias semanais de escravatura a que os Israelitas estiveram submetidos no Egipto (Deuteronómio 5:12-15) até ao resgate conduzido por Moisés. De forma multifacetada e até contrastante, estas determinações são cumpridas à risca. Impressionam qualquer gentio que acompanhe os acontecimentos.

Numa primeira frente, alguns haredim baloiçam-se junto ao muro, ou agarram-se a ele e beijam-no num­­­ esforço incondicional de invocação divina. Essa linha é seguida de outras em que, instalados em cadeiras e igualmente munidos de livros de oração, os haredim – e ocasionais hadis (crentes convencionais) repetem as preces divinas. O som que emitem funde-se com o de muitas conversas paralelas e gera um zunido que serve de fundo à folia protagonizada mais atrás por soldados e estudantes que, abraçados, formam uma roda em que dançam e cantam em coro ou à desgarrada, sob o ondular vitorioso da bandeira de Israel.

Há cerca de dois mil anos, os construtores do Muro Ocidental não poderiam ter previsto que a sua criação seria promovida ao mais importante santuário religioso do povo judeu.

Parte de um projecto ordenado por Herodes cerca de vinte anos antes do nascimento de Cristo para agradar a César, o muro contribuiu para a remodelação do Segundo Templo – construído por Ciro II da Pérsia no mesmo local em que existira o Templo de Salomão. Essa remodelação foi considerada por muitos judeus uma profanação já que desrespeitava o modelo revelado por Deus a David, o segundo rei do reino Unido de Israel.

Mas a profanação provou-se apenas uma das agruras que os judeus tiveram que suportar sob o jugo romano e, quando Titus Flavius esmagou a primeira das suas revoltas contra o império, no ano 70 d.C., o templo e as três muralhas que o protegiam foram devastados tal como grande parte de Jerusalém. Alguns anos depois, Adriano (o sucessor de Titus Flavius) deu à cidade o nome de Aelia Capitolina e condenou os judeus uma vez mais ao exílio.

A destruição do templo e a renovação da diáspora - substanciada ao longo dos séculos pela invasão de sucessivos povos do que havia sido a sua pátria - condenou a vida religiosa judaica a uma era de caos que, para muitos, só terminou com a fundação do estado de Israel. 

Em 617 d.C., os Persas tomaram a cidade aos romanos e, perante uma iminente revolta cristã, permitiram que os Judeus voltassem a governar por três anos. Nesse período, os regressados evitaram a área do Monte do Templo com receio de pisar o seu sanctum sanctorum, acessível apenas aos altos sacerdotes. De acordo com os textos rabínicos entretanto compilados, a Sechina, (presença divina) nunca teria desertado as ruínas do muro exterior. Como tal, os fiéis fizeram delas o seu santuário e passaram a ali orar.

Duas décadas depois, a cidade rendeu-se aos exércitos do Califa Omar e, por quatrocentos e sessenta e dois anos, os desígnios da cidade ficaram entregues aos muçulmanos. Entre 688 e 691, os patronos muçulmanos ergueram a Cúpula da Rocha com o propósito de proteger uma laje sagrada tanto para o Islão como para a fé judaica. Segundo os textos do Corão, seria aquele o local de que o profeta Maomé teria partido em direcção ao céu, para ocupar o seu lugar ao lado de Alá (Jerusalém é, por essa razão, a terceira cidade mais sagrada a seguir a Meca e a Medina). E, de acordo com as escrituras judaicas, seria aquele o centro do mundo, o sítio exacto em que Abraão se preparou para sacrificar um dos seus filhos.

Os propósitos do mentor da obra, o califa Abd al-Malik revelaram-se tão pios como estratégicos. A sacralização de Jerusalém tornara-se, havia muito, tripartida mas preocupava-o, sobretudo, que a crescente influência dos cristãos e da Basílica do Santo Sepulcro, seduzisse as mentes árabes. O governador ordenou, assim, que fosse usada como modelo a sua rotunda mas não os interiores lúgubres e as fachadas austeras de pedra.

 

 

Em vez disso, decorou a mesquita com mosaicos resplandecentes e versos do Corão, enquanto a cúpula foi coberta de ouro sólido para que brilhasse como um farol para o Islão.

