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Um, dois, três

Um, dois, três

Visitantes encenam poses divertidas com as Ruínas de Talisay City em fundo.

Talisay City, Filipinas

Monumento a um Amor Luso-Filipino

No final do século XIX, Mariano Lacson, um fazendeiro filipino e Maria Braga, uma portuguesa de Macau, apaixonaram-se e casaram. Durante a gravidez do que seria o seu 11º filho, Maria sucumbiu a uma queda. Destroçado, Mariano ergueu uma mansão em sua honra. Em plena 2ª Guerra Mundial, a mansão foi incendiada mas as ruínas elegantes que resistiram eternizam a sua trágica relação.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Passaram apenas uns minutos desde que a cicerone Betsy Gazo, jornalista do Sunstar de Bacolod nos recebeu à saída do ferry. Percebemos, noutros tantos, o amor que Betsy tinha por aquela terra pejada de história e de incríveis peripécias, coloniais mas não só. “Sabem que eu tenho um amigo português. Estou mesmo entusiasmada por o irem conhecer!” As suas palavras intrigam-nos. “Um amigo português”? Na ilha tão longínqua de Negros? A verdade é que já tínhamos encontrado compatriotas ou descendentes nos quatro cantos do mundo, incluindo nos arredores de Apia, a capital de Samoa. A confirmar-se, tratar-se ia de mais um caso da vasta luso-diáspora.

Betsy não tem como conter a ansiedade em nos contar e mostrar a sua terra natal. Aqui e ali, o entusiasmo leva-a a apimentar a realidade. Não tardamos a constatar que o amigo não era propriamente português mas que o passado secular da sua família nos valeria bem mais que isso.

Chega o dia de o visitarmos. A carrinha deixa Bacolod rumo a Talisay, uma cidade nos arredores. Entramos em nova zona coberta de cana-de-açúcar, cultura porque a ilha de Negros é notória nas Filipinas. Uma cancela detem-nos. Betsy conhece o funcionário na portinhola. Desbloqueia-nos a entrada num ápice. Umas dezenas de passos adicionais e damos com o âmago e razão da fama da propriedade. “Vou ver se encontro o Raymundo. Volto já. Investiguem à vontade!”

Perscrutamos o cenário em redor. Dele se destaca a armação de uma morada em tempos esplendorosa, hoje, misteriosa.

O sol daquelas latitudes tropicais ia a caminho do zénite. Grelhava-nos sem clamor. Quando Raymundo Javellana aparece, dá-nos as boas-vindas e trata de nos arranjar uma sombra junto à fonte de água de quatro pisos que refrescava o jardim. Munido de vários emails, confirma-nos o sangue português que lhe corria nas veias. Descreve-nos como o obtivera bem como a sua relação com as ruínas célebres que tínhamos por diante. Também nos pede ajuda na missão que alentava de identificar o ponto de origem exacto dos ancestrais lusitanos. “Não estão com pressa, pois não? A história é meio longa...”, adianta-nos com um sorriso terno e juvenil.”

Segundo nos conta, Raymundo era bisneto de Don Mariano Ledesma Lacson e de Maria Lacson. Mariano Lacson, por sua vez, era um barão do açúcar de Negros, nos últimos tempos da era colonial hispânica das Filipinas, o mais novo de oito filhos da família Lacson, herdeiro do apelido e de uma plantação com 440 hectares nos mesmos arredores de Talisay City. Abastado, com o futuro assegurado, Mariano aproveitou vários períodos de menos trabalho na plantação para viajar. Desvendava Hong-Kong quando uma jovem macaense lhe despertou a atenção e, pouco depois, a paixão.

Raymundo passa-nos para as mãos um esquema genealógico que tem raiz, em 1630, em Tancos e centra-se, nas últimas décadas do século XVII, em Macau. Por essa altura, Manuel Vicente Rosa começava a prosperar no comércio marítimo entre Portugal continental e a colónia asiática. Contingências da sua vida e do negócio levaram a que, em 1738, se visse desafogado de finanças e uma das personagens mais influentes de Macau. Ainda assim, sem herdeiro. Mandou chamar de Portugal o sobrinho Simão Vicente Rosa, nos seus vinte anos, com o propósito de o casar e de lhe legar a fortuna. O sobrinho não teve como resistir à proposta. Chegou a Macau a 3 de Outubro de 1738. Dezasseis dias depois, casava com Maria de Araújo Barros, noiva pré-seleccionada pelo tio. Este último, faleceu no ano seguinte. Simão Vicente tornou-se ainda mais rico que Manuel Vicente Rosa e, pelo menos, tão influente. Reforçou a sua prosperidade através de empréstimos estratégicos aos Jesuítas, com quem viria a entrar em conflito quando reclamou uma tal de Ilha Verde como compensação por falta de pagamentos. Sucedeu-o nos negócios o seu quarto filho, Simão d’Araújo Rosa.

Simão d’Araujo Rosa concentrou a navegação e actividade comercial que herdara entre Banguecoque e Goa mas, na sua vigência, a riqueza da família definhou, vítima da concorrência da rota cada vez mais rentável de ópio entre Macau e Calcutá, em que não conseguira imiscuir-se.

