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Escultura Nativa

Escultura Nativa

Pormenor de um do muitos totens tlingit disseminados pelo Sitka National Historical Park.

Sitka, Alasca

Memórias de Uma América que Já foi Russa

134 anos após o início da colonização, o czar Alexandre II teve que vender parte do actual 49º estado dos EUA. Em Sitka, encontramos heranças desses colonos e dos nativos que os combateram.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Quando chegamos ao coração da baixa de Sitka, um sacerdote ortodoxo conversa com fiéis à entrada da catedral de Saint Michaels, o assento do Bispo de Kamchatka, das ilhas Kuril e do arquipélago aleuta. A sua batina negra e as barbas grisalhas fazem total sentido na proximidade da igreja azul e branca coroada por várias cruzes de oito braços douradas. A quem não se inteirou da história, podem fazer menos num dos territórios da nação que foi tanto tempo a arqui-rival da pátria dos czares.

Outras referências à América Russa aparecem diante de nós quando menos esperamos. Na vizinha Marine Street, surge a sepultura da Princesa Maksoutoff - a esposa do último governador, numa espécie de extensão VIP do vasto e arrepiante cemitério russo de que o musgo encharcado e restante vegetação se continuam a apoderar. Logo ao lado, impõe-se uma réplica da paliçada que os ex-colonos ergueram para se proteger dos ataques frequentes dos indígenas.

À chegada dos russos, a etnia Tlingit era dona e senhora da região. Depressa espalhou terror entre os invasores o que os obrigou a estabelecer uma aliança oportunista com os rivais Aleutas. Só assim coligados, os russos conseguiram derrotar os nativos na Batalha de Sitka e erguer o entreposto de Novoarkangelsk.

Jimmy Craig conhece a história ao pormenor e orgulha-se da resistência feroz dos seus antepassados. Encontramo-lo fardado de guarda-florestal à entrada do Sitka National Historical Park onde detecta o aroma de fumo de fogueira nas nossas roupas e não resiste a comentar: “Vocês cheiram ao nosso melhor perfume: colónia de lenha! São muitos pontos ganhos na consideração de qualquer Tlingit”. Sejam bem-vindos. Divirtam-se no parque mas tenham atenção. Nos últimos dias foram avistados ursos. Vão falando alto um com o outro. Se derem de caras com algum, acima de tudo não virem as costas!”.

Seguimos o conselho à letra. Embrenhamo-nos na floresta escura divertidos a alimentar diálogos tão fúteis quanto barulhentos. Paramos apenas para admirar cada um dos 18 totens tlingits misteriosos e coloridos e para ler os placares explicativos dispostos ao longo dos trilhos. 

Os ursos também criaram problemas aos pioneiros russos.

Estes aventuraram-se no Alasca quase cem anos antes dos britânicos motivados pela abundância de peles, um bem à época altamente valioso que ali conseguiam em maior quantidade que do outro lado do Estreito de Bering.  

Depois de os seus súbditos terem praticamente extinguido os animais alvo das ilhas Aleutas e de Kodiak, o primeiro governador da colónia, Alexander Andreyevich Baranov deslocou a capital para sul e ergueu Sitka com a ambição desmedida de estabelecer um império das peles que se estenderia da Baía de Bristol até ao norte da Califórnia.

O projecto esbarrou no avanço dos britânicos e não chegou sequer a meio caminho. Ainda assim, os russos dominaram o Alasca até 1867. Nesse mesmo ano,  fecharam um dos piores negócios da sua história.

À época, várias contendas domésticas e conflitos com as tribos nativas, as elevadas despesas com a manutenção da colónia a que se vieram juntar aquelas decorrentes das guerras napoleónicas, esgotaram as finanças de São Petersburgo.

Como último recurso, os russos procuraram vender o território aos Estados Unidos. Os americanos acabaram por concordar com o preço de 7.2 milhões de dólares, um valor inferior a dois cêntimos por acre a que o Partido Republicano chamou “A loucura de Seward” (o Secretário de Estado de Lincoln que assinou o negócio) que se revelaria surpreendentemente lucrativo.

