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Bark Europa

Bark Europa

Marinheiro contempla as montanhas nos arredores de Ushuaia sobre o navio Barque Europa.

Canal Beagle, Argentina

No Rumo da Evolução

Em 1833, Charles Darwin navegou a bordo do "Beagle" pelos canais da Terra do Fogo. A sua passagem por estes confins meridionais moldou a teoria revolucionária que formulou da Terra e das suas espécies


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O pequeno veleiro sulca as águas gélidas e azuladas do Canal Beagle. Revela-nos, a cada milha vencida, perspectivas das montanhas semi-nevadas em redor que pouco ou nada mudaram nos quase cinco séculos que passaram desde as primeiras incursões de Fernão Magalhães e outros navegadores europeus por estas paragens.

Estamos no início do Outono do Hemisfério Sul e apenas 1000 km a norte da Antárctida. Se os primeiros dias de exploração nos concederam surpreendentes tardes solarengas que até de t-shirt se suportavam, a meteorologia vingou-se do imprevisto e lançou nova frente fria das profundezas do continente gelado que avisou a região para o que a esperava e agitou as águas até então tranquilas do canal.

Por sorte, ou mais provavelmente devido ao bom senso náutico do reputado capitão Fitz Roy, na sua segunda expedição, o H.M.S. Beagle avistou a Terra do Fogo a 18 de Dezembro, em pleno Verão austral.

Na primeira expedição do Beagle, um grupo de indígenas Yaghan tinha roubado uma das embarcações auxiliares do navio. Em troca, Fitz Roy decidiu tomar como reféns os familiares dos acusados, à espera de uma devolução que nunca aconteceu. Como resultado, os nativos acabaram por viajar até Inglaterra onde receberam educação e formação aristocrata e religiosa e se transformaram em celebridades exóticas. Mas Fitz Roy, um crente inveterado, tinha para eles outros planos: trazê-los de regresso à Terra do Fogo onde deveriam assumir o papel de missionários anglicanos entre os seus.

À medida que exploramos a Isla de Los Lobos e a de Los Pajaros encontramos apenas colónias barulhentas e conflituosas de leões-marinhos, focas, mergulhões, pinguins e outras que por certo deslumbraram Darwin. Nem em terra firme nem nas ilhotas rochosas que salpicam o canal Beagle detectamos sinais de vida humana o que vem reforçar o misticismo fronteiriço daqueles confins. Com Fitz Roy e Darwin as coisas passaram-se de forma diferente. 

Assim que detectaram as formas familiares do território em que antes viviam, os três Yaghan rejubilaram com a iminência do regresso. E dezenas de nativos apareceram no topo dos penhascos, seguiram o navio ao longo da costa e gritaram para os tripulantes durante horas a fio.

Na manhã seguinte, Fitz Roy decidiu estabelecer contacto com os indígenas. O grupo que desembarcou ofereceu-lhes algum tecido vermelho vivo e os nativos mostraram-se, de imediato, amigáveis. Seguiu-se um diálogo improvisado em que Jemmy Button – o mais famoso dos nativos raptados – funcionou como interprete.

Darwin ficou abismado com a habilidade e tendência dos nativos de imitar os gestos e as palavras dos ingleses - chegavam a conseguir repetir frases inteiras. E descreveu a sua impressão inicial sem cerimónias: “estes pobres desgraçados não cresceram o que deviam, as suas faces medonhas manchadas de tinta branca, as suas peles sujas e gordurosas, o cabelo desgrenhado e as vozes discordantes, os seus gestos violentos e sem dignidade. Ao ver tais homens, dificilmente podemos acreditar que se tratam de criaturas semelhantes e habitantes do mesmo mundo”.

Foi apenas o primeiro de muitos contactos do naturalista com os nativos. E, se Darwin depressa se habituou a analisá-los sob uma perspectiva antropológica, já Fitz Roy persistiu na sua ideia de estabelecer missões anglicanas. Malgrado vários contratempos desesperantes, teve relativo sucesso.

Quase 200 anos atrasados para acompanharmos os acontecimentos originais, concentramo-nos no melhor que a navegação do veleiro nos oferece e em sentir o rasto histórico do lugar.

Depois de contornarmos o farol emblemático Les Eclaireurs, invertemos a rota e regressamos ao ponto de partida. Apesar de surpreendidos por uma tempestade fulminante, desembarcamos em segurança. Sem o esperarmos, nessa mesma noite e já com os pés bem assentes em terra,  continuamos a seguir a aventura do capitão e do cientista.

