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Uluru-Ayers Rock

Uluru-Ayers Rock

Sagrado para os aborígenes Anangu do Red Centre, o rochedo de arcose Uluru tem 873 metros de altura e uma circunferência de 9.4 km.

Red Centre, Austrália

No Coração Partido da Austrália

O Red Centre abriga alguns dos monumentos naturais incontornáveis da Grande Ilha. Impressiona-nos pela grandiosidade dos cenários mas também a incompatibilidade renovada das suas duas civilizações.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Chief chega sobre a hora marcada e apressa-se a salvaguardar a integridade da sua imagem: “Disseram-me que vinham dois jornalistas. Que eu tinha que me apresentar e comportar em condições! Vamos lá ver o que se arranja”.

Apesar de originalmente kiwi, a sua figura não podia ser mais ozzie. Ri-se descomplexadamente do topo do seu metro e noventa e pouco. Veste uma camisa justa e uns mini-calções, ambos de caqui, gastos pelos quilómetros percorridos no deserto e sujos de nódoas que cabe ao tempo lavar. As botas de pele, amareladas, altas e poeirentas e um velho chapéu Akubra são os derradeiros apontamentos de um traje criado e retocado pelo Outback.

Se tivesse chegado na altura certa, Chief podia ter sido um dos pioneiros destemidos que desbravaram o interior da Austrália e ergueram a cidade de onde íamos partir à descoberta do Northern Territory.

Não foi por acaso que Alice Springs surgiu no centro geométrico da Austrália. Na segunda metade do século XIX, grande parte do sul estava colonizado mas o centro e parte do Norte eram ainda domínios incógnitos, ocupados exclusivamente pelos seus guardiões ancestrais aborígenes.

Em 1861-62, John McDouall Stuart liderou uma expedição ao coração do deserto. Acabaria por se tornar no primeiro europeu a atravessar a Austrália de sul a norte e estabeleceu a rota que abriria caminho à linha de telégrafo programada para ligar Adelaide a Darwin e Darwin à Grã-Bretanha. Mais tarde, a descoberta de ouro fluvial em grandes quantidades, a cerca de 100 km, deu origem a uma população fixa em redor de Stuart, como a colónia seria baptizada. O fim do ouro ditou que a povoação se deslocasse para perto da estação do teleférico, por sua vez, chamada de Alice Springs em honra da esposa do chefe dos correios e das nascentes que irrigavam o vasto oásis envolvente.

Eram tempos ásperos, dominados pela incerteza e em que a secura dominante da paisagem pedia soluções criativas. Foram trazidos do noroeste da antiga Índia britânica – hoje Paquistão – camelos que eram conduzidos, em longas caravanas, por imigrantes das tribos Pathan, incorrectamente apelidados de cameleiros afegãos. Estas caravanas resolveram momentaneamente o problema da falta de água. Com o passar dos anos, tornaram-se desnecessárias e os camelos abandonados ou perdidos multiplicaram-se e espalharam-se pelo deserto, ao ponto de existirem, hoje, em maior número, na Austrália, que em muitos países árabes.

Alice – como é carinhosamente tratada - espraia-se ao longo do leito quase sempre seco do rio Todd. É feita de edifícios baixos, armazéns e complexos comerciais térreos que pouco ou nada bloqueiam o céu azul. Outros negócios dominantes são os bares, as agencias de turismo e as galerias de arte. À primeira vista, tudo parece normal mas a presença aparentemente disfuncional da comunidade aborígene causa, neste entreposto turístico, ainda mais desconforto que noutras localidades do Northern Territory.

É difícil para os visitantes recém-chegados compreender porque passam o tempo sentados na relva dos jardins ou à frente de lojas e estações de serviço. Custam a aceitar os modos primitivos e a sua incapacidade em lidar com a marginalização a que se viram votados pela civilização ocidental que os desenraizou sem retorno.

Aqui, como por toda a Austrália, o governo australiano desculpou-se. Tenta redimir-se e paga pelos pecados cometidos em dólares australianos e devolvendo terras de que se apropriou indevidamente, durante o período em que manteve uma lei que equiparava os aborígenes à fauna e flora. Aqui, como por toda a Austrália, estas medidas estão longe de resolver o que quer que seja.  

Durante o trecho inicial da viagem, Chief confessa: “... não faço sempre isto. Trabalho com a comunidade prisional aborígene de Alice Springs. Sou dos poucos que os conhece e aceita”. Confessa ainda que, mesmo assim, tem dificuldade em responder às perguntas e observações preconceituosas dos turistas australianos e estrangeiros e tenta compensar apresentando-lhes a fascinante cultura mitológica dos indígenas nos lugares mais emblemáticos.

No Domínio Ventoso de Uluru 

“Não posso acreditar nisto!”, repete Kevin uma última vez, após rogar uma série de pragas. Assim que acorda e sai do seu swag (saco cama australiano), o pequeno coreano depara-se com a maior das frustrações. Depois de mais de um ano a trabalhar em Sydney como um autómato, há já algum tempo que sonhava com o ponto alto da viagem: contemplar o Red Centre do topo do Uluru, Mas o silvar estridente do bush australiano soava a más notícias.