Em termos visuais, o objectivo foi conseguido. Séculos depois, a estrutura dourada continua a sobressair do casario de pedra da Cidade Velha. E apesar da supremacia político-militar do estado judaico, a Cúpula da Rocha é, hoje, um dos grandes símbolos de Jerusalém e um dos edifícios mais fotografados à face da Terra sobressaindo na panorâmica que se desvenda a partir do Monte das Oliveiras.

 

Cerca de um milénio após nascimento do seu messias em Belém o Cristianismo expandiu-se e transformou-se numa religião sólida, com sede em Roma e ramificada por inúmeros reinos e territórios crentes, do Médio Oriente ao extremo ocidental da Europa. Nesse tempo, Jerusalém passara a ser vista como santa também pelos cristãos e viajaram da Europa exércitos cruzados multinacionais, em múltiplas vagas, para a conquistarem aos muçulmanos. Nunca resistiram por muito tempo às respostas avassaladoras do Islão e, com a queda de Acre, em 1291, a Terra Santa voltou a passar para mãos “infiéis”.

Seguiu-se a integração no Império Otomano (1516) que durou até ao fechar da 1a Guerra Mundial. Durante esse longo período, o muro - que coexistiu no Monte do Templo com a Cúpula da Rocha - tornou-se num lugar de peregrinação que os judeus visitavam para lamentar a sua antiga perda, e assim se vulgarizou como “das Lamentações”.

Mas o desenrolar da epopeia estava longe de ficar por aí. Nos anos vindouros, os povos e religiões que partilharam e disputaram Jerusalém continuaram a cruzar-se na história. Como acontece, todos os dias, nas suas ruas.

Enquanto a Cúpula da Rocha brilha na companhia da mesquita Al-Aqsa e o Muro Ocidental recebe incontáveis lamentos, o local mais sagrado do Cristianismo na Cidade Velha, a Basílica do Santo Sepulcro acolhe peregrinos vindos dos quatro cantos do mundo comovidos por poderem comungar e louvar o sacrifício das últimas horas de Jesus.

Observamo-los a benzerem-se e aos mais distintos objectos, debruçados sobre a Pedra da Unção em que o corpo de Cristo foi preparado para o seu sepulcro por José de Arimatéia, o senador judeu que conseguiu de Pilatos autorização para remover Jesus da cruz. Vemo-los, em seguida, a subirem a pequena escadaria que conduz ao lugar do Monte Calvário onde encontram o Gólgota (o suposto local da crucificação) e, numa capela Grega, a pedra que sustentou a cruz. Já na imponente rotunda da basílica, alinham-se numa fila sob o olhar profundo e austero de sacerdotes ortodoxos e esperam pela sua vez de entrarem no Altar da Crucificação, para depois se entregarem aos restantes espaços soturnos e misteriosos do complexo.

Como a Basílica do Santo Sepulcro - que é muito maior e mais complexa do que as fachadas deixam perceber - também Jerusalém nos engana quanto à sua dimensão e riqueza. Passam-se cinco dias. O imbróglio da Cidade Velha parece-nos miseravelmente explorado, quanto mais o que há para descobrir em redor.

Acedemos ao interior das muralhas de Solimão pela Porta de Jaffa, a mesma que foi atravessada pelo General Edmund Allemby que assim consumou o triunfo dos aliados sobre o Império Otomano na 1ª Guerra mundial antes de, entre várias fanfarronices, o Bloody Bull (assim era também conhecido) ter proclamado um incendiário: “Hoje, as Cruzadas terminaram”.

É sempre a descer da Porta de Jaffa para qualquer lugar dos quatro bairros no interior: o Judeu, o Arménio (o mais pequeno), o Muçulmano e o Cristão, cada qual dotado de uma forte identidade e dinâmica. Com excepção para o Cristão e o Muçulmano que, contra a mais ténue probabilidade, se intersectam, distinguimo-los a todos com relativa facilidade. E, no Judeu, achamos um verdadeiro mundo à parte, subitamente imposto a séculos de história adversa. 

No virar do século XX, o movimento sionista inspirado pelo jornalista judaico austro-húngaro Theodor Herzl impulsionava como nunca o retorno da Diáspora à Palestina e a população ali instalada ascendia a quase 20.000 pessoas, mas o bairro nunca foi integramente judaico. Parte significativa dos seus domicílios e lojas eram alugadas pelos ocupantes a waqfs (propriedades muçulmanas com fins religiosos e caridosos). No entanto, a 14 de Maio de 1948 - um dia antes do fim do Mandato Britânico da Palestina - Israel declarou a independência. Em pleno processo de consolidação, a quase nação viu-se de imediato atacada por várias nações muçulmanas naquela que ficou conhecida pela Guerra Árabe-Israelita ou Guerra da Independência.