O recente fluxo de visitantes chegados do norte e interessados em Ushuaia – a cidade mais meridional do mundo - foi o móbil que Raúl Podetti - um empresário com outros negócios na Argentina - buscava para colocar em prática um projecto cultural que guardava na manga: levar à cena um espectáculo multimédia que reconstituísse as peripécias de Fitz Roy e Charles Darwin na Terra do Fogo. 

Para tal, construiu uma réplica do bergantim HMS Beagle apoiada por uma sala adjacente. E surgiu, assim, o Centro Beagle em que uma mistura mal paga de jovens actores fueginos e porteños (de Buenos Aires) combinam cenografia, títeres, marionetas gigantes, teatro negro, jogo de sombras e efeitos especiais tudo a desenrolar-se sobre um palco que imita o convés do navio original, com vista para o canal homónimo.

À parte do Beagle show, o Centro Beagle é também um bar, sala de estar e de refeições em que, após o espectáculo, o público convive com alguns dos actores e figurantes e pode jantar, optando entre um espaço que alude à Plymouth do século XIX – o porto inglês de onde zarpou o HMS Beagle - ou outro contíguo que imita as aldeias e as canoas Yaghan e Yamaná encontradas por Fitz Roy e Darwin ao longo dos canais. Neste último, as mesas são iluminadas por pequenas fogueiras semelhantes às que quase sempre aqueciam os indígenas e que acabaram por fazer com que os navegadores europeus baptizassem a região de Terra do Fogo.

Achamos mais piada ao espectáculo do que estávamos à espera.  Acabamos por ficar para jantar e, durante uma conversa afável com o encenador, conseguimos autorização para fotografar nova exibição do espectáculo com acesso total aos bastidores.

Dois dias depois voltamos. A acção já decorre quando um dos rapazes  figurantes nos conduz por corredores escuros e escadarias até à zona dos camarins. Passamos ao lado do palco também pouco iluminado em que Fitz Roy introduz a sua epopeia. E damos com as cabinas de madeira em que se vestem e despem os restantes actores. Como é de esperar naquele mundo de marinheiros, não há mulheres no elenco e deparamo-nos com camarins desarrumados, repletos de pinturas e recados escritos nas paredes e um certo odor a testosterona. De início, quase todos estranham a presença do casal forasteiro mas diálogos curtos em castelhano quebram o gelo e dão origem a piadas e brincadeiras que quase sempre nos divertem. Os espelhos predominantes confundem a ordem das coisas e ajudam a desregular o tempo. Por nossa culpa, em mais do que uma cena, Arius e Marcos - os actores que fazem de Fitz Roy e Darwin - têm que sair a correr para evitarem quebrar a sequência da representação. E entre cabeleiras, trajes de marinheiros, vassouras e tábuas de passar a ferro, os restantes fazem fila no corredor, de marionetas nas mãos e preparados para se juntarem aos protagonistas numa longa cena musical. O grupo actua e convive há meses na Terra do Fogo e partilha uma intimidade que nem sempre se prova saudável. De volta aos bastidores, dois figurantes empurram-se e trocam insultos: “Callate boludo!" ou fazendo fé no forte sotaque porteño: “Cajateboludo” é a expressão que dá azo ao exagero e a brincadeira corre mal. Enquanto o espectáculo prossegue, os dois pós-adolescentes acabam por se envolver numa pancadaria infantil que só termina com a intervenção de vários colegas. Não sabemos o que dizer nem temos nada que dizer. Ocorre-nos apenas continuar a fotografar já que é aquele o show real dos bastidores. Só que o uso do flash está proibido desde início e tudo se passa numa área de penumbra por debaixo do palco.

Mas não é só na história verdadeira que Fitz Roy comanda o Beagle. Arius regressa do longo monólogo dramático em que confessa a sua desilusão perante as ideias hereges de Darwin. Inteira-se do que se passa e sana a desavença. Pouco depois, é Marcos – o Darwin - quem aparece. Informa-nos que já só volta para o agradecimento final e aproveitamos para falar com ele e fazer uns retratos descontraídos. Segundo nos dizem, o Beagle Show já teve mais espectadores e melhor saúde financeira mas, aos rapazes do elenco não custa usufruir do seu trabalho até porque, logo em seguida, espera-os algo de que nem Fitz Roy nem Darwin puderam alguma vez desfrutar, a vida nocturna  aconchegante de Ushuaia.

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