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Sombra Missioneira

Sombra Missioneira

Grupo aprende a história da missão de San Ignácio Mini à sombra de uma árvore.

Misiones, Argentina

Missões Impossíveis

No séc. XVIII, os jesuítas expandiam um domínio religioso no coração da América do Sul em que convertiam os indígenas guarani. Mas as Coroas Ibéricas arruinaram a utopia tropical da Companhia de Jesus


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Coisas como estas acontecem uma vez por outra na vastidão remota entre os rios Paraná e Uruguai a que, por afinidade à dupla fluvial do Crescente Fértil, os colonos baptizaram de Mesopotâmia Argentina.

Fartos de esperar pelo autocarro que nunca aparece e desconfortáveis graças ao frio Invernal que invadia o Cone Sul, apanhamos um outro autobus qualquer e avançamos até à estação de camionagem que se seguia. Ali, voltamos a comprar passagens para uma viagem que iria tardar.

Escurece a olhos vistos. Refugiamo-nos no único café aberto e pedimos chocolate quente ou algo que nos aconchegue. “Desculpem mas já estamos a fechar. Podem sentar-se mais um bocado mas não temos nada disso.” afiança o dono, entregue a limpezas. Em desespero, perguntamos se nos serve chá mate, que andávamos para provar fazia algum tempo. “Já não tenho água a ferver.” Responde-nos sem pejo. “Querem tereré??” Ignoramos a necessidade de reaquecer. Em vez, cedemos ao repto de outra das bebidas incontornáveis daquelas paragens.

Ao jeito de crianças que experimentam cerveja pela primeira vez, desiludem-nos o travo amargo, as folhas grandes a boiar e a temperatura frouxa da bebida. Sabemos, no entanto, que estamos a saborear parte da história e da cultura da região e estimulamo-nos a insistir. Por alguma razão haveriam tantos argentinos e uruguaios, entre outros, de viajar com termos debaixo do braço e guampas (bombas) por esse mundo fora, quando a infusão não foi sequer criada pelos seus antepassados do Velho Mundo.

Crê-se que os indígenas guarani já a consumiam muito antes da chegada dos primeiros conquistadores e missionários aos seus territórios. Os índios apresentaram o ka’a aos jesuítas. Estes, reconheceram o milagre da força e vigor concedidos pela cafeína presente nas folhas. Foi apenas um dos muitos ensinamentos que os nativos lhes transmitiram mesmo se, de acordo com o que era normal na época, os religiosos depressa assumiram uma posição de supremacia no que viria a provar-se um longo e profícuo intercâmbio cultural.

Por volta do século XVII, a Companhia de Jesus, aperfeiçoou uma estratégia de controle das populações autóctones abençoada pelo rei Filipe III de Espanha. O método passava por reunir indígenas em missões para assim anular hábitos de nomadismo e a sua estrutura política. Simplificava-se, assim, por vezes sob auspício dos próprios caciques, a sua evangelização, a administração e a taxação. O método começou por ser implementado na zona do actual Paraguai. Foi alargado a áreas da Bolívia, Brasil e ao mesmo extremo nordeste da Argentina que explorávamos.

Já amanhece quando deixamos o transporte alternativo às portas de San Ignacio Miní, uma das 16 congregações que os jesuítas fundaram em redor do Alto Paraná argentino, a partir de 1607.

Um edifício moderno adapta a estrutura de nave de igreja, abençoado pela figura de San Ignacio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, que parece supervisionar as intenções dos visitantes a partir de um nicho elevado sobre o centro do frontal.

No interior, encontramos expostas pinturas que recuperam o que terão sido episódios da vida da congregação, com indígenas junto de quase catedrais e jesuítas na companhia de militares. 

Lá fora, damos com um relvado amplo resgatado à selva em que se dispõem as ruínas ocre que subsistiram ao passar do tempo, em redor dos resquícios de uma enorme igreja. Não resiste qualquer tecto dos edifícios erguidos em barroco guarani mas muitos dos aposentos foram reconstruídos e têm expostos fachadas e frontões trabalhados com um visual excêntrico de olaria eclesiástica. Num deles, percebe-se o trigrama cristológico de Ihejus divulgado no século XIV pelo pregador São Bernardino de Sena, o símbolo IHS que Inácio de Loyola admirava e recuperou para a ordem.

