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Túnel de gelo

Túnel de gelo

Marco C. Pereira dentro de um iceberg do Glaciar Valdez.

Valdez, Alasca

Na Rota do Ouro Negro

Em 1989, o petroleiro Exxon Valdez provocou um enorme desastre ambientai. A embarcação deixou de sulcar os mares mas a cidade vitimada que lhe deu o nome continua no rumo do crude do oceano Árctico.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Rainier personifica e protagoniza a vida genuína do Alasca, tão complexa e assumida que não deixa lugar a críticas ou reparos.Vem ao nosso encontro junto ao porto de Valdez, num dia de trabalho mais incomodativo que os restantes.

“Filho da mãe do chinês, desabafa sem pudor.” Logo hoje é que tinha que aturar aquilo”. “O namorado deixou-o e agora parece uma criança descontrolada a quem tiraram todos os brinquedos”. Gerry ri-se tranquilamente e tenta acalmá-la “Está tudo bem querida. Já não tens que voltar mais para lá, hoje”. E beijam-se pela quinquagésima vez.

Seguimos o jipe de Rainier até um atrelado plantado num trailer park nas proximidades do aeroporto local. À chegada informa-nos sem cerimónia: “É aqui. Eu vivo numa vivenda com o meu marido. Este atrelado, uso-o para estar com o Gerry.” “Fiquem à vontade. Eu já volto. Tenho que ir dizer ao Chris que já chegaram. Ele está cheio de vontade de vos conhecer.”

Gerry é distribuidor e vendedor da marca de refrigerantes Dr. Pepper, Chris é um dos responsáveis pela segurança da Alyesca Pipeline, a empresa que explora a conduta que traz o petróleo alasquense do longínquo oceano Árctico até ao Golfo do Alasca.

Em comum têm apenas Rainier e Valdez. Gerry foi em tempos colega de trabalho no bar de Pepe, um espanhol  ganancioso e mal visto, com negócios obscuros que brilharia em qualquer filme de Almodovar. Gerry é o namorado actual. Chris é o marido oficiosamente separado de Rainier e pai de Forest, a filha de ambos.

Conversa puxa conversa, vêm à baila a prosperidade de Valdez, concedida pelo ouro negro do Mar do Alasca. Rainier riposta motivada em impressionar-nos.

“Bom, se isso vos desperta curiosidade, ainda mais interessante vão achar o meu ex-marido. Ele sabe quase tudo sobre o petróleo do Alasca.”

Continuamos o repasto no atrelado com entusiasmo até que o bonacheirão Chris aparece com salmão seco, pedaços de alce e de foca, estes, embebidos na sua gordura, além de distintos doces de frutos silvestres, e assim renova o convívio à moda dos antepassados. Enquanto provamos as iguarias e admiramos algumas das suas esculturas em ossos penianos baculum de focas, morsas e leões-marinhos macho (oosik em vários dialectos nativos), Chris explica-nos melhor a sua improvável origem helénico-inupiaq e as lógicas étnicas do Alasca: como, por norma, a etnia Athabaskan - dispersa pelo sul do território e por grande parte do Lower 48 – é aquela com que os “verdadeiros” indígenas alasquenses mais embirram e como o termo esquimó não faz sentido nem ao seu grupo étnico inupiaq nem a nenhum outro. Em seguida, a conversa muda de rumo. Chris tem um irmão gémeo, Joe, que é considerado o Top Cop do Alasca e objecto de reportagens das principais publicações locais. Ele, por sua vez, há muito que trabalha para a Alyeska Pipelines Service Company, uma empresa do consórcio multimilionário Alyeska (grande terra, no dialecto arcaico aleuta) formado pelas  companhias proprietárias do sistema de condutas Trans-Alasca que exploram e comercializam o petróleo do 49º estado norte-americano.

“Uma das principais condições das autoridades nativas para autorizar a construção do sistema de condutas nas suas terras foi uma determinada cota de empregados indígenas ao serviço. Eu sou só um de muitos. Cheguei  a um cargo elevado e ganho bem (confessa-nos que uma média de 120.000 dólares por ano) mas tenho responsabilidade a condizer. A conduta tem 1300km. Quando não são proprietários frustrados, são os ambientalistas radicais e irracionais ou um maluco qualquer. Há sempre alguém interessado em danificar ou sabotar aquele cano.” Pelo que acrescenta, apuramos que a paranóia yankee se disseminou pelos confins da nação e contribui para o estado de permanente sobressalto. 

”No 11 de Setembro, espalhou-se por Valdez que os terroristas iam fazer despenhar um dos últimos aviões desviados sobre os reservatórios da cidade ou a conduta. Foi uma agonia em directo até que todos aterrassem.”

Na ocasião, a pequena cidade saiu incólume mas, em 1989, não teve a mesma sorte. Essa confirmou-se vinda do mar.

Três anos antes, a companhia National Steel and Shipbuilding de San Diego, Califórnia construiu duas embarcações gémeas com historiais díspares. O USNS Mercy foi adoptado como navio hospital pela Cruz Vermelha com o propósito de auxiliar missões humanitárias um pouco por todo o Mundo. O Exxon Valdez seria escalado para assegurar o transporte de crude entre o Alasca e a Califórnia. Como o nome na quilha deixava antever, Valdez seria uma das duas paragens obrigatórias dos percursos. Aquando da concretização do projecto de exploração do crude ao largo da costa norte do Alasca, confirmou-se a conclusão que o gelo ali impediria um fluxo regular e seguro de petroleiros, por mais reforçados que fossem. A alternativa passou por construir uma conduta a atravessar todo Alasca de norte para sul e encontrar, numa menor latitude, um porto livre de gelo compacto. Abrigada num dos vários fiordes do Prince William Sound, Valdez provou-se o local eleito para acolher esse terminal e os actuais 18 tanques. 