Na tarde anterior, Chief, tinha sido bem claro. Em nome dos aborígenes Anangu, pedia a todos que não subissem mas esclarecia que só ia impedir quem o quisesse fazer caso as condições meteorológicas o determinassem. Contra as previsões, em vez de acalmar, o vento aumentou durante a noite e, ao nascer do sol, as autoridades do parque fecharam o acesso ao trilho facilitando-lhe a vida.

À primeira vista simples, o tema das ascensões ao Ayers Rock – como lhe chamaram os colonos de origem britânica em homenagem ao Chief Secretary da Austrália do Sul de 1873 – é, na realidade, bastante complexo e espelha a relação melindrosa que os seus descendentes australianos mantêm com os indígenas.

Em 1983, o primeiro-ministro Bob Hawke prometeu devolver aquela terra em particular aos seus donos tradicionais e concordou com plano com dez pontos que incluía a proibição de escalada do Uluru. À boa maneira política, a promessa depressa foi esquecida. Noventa e nove anos de concessão em vez dos cinquenta pré-acordados seriam estabelecidos antes da restituição oficial e o acesso ao topo do Uluru acabou por ser permitido para não contrariar a vontade dos milhares de visitantes mais jovens ou simplesmente em boa forma física.

Os aborígenes Anangu, que são os protectores ancestrais do rochedo e do espaço circundante, não o escalam. Evitam fazê-lo devido ao seu grande significado espiritual, por passar, no topo, um trilho do seu Dreamtime (o passado mitológico) e também por uma questão de responsabilidade pela segurança de quem acolhem na sua terra. Ao longo dos anos, e contra a sua vontade, as subidas fizeram já 35 vítimas. Em cada uma das fatalidades, os aborígenes manifestaram enorme tristeza mas os australianos “colonos” são um povo que se habituou a conviver com a aventura e o risco e, não está prevista qualquer proibição total.

Situado no canto sudoeste do vasto Northern Territory, em pleno coração do Outback, este estranho monte-ilha de arcose, tão emblemático como homogéneo e compacto, sobreviveu a milhões de anos de erosão que apagaram do mapa um maciço envolvente gigantesco que teria sido bem mais vulnerável ao desgaste. Mas, com 348m de altura máxima e 9.4km de circunferência, a formação é ainda mais intrigante por mudar de cor ao longo do dia e das estações do ano, à medida que diferentes tipos de luz nele incidem.

Alguns dos seus cerca de 400.000 visitantes anuais não resistem a tanto fascínio visual e mitológico. Mesmo alertados pelos guias sobre uma maldição que assombra a vida de quem retira pedras do Uluru, preferem arriscar e cometem o delito. Desenvolvendo um dos seus temas preferidos, Chief conta-nos com sarcasmo insuperável: “... mais engraçado ainda é que, por descargo de consciência ou mera precaução, são vários os que se arrependem e gastam mundos e fundos para as tentar devolver ao rochedo. Mandam-nas por correio para as agências com que viajaram e pedem-lhes que as reponham...”

Os obstáculos levantados pelas crenças tradicionais tjukurpa não se ficam, no entanto, por aí. Em redor do monte de rocha sucedem-se as nascentes, cavernas, pequenos depósitos naturais de água e pinturas rupestres. Mas apesar da abundância de motivos, a fotografia é restringida em diversas secções em que os Anangu realizam rituais relacionados com o género em que não são admitidas pessoas do sexo oposto. O objectivo é evitar que sejam quebrados tabus milenares por esses indígenas encontrarem imagens dos locais naquele a que chamam o mundo exterior. Mesmo contando que é conseguido, não faltam ao Northern Territory locais tão interessantes como fotogénicos.

A apenas 25km para oeste, acessível pela mesma Lasseter Highway que conduz ao Uluru/Ayers Rock e, depois, pela Luritja Road, impõe-se ao céu sempre azul do Red Centre um outro capricho da Terra Australis. Trata-se de Kata Tjuta (dialecto aborígene pittjantjajara para “muitas cabeças”), uma sequência de enormes trinta e seis rochas vermelhas que cobrem uma área de quase 27 km2 e têm como ponto mais alto os 1066 m sobre o nível do mar do Monte Olga. Esta elevação, em particular, deu origem a “The Olgas”, o nome ocidental dado ao cenário.

No pico do Verão australiano e a meio da tarde, também aqui o sol castiga sem piedade. E, contra toda o senso comum, revitaliza as infernais moscas do Outback que incomodam os visitantes durante a  caminhada por entre as rochas. A fama dos insectos é tal que muitos chegam munidos de redes com que cobrem a cabeça reforçando o exotismo marciano do lugar. 

A manhã seguinte é dedicada à exploração do Kings Canyon, um território escarpado e de visual Western situado na cordilheira George Gill, ainda a sudoeste de Alice Springs. A nova caminhada começa com a conquista da Heart Attack Hill, assim chamada devido à sua inclinação imprópria para cardíacos. Prosseguiu, por cinco quilómetros, ao longo dos desfiladeiros, das mesetas labirínticas da “cidade” e das encostas e escadarias escavadas na rocha do Anfiteatro. Foi interrompida, para descanso, à beira do Garden of Eden, um lago cercado de vegetação densa que quebra o domínio ocre da paisagem. Por fim, regressou ao ponto de partida.

Cumprido a extenuante caminhada regressámos a Alice Springs. Esperava-nos outra longa mas fascinante etapa rodoviária: a segunda metade da Stuart Highway.