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Twelve Apostles

Twelve Apostles

O cenário mais famoso de toda a Great Ocean Road, formado por penhascos em sucessão que se projectam do mar.

Victoria, Austrália

No Grande Sul Australiano

Uma das evasões preferidas dos habitantes de Melbourne, a estrada B100 desvenda um litoral sublime que o oceano moldou. E bastam alguns km para perceber porque foi baptizada The Great Ocean Road.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Habituados ao bem-estar mas permanentemente ansiosos pelo contacto com a natureza, os habitantes de Melbourne e do estado de Victoria em geral deixam as suas casas sempre que podem para desbravarem a Austrália selvagem. E, como se não bastasse o facto de Melbourne ser considerada ano após ano, uma das três cidades do Mundo com melhor qualidade de vida, o mais emblemático dos itinerários do sul da grande ilha está a apenas uma hora e meia de carro desta metrópole.

Oficialmente designada por B100, a Great Ocean Road tem início em Torquay. Ao longo de 243km sinuosos, estende-se para oeste e revela a Shipwreck Coast, o Estreito de Bass e o oceano Antárctico.

A obra que lhe deu origem começou em Setembro de 1919 com o objectivo de completar um monumento “útil” que homenageasse os alistados que haviam morrido na 1a Guerra Mundial e, ao mesmo tempo, ligasse diversas povoações isoladas e constituísse uma via importante para a indústria madeireira e para o turismo. Foi assegurada por uma equipa de prospecção de terreno que conquistava o terreno agreste a uma média de 3 km por mês e por 3000 mil homens que iam construindo atrás, à mão e com recurso a explosivos, a pás e picaretas, carrinhos de mão e a maquinaria menor. Para compensar todas as dificuldades e riscos - vários operários morreram durante as secções montanhosas do litoral – as autoridades mantiveram sempre disponíveis um piano, um gramofone, jogos, jornais e revistas. Mas, apesar do luxo, a verdadeira benesse deu à costa em 1924 quando o barco a vapor Casino embateu num recife e ficou encalhado próximo do cabo Patton largando 500 barris de cerveja e 120 caixas de bebidas espirituosas. Tão generosa quanto inesperada, a oferta obrigou a que os homens decretassem uma pausa de duas semanas, o tempo que demoraram a consumir a carga.

Merecida e animadora, a interrupção pouco ou nada atrasou os trabalhos que se arrastavam há cinco anos e viriam a terminar apenas em 1932, quando o troço Lorne-Apollo Bay ficou completo justificando a inauguração solene do maior memorial de guerra jamais construído.

Hoje, o percurso surpreende e encanta curva atrás de curva, principalmente a partir de Anglesea, depois de passado o trajecto mais urbanizado.

A povoação costeira de Aireys Inlet marca o início da cordilheira de Otway e o aparecimento das primeiras praias atractivas. Combinam-se ali a atmosfera sofisticada da vila com os penhascos vulcânicos que escondem lagoas de maré ao longo do litoral rude e com as paisagens de bush australiano da cordilheira de Otway, parte do Parque Estatal Angahook-Lorne. 

Com uns meros 1200 habitantes (mais 200 que Aireys Inlet), Lorne é a paragem que se segue. Moderna e elegante, tornou-se numa das preferidas dos visitantes da Great Ocean Road muito graças às suas vistas de mar mas também devido aos restaurantes, cafés e pubs clássicos acolhedores. De Lorne para diante, a estrada serpenteia entre o oceano Antárctico e as encostas da cordilheira surgem decoradas por eucaliptais densos. Em redor de Kenett River, estes eucaliptais são lares de comunidades letárgicas de coalas com que as famílias de turistas fazem questão de conviver.

Alguns quilómetros depois, surge Apollo Bay, uma vila piscatória e praia de Verão famosa entre a população urbana que se rendeu às suas colinas suaves e aos extensos areais brancos. É também uma base perfeita para explorar o Parque Nacional Otway, a Blanket Bay e o cabo Otway que marca o ponto mais meridional do percurso.

A Shipwreck Coast revela-se aqui mais selvagem e impressionante que nunca e foi inclemente para muitas embarcações, vitimas das correntes poderosas, do nevoeiro e dos recifes afiados. Foi o caso do Loch Ard que, em 1878, se afundou ao largo da ilha Mutton Bird na noite final da sua longa viagem de Inglaterra, provocando a morte de 53 dos seus 55 passageiros. E do Falls of Halladale, uma barca de Glasgow que naufragou no trecho final da sua rota de Nova Iorque para Melbourne. Também do Newfield e do La Bella, entre outros.

Começa nas imediações o domínio do Parque Nacional Port Campbell, o trecho mais admirado do longo percurso da Great Ocean Road. Ali se sucedem penhascos com setenta metros escavados há muitos milénios pela força do oceano Antárctico e curiosas “esculturas” rochosas deixadas para trás pela grande ilha que provocam rebentamentos precoces das ondas e servem de pouso aos leões-marinhos e à restante fauna da região. A mais notória destas formações, a Twelve Apostles, é hoje, objecto de um verdadeiro culto fotográfico internacional e os seus cerca de dois milhões de visitantes anuais levaram as autoridades de Victoria a dotarem as imediações de infra-estruturas e condições especiais como voos panorâmicos e longas passadeiras de madeira que contornam as falésias sugerindo os melhores ângulos de apreciação.

A formação foi curiosamente conhecida por the Saw and the Piglets (a porca e os porquinhos) até 1922, altura em que, com objectivos turísticos, seria rebaptizada como Twelve Apostles, apesar de, nessa altura, serem apenas nove os rochedos que se projectavam do mar.  Como acontecia há milhões de anos, os rochedos continuaram, no entanto, à mercê das ondas e as suas bases a perdiam cerca de 2 cm por ano. Assim, em Julho de 2005, o desabamento de um deles, deixou o total ainda mais longe do novo nome. Nos dias que correm, só seis dos apóstolos podem ser vistos das plataformas. Um dos sobreviventes está fora de alcance a não ser que se aproveite a maré vazia para descer e explorar o areal e as rochas.

Para ocidente de Port Campbell, a próxima escultura do oceano é The Arch, localizada em frente de Point Esse e, na proximidade, fica a London Bridge, uma outra vítima recente da erosão.

A Great Ocean Road termina 12 km para leste de Warrnambool, onde encontra a Princes Highway. Até lá, as falésias diminuem ligeiramente de altura mas o mar mantêm-se gélido e pouco convidativo. Apesar das condições à primeira vista desfavoráveis, a região faz as delícias dos surfistas e dos campistas que ao volante de campervans coloridas se vão aventurando praia atrás de praia movidos e fascinados pelo seu grande sul australiano.