A economia da cidade, como a do estado, acelerou ao ritmo do transporte do combustível levado a cabo por uma média de 3 a 5 petroleiros por semana. Viria a ser vítima de negligência.

No dia 23 de Março, às 9.12 da noite, o Exxon Valdez zarpou para uma refinaria de Long Beach. Um piloto do porto guiou-o pelos estreitos de Valdez antes de devolver as manobras ao comandante. Este, desviou o petroleiro da pista de navegação normal para evitar icebergs que flutuavam ao largo do glaciar Columbia. Pouco depois, passou os comandos para dois outros tripulantes que ficaram encarregues da ponte. Diz-se que, por engano, o barco foi colocado em piloto automático. Logo após, o comandante obteve nova autorização para rejeitar a pista de saída – ainda obstruída pelo gelo flutuante – e permanecer na de entrada. Às 12.04 a.m. do dia 24 de Março, o Exxon Valdez mantinha-se numa rota errónea e colidiu com o recife de Bligh. O casco da embarcação era simples, em vez de reforçado, e não resistiu.

Muito graças à resposta tardia da companhia Exxon - que enfureceu a população local e os ambientalistas em geral - derramaram-se e espalharam-se pelos fiordes e canais do Prince William Sound e numa extensão de 2000km, um mínimo de 41 milhões dos 200 milhões de litros a bordo, naquele que foi considerado o maior desastre ecológico registado no Alasca. O impacto na natureza revelou-se brutal. Milhares de animais perderam a vida: entre 250.000 e 500.000 aves marinhas, mais de 1000 lontras, 300 focas, 250 águias pesqueiras e 22 orcas já para não falar dos biliões de ovos de salmão e arenque então depositados nas águas e do plancton que era a base da cadeia alimentar da região.

Valdez, grande parte das povoações do Prince William Sound e o Alasca em geral sofreram e viram as vidas das suas populações afectadas a vários níveis. Alguns anos depois, a zona parecia ter recuperado, pelo menos à superfície já que muito crude permanece como sedimento subterrâneo poluente do litoral e do leito do mar.

Rainier e Chris eram colegas de trabalho, criavam a sua recém-nascida filha Forest e prosperavam. Tal como a Meares, uma de várias empresas de navegação que nos permite fazer o derradeiro percurso fatídico do Exxon Valdez ao som de uma narrativa da tragédia e deslumbrarmo-nos com o “responsável” glaciar Columbia, com outros glaciares e icebergs imponentes e maravilhas naturais concorrentes das redondezas. Apesar das cicatrizes ambientais duradouras,  o recobro beneficiava toda a cidade, por onde voltariam a passar muitos milhares de litros de crude e de turistas, como Henry Kissinger ou o Rei Olavo V da Noruega, os participantes mais famosos de excursões que visitavam os pontos curiosos ou emblemáticos da pipeline.

São estes os visuais em que crescem os indígenas alasquenses que, como resumiu Rainier, se dividem em duas classes: os que conseguem estudar e ser empregados pela Alyesca Pipeline (como Chris) e os que não conseguem e se entregam ao álcool, ou no melhor dos casos, se submetem à vida árdua proporcionada pelas empresas de pesca e processamento de peixe como a Peter Pan Seafoods que emprega centenas de Sugpiacs, Yupiks, Tananas, Haidas e os “rivais” históricos oriundos do Lower 48, os Athabascans.

Agora que a região recuperou de vez do trauma ambiental e atrai mais visitantes que nunca, assim que o Verão se anuncia, juntam-se aos trabalhadores fixos, milhares de outros sazonais que, por três meses, fazem funcionar os negócios da cidade.

Encontramos, em Valdez, turcos, russos, polinésios de Tonga e Samoa e, claro está, os americanos mais jovens ou pobres que migram do Oregon, Washington, Montana, dos dois Dakotas e até do norte da Califórnia, atraídos pelos ordenados chorudos, pouco ou nada taxados.

Terminadas todas as disputas legais, a empresa-mãe, a Exxon, pagou mais de 600 milhões de euros em indemnizações. O Exxon Valdez, esse, foi proibido de voltar às redondezas. Depois das reparações, mudou várias vezes de nome e de áreas de acção. Em 2010, já na Ásia, denominado Dong Fang Ocean e registado no Panamá, colidiu no Mar da China do Sul com um cargueiro maltês. Ambos os navios ficaram bastante danificados. Em Março passado, foi comprado para sucata e, após uma complexa batalha judicial, acabou nas praias lodosas de Gujarat (região indiana) para ser desmantelado no estaleiro surreal de Alang, já sob o nome algo eufémico de Oriental Nicety.

A relação de Rainier e Chris também navegou por águas agitadas e acabou por se afundar sob inúmeras agruras conjugais. Foi restabelecida numa misteriosa e dinâmica versão tríptica. Por enquanto, goza de uma bonança que permite a convivência dos dois com Jerry. Cabe ao tempo decidir os rumos das suas vidas no Alasca, como o futuro lucrativo mas periclitante de Valdez.