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Bar Go-Go na zona nocturna de Patpong.

Banguecoque, Tailândia

Mil e Uma Noites Perdidas

Em 1984, Murray Head cantou a magia e bipolaridade nocturna da capital tailandesa em "One Night in Bangkok". Vários anos, golpes de estado, e manifestações depois, Banguecoque continua sem sono.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Depois de uma verdadeira viagem de rally sobre três rodas pelas ruas da metrópole, o condutor acelerado imobiliza o seu veículo à entrada da Khao San Road. “Não, não! Eu disse 140 por pessoa. Pagam 280! Grita o dono do tuk tuk tentando disfarçar a sua pequenez”.

Aproveita a presença de colegas que aguardam a saída dos turistas para outros recantos de Banguecoque, levanta a voz e aposta numa esperteza que, por certo, funciona com a maior parte dos visitantes mais inexperientes. Passamos-lhe 150 bahts para a mão, agradecemos o serviço e integramo-nos na multidão frenética de thais e farangs que ocupa esta artéria cosmopolita da cidade.

Chegamos de um voo longo proveniente da Europa e o cansaço aperta. Usamos as derradeiras energias para carregar as mochilas e procurar uma guest-house suficientemente digna dentro de um orçamento modesto que só há pouco tempo começámos a esgotar.  Estamos conscientes de que Banguecoque acolhe dos melhores hotéis à face da Terra mas, duas inspecções depois, já nos falta a paciência e cedemos ao desconforto de um quarto exíguo e espartano que treme com o drum & bass dos bares mais próximos. Assim instalados, somos de imediato separados por relações opostas com o jet-lag. As horas passam e o ribombar refreia-se aos poucos mas nem por isso me chega o sono. Quando os primeiros raios de sol entram através dos cortinados mal fechados, desisto de esperar e saio para comer algo e explorar a madrugada da Khao San Rd que, pela ausência de ruído, pensava já deserta. Faço-me aos asfalto semi-molhado por uma curta chuva tropical. Não chego a percorrer vinte metros quando sou abordado por uns poucos vultos até então abrigados. Um esquadrão de ladyboys determinados interpõe-se entre mim e o néon 7Eleven que brilha ao fundo. “I want to meet you”, “Come here, precious!” e “You should try my tricks” são só algumas das frases de engate que me deixam ainda mais desorientado. Acelero o passo e vou-me furtando às propostas até que a loja de conveniência me salva. Lembro-me que estou na velha Krung Thep, a cidade dos anjos do oriente e interrogo-me se também estes espécimes contarão para o epíteto.

Resisto duas horas sentado na loja a ler uma revista e regresso ao quarto a tempo de sairmos à descoberta de Banguecoque, durante o dia entregue aos seus palácios, templos budistas e mercados, ao fluir lamacento do rio ChaoPraya e à humidade e calor alimentados pelas monções do Sudeste Asiático que tantas vezes descambam para chuvadas intermináveis. Vasta e com pouca sombra, a capital tailandesa pode revelar-se uma metrópole desgastante para quem chega com a missão de a explorar nuns poucos dias. São as inúmeras recompensas nocturnas que acabam por fazer esquecer a fadiga.

Com o pôr-do-sol, a Chinatown local ganha nova vida e as suas bancas e pequenos restaurantes fritam mariscos e moluscos, preparam pad thais e fried rices e servem as especialidades chinesas preferidas pela população do distrito Samphanthawong em redor.

Passam mais e mais tuk-tuks com pinturas garridas e luzes fluorescentes que os sinalizam aos transeuntes. Novo, cada um  custa em redor de 1000 euros e apesar das autoridades os terem tentado proibir no passado, ano após ano, Banguecoque é inundada com mais alguns milhares destes veículos barulhentos e poluentes. A razão é simples. Quase todos os seus condutores são tailandeses do Nordeste que chegam à capital sem dinheiro para alugar os táxis de marca japonesa – agora em grande parte cor-de-rosa - com que disputam as ruas.    

O dia aproxima-se do fim mas vários negócios insistem em facturar aproveitando uma maior disponibilidade das pessoas libertas dos seus trabalhos. É o caso de algumas tendas com fruta exótica, de outras repletas de roupa e adereços mas também de ourivesarias bem recheadas de cordões, anéis e pulseiras e com um número aparentemente excessivo de empregados.