Em Macau e, mais tarde Hong Kong, os sucessores de Simão d’Araújo Rosa usaram de forma combinada e alternada os sobrenomes do pai e da mãe: Rosa, Rosa Pereira e Rosa Braga. Por fim, adoptaram apenas Braga que, com o tempo, conquistara forte distinção em Goa. Maria, a jovem atraente que chamara a atenção do turista filipino Mariano Ledesma Lacson era uma das descedentes desta então família Braga.

Enquanto Raymundo desenrolava a história, o número de visitantes das suas Ruínas aumentara a olhos vistos. Investigavam o interior da estrutura e todos os recantos do jardim em redor, entregues a incontáveis e inevitáveis selfies e fotos de grupo. Ou a namoricos românticos nas varandas e escadarias do edifício. Também a vida a dois de Mariano e Maria Lacson se mantivera harmoniosa, repleta de amor. Até a desgraça lhes bater à porta.

Mariano e Maria casaram e foram viver para Talisay. Nessa altura, esperava-se de um casal uma família prolífica. Mariano e Maria abençoaram-se com dez filhos: Victoria, Rafael, Mercedes (que mais tarde casou com um Javellana, apelido de Raymundo), Natividad, Sofia, Felipe, Consolación, Angelina, Ramon e Eduardo. Teriam sido prendados com um 11º rebento mas Maria Lacson escorregou na casa de banho e começou a sangrar de forma abundante. O dano provou-se tão grave que em vez de a tentar transportar a um hospital de Talisay, Mariano apressou-se a preparar uma carruagem para ir buscar à cidade um médico que socorresse a esposa. À época, a viagem para Talisay durava dois dias. Mariano demorou quatro a ir e a regressar. Maria e a criança morreram antes que chegasse. Mariano perdeu o amor da sua vida. Sofreu a bom sofrer para recuperar do desgosto.

Mas Don Mariano Lacson tinha dez filhos para criar e uma óbvia obrigação de continuar com a vida. Como expressão de amor-póstumo e de clarividência, decidiu erguer uma mansão em memória da esposa nas imediações da casa em que haviam morado. Planeou uma casa em que ele e os filhos pudessem viver em desafogo e que, ao mesmo tempo, mitigasse a memória dolorosa do lugar em que Maria perecera. A ideia acolheu a concordância do sogro. Este, contribuiu financeiramente e, crê-se, que com os planos de arquitectura neo-romanesca italiana da mansão. Don Mariano confiou a obra a um engenheiro local: Luís Puentevella. Um dos filhos Lacson supervisionou-a.

À imagem dos antecedentes o pai de Maria era capitão de navio. A casa de dois andares foi assim dotada com a sua marca, com repetidos ornamentos em forma de concha nos cantos superiores, os mesmos que identificavam, então, na Nova Inglaterra, os lares de capitães de barcos.

Pormenores adicionais testemunharam o amor de Mariano por Maria: os dois “M” em cada pilar em volta do exterior da mansão, claras de ovo adicionadas ao cimento usado na construção para lhe conferir um visual e textura, refinados como os do mármore, que representasse a pele de alabastro de Maria característica das mulheres mediterrânicas.

A mansão tornou-se a maior estrutura residencial de Negros, dotada das melhores mobílias, louças e outros elementos decorativos. Foi algo favorecido pelo pai de Maria Braga poder navegar mundo fora e assegurar o seu transporte, como assegurou de trabalhadores chineses.

Três das filhas de Mariano – Victoria, Consolación e Angelina - nunca casaram. De acordo, viveram no andar superior naquela mansão esplendorosa, enquanto os irmãos homens residiam no térreo. Dizem as más línguas que esta distribuição dos filhos na casa determinada por Don Mariano impediu uma aproximação condigna dos pretendentes às donzelas que assim dela usufruíram por bastante mais tempo. Até que nova tragédia lhes roubou o privilégio.

Definia-se o palco asiático da 2ª Guerra Mundial. A invasão nipónica das Filipinas estava eminente e Mariano Lacson e os filhos viram-se obrigados a deixar a ilha de Negros.

O boato de que os japoneses transformariam a mansão num seu quartel-general, fez com que a guerrilha filipina sob comando norte-americano USAFFE se visse obrigada a incendiá-la. A mansão ardeu durante três dias em que o fogo consumiu telhado, pisos e as portas de 5 cm de espessura tudo feito de madeiras nobres como tindalo, pau-rosa, kamagong e outras. Já a estrutura de ferro e cimento, resistiu. Permanece intacta e fascina quem quer que hoje visite as Ruínas.

Don Mariano Lacson (1865-1948) faleceu três anos após o desfecho da 2ª Guerra Mundial. Raymundo Javellana, o nosso anfitrião e interlocutor era neto de Mercedes, uma das três filhas de Mariano e Maria que casaram. Raymundo tornou-se também o dono inconformado e criativo da fazenda e do que sobrava da mansão dos bisavôs. Foi dele a ideia de transformar as Ruínas do seu ninho num memorial à altura.

Voltamos a visitá-las ao fim do dia, atentos a como o pôr-do-sol e o lusco-fusco moldavam a atmosfera do lugar. Por essa altura, dezenas de visitantes formavam uma fila para fotografarem a estrutura reflectida numa pequena mesa de jardim semi-espelhada. Outros, contracenavam para distintas fotos, rendidos ao significado emocional do lugar entretanto apelidado de “Taj Mahal de Negros”. Uma banda de Bacolod não tardou a inaugurar a sua actuação nocturna e contribuiu com uma banda sonora vigorosa para aquela intrigante celebração da vida e da morte. 

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