Treze anos mais tarde, os prospectores Richard Harris e Joseph Juneau (este, o que deu o nome à capital actual do Alasca) descobriram ouro no Canal Gastineau. O filão por eles encontrado em conjunto com outros depressa renderam mais de 150 milhões de dólares. 

Parte do património e do modo de vida dos vendedores também passou para as mãos dos compradores. Nenhuma outra povoação do sudeste do Alasca, herdou tanto como Sitka, hoje, com 9 mil habitantes e a única povoação do sudeste do Alasca que desafia o oceano Pacífico.

Como era de esperar, em termos étnicos e culturais, Sitka tornou-se numa verdadeira salada-russa que nos continuou a intrigar.

Passámos parte da noite em redor de uma segunda fogueira na casa de um casal de jovens quakers que se ofereceu para nos acolher. Não éramos os únicos. Caleb tinha chegado da longínqua Fairbanks (cidade do norte alasquense) e também era convidado. “Trouxeram vinho? Que maravilha!” exclama quando detecta a garrafa nos nossos sacos de compras para o jantar. Já Seth e Jillian, os excêntricos anfitriões, não se mostram tão entusiasmados. “Bom, o álcool vai contra os nossos princípios mas não vos vamos impor nada. Bebam e portem-se bem a seguir! Sabem o que são s’mores?” perguntam-nos ainda. Estamos com muita vontade de voltar a fazer uma noite de s’mores. Mas vamo-nos instalando em volta da fogueira. Já vêem o que é.” Por via das dúvidas, antes, mostram-nos onde era suposto dormirmos e, nesse mesmo pequeno quarto, divertimo-nos a observar dezenas trajes folclóricos pendurados que nos parecem adequados a um longo Carnaval. Jillian repara no nosso fascínio: “Gostam? Sou eu que os costuro à mão. Nós, quackers não somos grandes fãs de tecnologia, como já devem ter reparado”.

Saímos para o quintal e para a noite fria daquele Alasca litoral. Caleb já se servira do vinho. Enquanto se aquecia junto às chamas lembra-se de algo que o intrigava. “Vocês conhecem os Portugal. The Man ? São uma banda alternativa de Portland já bastante famosa cá pelo norte dos States. Eu até apostava que vão ficar rapidamente famosos também na Europa. (n.d.A.: foi mais ou menos o que aconteceu e já vieram tocar a Portugal). Porque é que têm este nome? Pois, gostava muito de vos explicar mas a verdade é que não sei. “Para compensar, fez-nos um verdadeiro interrogatório acerca da nossa pátria e garantiu-nos que será uma das suas viagens prioritárias no Velho Mundo.

Entretanto, Jillian distribuí-nos galhos apanhados ali em redor e abre as hostilidades s’morescas. Faz uma mini sanduíche de malvaísco entre bolachas, coloca-a na extremidade do seu galho e começa a tostá-la ligeiramente sobre o fogo. Nós e Caleb, imitamo-la e a Seth que se ria timidamente de tudo um pouco e se protegia do fumo denso que nos fazia engasgar com demasiada frequência.

As chamas e o fumo não tardam a apaziguar-se. Jillian aproveita para nos confessar: “Ah, como isto nos está a saber bem.”. Ainda estamos bastante moídos da aventura da manhã. Fomos minerar ouro para o rio. Nunca pensámos que aquilo cansasse tanto. Ainda por cima não encontrámos nem sinal dele, nem sequer pó.”

Por essa altura, assalta-nos a mente um paralelismo que expomos à fogueira: “Já repararam que se tivessem sido os russos a achar o primeiro ouro cá por estes lados, podíamos aqui estar a falar russo e a beber vodka com pepinos em pickle ?” Ao que Seth contrapõe. “Totalmente verdade. Mas não tenho bem a certeza se isso não acontece ainda de vez em quando aqui pelas redondezas. Podia ser mais visível, mas esta cidade ainda guarda muito de russo. Tiveram azar com o calendário dos cruzeiros mas, quase sempre que cá atraca algum, há um espectáculo de danças tradicionais russas.”

O próximo cruzeiro só chegava passado demasiado tempo. Dois dias depois, embarcámos no M/V Malaspina e continuámos a explorar o Alasca pela rota do seu longo Marine Highway.