Do lado poente da igreja, surge ainda uma sequência de colunas. Uma delas foi engolida por uma figueira-da-Índia. Apuramos que lhe chamam a árvore com o coração de pedra. É mais ou menos aquilo que os missionários jesuítas pensavam dos arqui-rivais bandeirantes que os atacavam vindos de Leste, das terras costeiras do Império Português. Roland Joffe, realizador franco-britânico foi um de vários interessados por este fascinante contexto histórico. Nos anos 80, criou um épico premiado com a Palma de Ouro, galardoado com um Óscar de melhor cinematografia e com lugar proeminente na memória cinéfila.

Mais tarde, já em Posadas, somos questionados por dois irmãos curiosos com as nossas origens e bem-dispostos. “Ah, são portugueses?? Vocês eram os maus, lembram-se?” A abordagem intriga-nos.

“Não se lembram de “A Missão”?, do Rodrigo Mendoza?” (n.d.a: personagem representada por Robert de Niro). Vocês é que vinham cá para raptar os pobres indígenas e, como se não bastasse, ainda destruíram as reduções!” continuam a satirizar com um à vontade que envergonha a mãe a seu lado mas nos diverte.

De acordo com o enredo, os jesuítas tinham convertido os nativos e continuavam a formá-los numa série de virtuosidades do Velho Mundo como a mestria musical e os dotes vocais, em grandes coros religiosos. Com base em São Paulo, os bandeirantes desdenhavam estes progressos. Continuavam obcecados pelos lucros que os escravos lhes garantiam e aproveitavam o facto de algumas das missões ocuparem territórios portugueses ou dúbios para prosseguir com os seus ataques.

Os jesuítas reagiram. Mudaram algumas congregações para terras hispânicas. Com a permissão da Coroa Espanhola e o contributo dos índios guaranis, criaram milícias de defesa que derrotavam os bandeirantes. Estabilizada a segurança, as missões desenvolveram uma organização social, laboral e militar impressionante que garantiu a auto-subsistência e excessos produtivos de gado e de erva-mate que os jesuítas transformaram em proveitos.

Os seus exércitos tornaram-se poderosos ao ponto de anularem as pretensões expansionistas das forças portuguesas e os ataques de povos indígenas beligerantes. Também apoiaram a Coroa Hispânica contra as primeiras intenções independentistas da região.

Apesar da utilidade estratégica das Missões, Fernando VI, considerou prioritária a pacificação do conflito com os rivais ibéricos. Aceitou trocar a praça de Colónia del Sacramento (que tinha mudado várias vezes de lado desde a sua fundação e que os guaranis o tinham ajudado antes a conquistar) por cerca de 500.000 km2 detidos pela Companhia de Jesus na bacia do Alto Uruguai. Em 1750, o Tratado de Madrid oficializou esta permuta. Obrigou 7 missões, estâncias pertencentes a outras 5 e quase 30.000 guaranis a aceitar a soberania dos  portugueses ou a mudar-se para Ocidente do rio. Também deu origem à Guerra Guaranítica (1754-56) que opôs as forças jesuítas e indígenas às portuguesas e espanholas.

Nós, como, por certo, os irmãos de Posadas, ainda nos recordávamos das cenas épicas de “A Missão” que mostravam o Padre Mendoza arrependido, convertido e líder da resistência indígena atado a uma cruz e, em queda numa das cataratas de Iguaçu, no desfecho de uma batalha que acelerou a mais que provável vitória das potências coloniais. Também recuperamos com facilidade a banda sonora grandiosa que Ennio Morricone criou para musicar aquelas imagens.

Em 1759, o Marquês de Pombal decidiu afastar os obstáculos ao seu absolutismo e expulsou a Companhia de Jesus de Portugal. Oito anos depois, o rei Carlos III promulgou a Pragmática Sanción que decretou a sua expulsão dos territórios espanhóis e ditou o fim do projecto missionário na América do Sul. Por essa altura, o governador hispânico de Montevideu terá entrado na Missão de San Miguel - uma das congregações que não conhecia - e exclamado com fúria: “E é este um dos povos que nos mandam entregar aos portugueses? Deve estar louca esta gente de Madrid!”.

Colónia de Sacramento nunca foi cedida aos espanhóis. Em 1761, durante a guerra dos Sete Anos que se seguiu, o Tratado de Madrid foi anulado pelo Tratado de El Pardo. 

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