Os cerca de dois mil judeus que resistiam ao agravar do conflito no bairro judeu foram cercados e forçados a partir, expulsos pelas tropas jordanas que arrasaram todos os edifícios. Nessa altura, a Cidade Velha viu-se isolada do lado de lá da linha de demarcação. O Bairro Judeu permaneceu sob jurisdição jordana até à Guerra dos Seis Dias, de 1967, quando um exército israelita determinado e fortemente armado a resgatou e destruiu o bairro Mughrabi (marroquino), contíguo ao Muro Ocidental. Na ressaca, seriam ainda expropriados e despejados cerca de 6.000 habitantes muçulmanos e, em 1969, as autoridades sionistas estabeleceram a Jewish Quarter Development Company, com o fim de reconstruir o antigo bairro judeu.

Ao contrário dos vizinhos a norte, o Bairro Judeu actual é, à sua maneira, moderno e, acima de tudo, residencial, erguido em pedra nova, dotado de recreios para as crianças, infraestruturas para cadeiras de rodas e de uma ou outra tecnologia de segurança bem disfarçada pelo visual aparentemente histórico. Outra diferença que detectamos em três tempos é que é vivido e percorrido quase só pela comunidade hebraica e por visitantes estrangeiros. Exploramo-lo com o intento de absorvermos o mais genuíno misticismo judaico nas suas ruas e sinagogas (especialmente a Hurva e a Ramban). Nem por isso nos esquivamos à tarefa mundana de nos sentarmos nos bares locais e de lá provarmos pitas shoarmas, húmus e falafel, repastos milenares tão tradicionais quanto revigorantes.

Deixamos o Bairro Judeu. Atravessamos o Arménio, cruzamos a Porta de Zion e chegamos ao Monte Zion. Ali, jaz uma nova confluência do sagrado que, para não variar, envolve as três grandes religiões abraâmicas. O Monte Zion concentra uma mistura eclética de monumentos e histórias: num campo apenas bíblico, é o lugar do túmulo de David, acolheu a Última Ceia (ali se situa o Cenáculo) e o sono eterno da Virgem Maria. E, menos antigo que as personagens anteriores mas eternamente heroico para os judeus e para o mundo, também Oskar Schindler lá repousa.

Do cimo de Zion, fazemo-nos ao vale de Kidron, a secção mais antiga de Jerusalém que abriga vestígios arqueológicos datados de há mais de quatro milénios. No fim de uma caminhada solitária pelos arrabaldes ressequidos e profundos de Jerusalém em que terá sido fundada a legendária Cidade de David, deparamo-nos com os túmulos atribuídos a Absalão (terceiro filho de David) e do profeta Zacarias.

Para não fugir à regra, também o Monte das Oliveiras se prova prolífico em lugares e monumentos bíblicos. Na base da sua encosta, destacam-se a Igreja de Todas as Nações e o Jardim de Getsemani. Logo ao lado, numa gruta lutuosa, surge o túmulo da Virgem Maria, outro lugar entregue a crentes cristãos que nele renovam a sua fé e comoção.

Já a meia vertente, vislumbramos o brilho das três cúpulas douradas da Igreja Russa Ortodoxa de Maria Madalena, construída, em 1888, por Alexandre III, em memória da sua mãe.

O cemitério judeu ocupa uma boa parte do Monte das Oliveiras. Aumentado desde tempos bíblicos pelo desejo dos judeus de estar em Jerusalém no Dia do Julgamento, o seu lego infindável de jazigos de rocha cortada forma uma paisagem mortuária autónoma, comparável apenas - mesmo se visualmente bem mais marcante - ao cemitério muçulmano adjacente à muralha leste de Solimão.

Anoitece quando admiramos o casario amarelado e irregular da Cidade Santa a partir de um miradouro no cimo do Monte das Oliveiras. A cada minuto que passa, o ocaso doura mais Jerusalém. Ao mesmo tempo, um grupo de judeus haredim, todos trajados a rigor, prossegue com um encontro entre os túmulos homogeneizados dos seus antepassados. A visão serve-nos de preâmbulo visual da cidade.

Confere-lhe algum misticismo adicional que apreciamos com forte deslumbre até a noite cair e Jerusalém ficar entregue ao Deus que todos os seus moradores e peregrinos veneram.