Noutras zonas mais centrais, os pequenos salões de massagens ficam mais activos que nunca. Pela diferença de dificuldade de cada uma das missões, ir à Tailândia e não experimentar uma massagem tailandesa é bem mais grave que ir a Roma e não ver o Papa. Muitos estrangeiros chegam escaldados por excesso de sol nas praias do sul, doridos de caminhadas nas montanhas do norte ou simplesmente de voltas sem fim a pé e de tuk-tuk na capital. Alguns chegam convencidos de que vão ser mimados e acarinhados mas o estilo tai tem pouco que ver com outros orientais e ocidentais, bem mais suaves. Quando chega a nossa vez, as massagistas fazem questão de nos ensinar a dizer “diep” e “mai diep” as palavras do seu dialecto para dói e não dói. E o tratamento depressa o justifica. Dedos, punhos, cotovelos, pulsos, joelhos e pés estimulam os corpos pouco preparados que, de quando em quando, também são puxados, torcidos, pisados e manipulados numa espécie de Yoga passivo. Na teoria, o objectivo é conseguir uma redistribuição homogénea da energia pelo sistema nervoso por forma a gerar um fluxo mais harmonioso e saudável. Na prática, as sensações mistas e alternadas de dor e prazer formam uma experiência que os clientes concordam em denominar brutalmente agradável. Dependendo de quem as descobre, outras podem revelar-se agradavelmente brutas.

O Muai Thai pratica-se, há séculos, por toda a Tailândia mas ganhou um protagonismo lógico em Banguecoque onde se situam inúmeros ginásios de treino e os principais ringues que recebem torneios nacionais e mundiais. Entretanto, a modalidade conquistou adeptos e vários campeões noutros países de tal maneira que só nos rankings das categorias mais leves surgem tailandeses.

Na altura em que passámos pela capital, não estava previsto nenhum grande evento mas acabámos por espreitar um torneio de exibição menor levado a cabo num pavilhão demasiado escuro e desprovido de público. Como era de esperar, a violência dos socos e pontapés acabou por impressionar bastante mais que o ambiente envolvente.

“One night in Bangkok makes a hard man humble. Not much between despair and ecstasy” resumia o refrão de Murray Head, no âmago do seu mega-sucesso pop-rock de 1984. A sensação  confirma-se vezes sem conta assim que os visitantes ganham noção do que está por trás de muitos dos espectáculos da cidade.

Lutadores de Muai Thai vencedores e milionários chegam das províncias remotas do país onde são introduzidos e mantidos no desporto ainda crianças como forma de rendimento extra das famílias pobres. Algo do género se passa noutro distrito célebre da capital onde vários bares disfarçam apenas o necessário uma actividade sexual que sustenta milhares de famílias indigentes.

Originalmente pertencente a uma família de imigrantes chineses, os Patponganit, Patpong foi sendo ocupada por negócios e bares. Por volta de 1968, era já conhecida como uma das R&R (Rest and Recuperation) zones predilectas dos soldados norte-americanos de serviço na Guerra do Vietname e, nos anos 70, tinha-se já tornado na principal área de vida nocturna da capital, hoje disputada por outras bastante mais requintadas.

Visitamo-la, como tantos farangs curiosos, com o objectivo de descobrir o exotismo decadente dos seus go-go bars e, enquanto nos distraímos com bancas à pinha de um pouco de tudo, somos abordados por agentes  que nos mostram menus repletos de habilidades pseudo-sexuais sem quaisquer escrúpulos – quase todos baptizados como pussy qualquer coisa. “Entrem, entrem! Temos ping-pong pussy prestes a começar!” Acabamos por espreitar um antro barulhento, iluminado por néon e em que dezenas raparigas de biquíni ou topless dançam elevadas sobre um balcão e agarradas a um varão. Assistimos a um dos shows populares refrescados por duas cervejas nacionais Singha.

Quarenta minutos depois, regressamos à atmosfera menos abafada da rua, apanhamos um tuk-tuk e mudamo-nos para o bazar nocturno Soi 38 para recuperarmos forças a devorar espetadas de almôndegas de peixe e outras especialidades gastronómicas de rua. Essa noite da grande Banguecoque, também a perdemos. Não seria a última.