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Sal Muito Grosso

Sal Muito Grosso

Trabalhadores carregam blocos de sal para um camião, nas Salinas Grandes.

Salta e Jujuy, Argentina

Nas Terras Altas da Argentina Profunda

Um périplo pelas províncias de Salta e Jujuy leva-nos a desvendar um país sem sinal de pampas. Sumidos na vastidão andina, estes confins do Noroeste da Argentina também se perderam no tempo.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


“Maravilhosa, não vos parece? Não é por acaso que lhe chamam “La Linda”, gaba-se Roberto - um nativo que conduz passeios guiados pelo centro histórico de Salta – quando se apercebe que fotografamos cada recanto com indisfarçável interesse. “Buenos Aires pode ser a capital e Córdoba tem todas as suas velhas Missões mas olhem que não encontram, por lá, uma Andaluzia sul-americana como nós temos aqui”.

Uma simples caminhada através do centro histórico desvenda o edifício do cabildo (a antiga edilidade), a catedral e várias casas da época dos vice-reis, com as suas fachadas e varandas majestosas. Sente-se, nas ruas, o peso da religiosidade imposta pelas igrejas e, de quando em quando, passam grupos de freiras vindas ou a caminho dos conventos.

Para lá da capital homónima, a província de Salta é uma manta de retalhos paisagísticos e compreende uma panóplia de ambientes, relevos e climas difícil de encontrar noutras partes da Argentina. Da savana chaqueña (área mais próxima ao Paraguai) aos planaltos andinos, sucedem-se desertos e oásis, montanhas cobertas por selva luxuriante e cordilheiras áridas. E, tal como na vizinha do sul, Mendoza, no extremo oeste da região, os picos nevados remotos superam os 6.000 metros de altitude.

De Salta em direcção a sul, a nacional 68 serpenteia entre vales e desfiladeiros cada vez mais secos e avermelhados que acabam por lembrar os cenários do Oeste “cowboy” dos Estados Unidos. Mas, assim que chegamos a Cafayate, a Argentina colonial reclama e reconquista o protagonismo. Nos dias que correm, Cafayate abriga uma  população dedicada de artesãos de prata, tecidos e peles mas é mais conhecida graças à sua reputada produção de torrontés, um vinho branco frutuoso que se diz acompanhar, na perfeição, as idolatradas empanadas saltenhas.

Na manhã seguinte, saímos para a Ruta Nacional 40 e, aos poucos, voltamos a aproximar-nos dos Andes. Os Valles Calchaquíes abrem-se à estrada de ripio em Chicoana e prolongam-se pela Cuesta del Obispo. Desvendam-nos lugarejos rurais alienados envoltos por pastos de encosta em que o gado se alimenta de forma vertiginosa e por campos agrícolas profundos, preenchidos por minifúndios pintados de diferentes verdes e  amarelos.

Pouco depois de deixarmos os Valles, passamos por Cachi. Sempre a conquistar altitude, entramos no Parque Nacional Los Cardones. Percebemos os seus limiares bem demarcados por uma profusão de cactos com formas distintas que a população autóctone se habituou a imaginar como vigilantes dos montes, das manadas de vicuñas, dos guanacos, dos pumas e gatos monteses e de outras espécies com nomes locais excêntricos. 

Para norte, impõe-se no mapa a ainda mais vasta Quebrada del Toro. Segundo a crença predominante, o ex-líbris da província de Salta recebeu o seu nome por ter sido, durante muitos anos, rota de arrieiros que se dirigiam para o Chile usando as zonas baixas e verdejantes do vale para engordar os animais que conduziam. Esta teoria é contestada por uma facção minoritária que defende que a palavra toro teria origem indígena (provavelmente aymara) e significaria “água barrenta”.

Seja qual for a explicação correcta, a forma mais popular de descobrir a região é subir a bordo do Tren a Las Nubes mas, enquanto explorávamos estas paragens, o serviço mantinha-se desactivado para uma urgente renovação. Quando tudo anda sobre carris, a composição parte da gare General Belgrano, em Salta. Avança ao longo de 217km de um percurso sinuoso que penetra gradualmente nas montanhas e visita mais alguns pueblitos andinos com grande significado histórico. 

Após atingir a meseta salteña, o Tren de las Nubes detém-se em San António de los Cobres que nos surge como uma visão surreal de adobe e lata perdida na imensidão inóspita. 

San António de los Cobres cresceu como entreposto dos circuitos das caravanas de mulas que ligavam o Peru à Argentina e, mais tarde, o país das pampas às minas de nitrato do Chile, o mesmo composto químico que fertilizou, durante décadas, o solo agrícola português. Nos dias que correm, é a penúltima estação antes do viaduto La Polvorilla que encontramos já a 4220 metros de altitude.

Dali para a frente, continuamos pelas estradas improvisadas de terra, cascalho e areia da puña andina a par com manadas de mulas selvagens e perseguidos por pés-de-vento gerados por fascinantes caprichos barométricos.

Vencidas mais algumas dezenas de quilómetros, vislumbramos a miragem real das Salinas Grandes, um conjunto de salares planos e visualmente infindáveis em que só a actividade longínqua de alguns trabalhadores a carregar um camião parece quebrar a uniformidade branca do cenário. 

Deixamos o trilho demarcado e, sobre uma superfície estaladiça, chegamos às suas imediações quando o camião está prestes a partir. Ficamos à conversa com o guarda indígena da exploração que não demora a confessar-nos a solidão a que o seu emprego o votou: “Amigos, chegam a passar-se semanas em que não vejo mais nada que sal ... De quando em quando, aparecem por aí uns coiotes desesperados atraídos pelo cheiro do que estou a cozinhar mas, às vezes, nem isso...“

Com a fronteira chilena a anunciar-se uma derradeira vez, invertemos marcha para leste, e precisamente quando entramos no território de Jujuy, mandam-nos parar dois agentes da autoridade que aguardavam à beira da via. “Temos um caso urgente para resolver em Humahuaca, precisamos que nos levem até lá”, atira o guarda Rodriguez com pouco à vontade. Começamos por hesitar, mas rendidos à expressão simpática do segundo polícia e à falta de alternativas viáveis, acabamos por ceder sem resistência.

Vencida a desconfiança, durante mais de duas horas, a conversa desenrola-se alegre e toca temas diversos com destaques óbvios para os futebóis argentinos e português e para o estado quase sempre problemático das finanças das duas nações.

À medida que flui, o diálogo permite-nos também perceber que aquela boleia forçada se devia à longa crise argentina e, em específico, à falta de verbas das esquadras do norte do país para assegurarem transporte aos seus agentes.

Ainda a caminho da fronteira com a Bolívia, passamos a desbravar a Pampa Azul em que se destacam, pela dimensão quase urbana, Abra Pampa, Trés Cruces, Casabindo e La Quiaca. Dedicamos uma atenção mínima às três primeiras mas o estatuto de limite setentrional da Argentina e o perfil suspeito de La Quiaca desperta-nos a curiosidade. Ali, exploramos o mercado local, instalado, por conveniência, a apenas umas centenas de metros da aduana. Até ao anoitecer, observamos, deliciados, os contrabandos e negócios duvidosos dos visitantes bolivianos e argentinos e, entre conversas casuais, vamos recusando ofertas irresistíveis. No dia seguinte, retomamos a ruta nacional 9 de regresso a Jujuy e depois a Salta, sempre pelos confins andinos da América do Sul.

Guias: Argentina+