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Um rasto na madrugada

Um rasto na madrugada

Jipe cruza a vastidão avermelhada em redor do Damaraland Wilderness Camp, sobre a alvorada.

Damaraland, Namíbia

Namíbia On the Rocks

Centenas de quilómetros para norte de Swakopmund, muitos mais das dunas emblemáticas de Sossuvlei, Damaraland acolhe desertos entrecortados por colinas de rochas avermelhadas, a maior montanha e a arte rupestre decana da jovem nação. Os colonos sul-africanos baptizaram esta região em função dos Damara, uma das suas etnias. Só estes e outros habitantes comprovam que fica na Terra.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Começamos por confessar que não tínhamos feito o trabalho de casa nem estávamos preparados para a transição dramática que se seguiria. Uns dias antes, completámos o percurso da capital Windhoek para o PN Etosha, confortáveis e a voar baixinho. O mesmo aconteceu no trecho inicial entre Etosha e o Damaraland Camp onde era suposto darmos entrada antes do anoitecer. Atingimos Otavi num ápice. Em Otavi, vemo-nos forçados a abandonar a coluna vertebral rodoviária da Namíbia e a rumar a oeste. Inauguramo-nos nas estradas C do país, de gravilha, em vez das bem asfaltadas B. De Otavi até Outjo, prosseguimos sem queixas mas, de Outjo em diante, depressa nos vimos num inferno motorizado.

O nosso carro e os restantes desataram a levantar uma poeira seca que se infiltrava no habitáculo e nos irritava, tanto como irritava as vias respiratórias e os olhos. O sol e a temperatura subiram a pique e o ar condicionado sucumbiu à invasão do pó. Nas horas que se seguiram, sentimo-nos numa sauna suja. Como se não bastasse, o perfil de montanha-russa do itinerário - que passava sobre rios e riachos exclusivos da época das chuvas - exigia-nos uma atenção redobrada. Súbitas rampas e desvios forçavam-nos a travagens e “aterragens” que ora nos colavam aos bancos ora nos sacudiam. “Isto vai ser sempre assim?” reclama a Sara, suada, derreada, com ar moribundo, do lugar do morto. A verdade é que, por essa altura, não tínhamos ideia de como seriam as próximas duas semanas. Mesmo que os soubesse iguais ou piores, responderia sempre da mesma maneira: ”é só mais um bocado assim. Mais uma horinha estamos lá. Amanhã já nem nos lembramos disto.”

Passou bem mais que uma hora sem sombra de sítio para pararmos, bebermos qualquer coisa e nos refrescarmos. Só interrompemos aquele rally africano para fotografar os primeiros cenários surreais de Damaraland.

Às cinco e meia da tarde, entre montes rochosos e desgarrados, encontramos o parque de estacionamento do Damaraland Camp. Apenas os jipes mais robustos podiam completar o percurso até ao lodge. Como tal, imobilizamos o carro e aguardamos o transfer à conversa com Neil Adams, vizinho de Sabina Waterboer, a habitual guardiã dos veículos. Tanto Neil como Sabina pertenciam à tribo Riemvasmaak e à etnia Damaraland.

Dona Sabina tinha ido a um funeral. Nunca a chegámos a conhecer. Fosse como fosse, depressa percebemos que, mais que um parque de estacionamento, o que ali estava eram vidas. Vidas de desterro numa terra de ninguém.

Duas casas humildes haviam sido erguidas sobre um solo de lixa. Vedações aramadas protegiam os lares, umas poucas árvores baixas e alguns animais domésticos no interior. Quanto mais o jipe demorava mais nos intrigava o porquê de alguém se instalar naqueles nenhures áridos. Sabíamos que estávamos numa zona cruzada por animais selvagens. Puxamos a conversa por aí. “Estas cabras devem atrair aqui de tudo um pouco, não?” “Se atraem”... responde-nos o vizinho de Sabina. De quando em quando, os leões sentem-lhes o cheiro e damos com eles aqui às voltas. Outras vezes, são as hienas-castanhas.” Deixamos o palavreado fluir até nos sentirmos à vontade. A determinada altura, não resistimos: “Não nos leve a mal a pergunta, mas... como é que vocês vieram parar a um lugar destes” “Não tivemos grande escolha”, explica-nos o tranquilo interlocutor que aproveita para nos elucidar sobre a desgraça que assolara a pequena comunidade.

Nos anos 60, sob os auspícios da Liga das Nações, o governo Apartheid da África do Sul ainda governava o Sudoeste Africano, confiscado à Alemanha durante a 1ª Guerra Mundial. Seguindo o exemplo dos anos atrozes da ocupação germânica, esforçava-se por lá implementar uma política de Homelands, coloquialmente conhecida por Plano Odendaal.

De acordo com a recomendação de uma tal de Comissão de Inquérito dos Assuntos do Sudoeste Africano, “o bom aproveitamento dos recursos disponíveis tanto para brancos como para nativos recomendava a criação de terras que acolhessem os diferentes grupos étnicos do vasto território”. Mediante este plano maquiavélico, na prática, as autoridades propuseram-se a exilar comunidades inteiras dos lugares em que viviam, manipulando a sua dignidade como se de um jogo se tratassem. Claro está que, no meio desta pretensa ideologia, inúmeros interesses comerciais falaram mais alto. “Nós tínhamos uma vida perfeita lá em Mgcawu, próximo do rio Orange” diz-nos Neil. “Mas, eles queriam aquela zona toda para mineração e mandaram-nos para aqui.”

Segundo o plano, era suposto o novo bantustão de Damaraland acolher apenas o povo Damara, considerado um dos mais antigos da região da Namíbia, a seguir aos San e aos Nama. O Plano Odendaal continuou a mover os nativos ao bel-prazer dos governantes. Neil e muitos dos vizinhos viram-se obrigados a reerguer-se do nada naquelas paragens inóspitas. O acordo da Srª Waterboer com o Damaraland Camp de tomar conta dos carros, suplementara o seu vácuo existencial particular como uma bênção.

O jipe aparece e interrompe a conversa. Conduz-nos ao lodge onde nos instalamos em três tempos. O ocaso tosta ainda mais os montes e vales circundantes. Torna-os de tal maneira escarlates que nos questionamos se não tínhamos chegado a Marte. Só o jantar à mesa com os outros hóspedes e os respectivos prazeres terrenos dissipam tal dúvida.

Despertamos às 5h30. Um jipe do Damaraland Camp conduz-nos a uma elevação central e sobranceira onde tomamos o pequeno-almoço com a lua-cheia a resistir ao sol que reemergia. A aurora, em vez do ocaso, doura e avermelha o panorama, uma vez mais semi-marciano, de montanhas e vales salpicados por arbustos verdes robustos e espinhosos. Finda a refeição, sob o pretexto de encontrarmos uma das manadas de elefantes do deserto que por ali deambulavam, saímos à sua descoberta.

Três jipes descem a colina para o vale. Começam por seguir em caravana mas logo se dispersam por forma a optimizarem a busca dos paquidermes. Atravessamos vales desolados e cercados por velhas montanhas e vulcões. Na vastidão, uma acácia solitária confirmava a resiliência biológica daqueles confins. A paisagem não tardaria a mudar. Percorremos leitos ressequidos de rios de que saímos para savanas forradas de feno amarelo que uma comitiva de babuínos cruzava a grande velocidade.

Os jipes mantêm-se em contacto via rádio. Trocam informação sobre pegadas e outras pistas. Não tarda, atravessamos a estrada em que tínhamos chegado ao Damaraland Camp na tarde anterior. “Estes elefantes do deserto de cá são especiais, sabem? São muito mais leves e ágeis.” explica-nos o guia.  “Habituaram-se a subir e a descer as colinas. Por isso, às vezes, custa-nos encontrá-los.”

Vasculhamos o lado de lá até à exaustão. Entretanto metidos em vales mais apertados, intersectamos os caminhos seguidos pelos outros jipes e detemo-nos para trocarmos novos indícios. Por fim, já bem para lá das onze da manhã, lá damos com a manada. Eram treze os elefantes, de facto, mais pequenos que os das savanas africanas. Protegiam algumas crias à sombra de acácias lenhosas. Admiramo-los por algum tempo e os bichos a nós.

Em seguida, voltamos ao lodge e refazemos as malas. Despedimo-nos. Rumamos a sul. Quanto mais a sul chegávamos, mais abundavam as fascinantes pilhas de rochas vermelhas, idênticas às que nos cercavam enquanto procurávamos os elefantes.

Uns cem quilómetros depois, constatamos que o mais famoso sitio namibiano de arte rupestre, Twyfelfontein, congregava uma cordilheira desses montes, habitados por lagartos e grandes colónias de híraxes.

Sob um céu azulão que combinava na perfeição com o ocre rochoso, uma guia de serviço com pele negróide mas feições caucasianas, conduz-nos pelo complexo. Leva-nos até onde se encontravam os petróglifos mais famosos. E explica-nos, ao pormenor, o que se sabia dos caçadores-recolectores que lá se refugiaram e que lá gravaram os animais que se viam forçados a caçar, imitados pela etnia Khoi Khoi que lhes sucedeu.

Também nós precisávamos de abrigo para a noite que se anunciava. Como sempre, na Namíbia, o lodge seguinte distava e o itinerário contava com estradas de categoria C, D e piores. Metemo-nos o quanto antes a caminho. Mesmo assim, chegamos ao Sorris Sorris Lodge era já noite cerrada. Andrew, o manager, instala-nos e prenda-nos com um jantar divinal.

Como acontecera no Damaraland Camp e é característico da região, a alvorada desvenda-nos novo lugar inverosímil. A luz morna da manhã incide, de lado, no terraço sobranceiro do lodge e, noutros, anexos, dispostos sobre a encosta de mais um grande outeiro de calhaus de granito rosado.

O sol não tardou a passar para trás do lodge. Destacou, por fim, o cenário para diante daquele anfiteatro privilegiado, escolhido a dedo por Victor Azevedo, um empresário que há muito respira África – viveu em Angola, África do Sul, depois na Namíbia -  e que, após triunfar na restauração, apostou numa rede de lodges que revelassem espaços namibianos eleitos.

Pela frente, a boa distância, tínhamos o leito arenoso do rio Ugab e a planície aluvial que as enchentes fulminantes da época das chuvas faziam alastrar. Acima, impunha-se a Brandberg, um impressionante maciço rochoso com 2573 metros, a montanha rainha da jovem nação africana. Há 72 horas que a geologia excêntrica de Damaraland nos deslumbrava. Decidimos prolongar a estadia no Sorris Sorris com um objectivo bem claro: podermos continuar a admirá-la.