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Caminhada Solitária

Caminhada Solitária

Morador desce a rua principal de Los Nevados, uma povoação perdida num vale da Sierra Nevada de Mérida.

Mérida, Venezuela

Nos Confins Andinos da Venezuela

Nos anos 40 e 50, a Venezuela atraiu 400 mil portugueses mas só metade ficou em Caracas. Em Mérida, encontramos lugares mais semelhantes às origens e a geladaria excêntrica dum portista imigrado.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Província de Mérida: é aqui que os Andes têm o seu último estertor na extremidade norte da América do Sul, um pouco antes de se fundirem com a Cordillera de la Costa, a cadeia transversal de montanhas que esconde o Mar das Caraíbas. A região, interior e situada junto à fronteira com a Colômbia, é a Meca nacional dos andinistas e adeptos das caminhadas de altitude em geral. Tínhamos já percorrido muitos quilómetros nas calles arrumadas da sua capital homónima quando constatamos que, graças a um dos muitos portugueses empreendedores que se instalaram na Venezuela, também inspirava os gulosos deste mundo.

Manuel da Silva Oliveira chegou do Porto ainda jovem com experiência de barman e cozinheiro e abriu um restaurante em Mérida. O negócio corria de vento em popa quando, um dia, um  vendedor lhe perguntou se não queria ficar com uma máquina de gelados. “Don Manolo” – como é desde há muito tratado – percebia de comida e de bebida mas de sorvetes nem por isso. Ainda assim, quando o caixeiro viajante lhe explicou como era simples a preparação, acabou por comprar a máquina.

Numa primeira fase, limitou-se a seguir as instruções. Misturava o leite com as essências químicas de chocolate, de morango e do mantecado. Os gelados ficavam prontos num ápice e começaram a satisfazer a população da cidade. Mas as essências nem sempre estavam disponíveis e a máquina não misturava, em condições, matérias-primas naturais. Depois de alguma discussão com o vendedor, Manuel da Silva Oliveira conseguiu que lha trocassem por outra e ainda a oferta de uma batedeira especial, muito mais indicada para misturar com o leite os ingredientes necessários. Essa mudança e a sua perseverança ditaram um futuro que ninguém se atreveria a prever.

Os anos passaram e Don Manolo fartou-se de trabalhar para as empresas proprietárias das máquinas que lhe ficavam com uma boa parte do lucro.sabores e   ionante de licores,er para as empresas propriet futuro recordista.a para misturar com o leite os ingredientes necess Abriu a sua própria geladaria e aos três ou quatro compostos a que a Venezuela estava habituada, juntou várias outras frutas, frescas e secas. Seguiram-se os vegetais e os licores, todos com a facilidade decorrente de Mérida ser o pomar e a horta da Venezuela. Depois, vieram os mariscos, os peixes e sabe-se lá mais o quê.

Inaugurada em 1981, a geladaria Coromoto depressa reuniu um portefólio impressionante. Entretanto, ultrapassou as 800 criações e foi reconhecida pelo Guiness Book como a geladaria com mais sabores do mundo, um estatuto assinalado a luzes garridas de néon sobre a entrada que atraiu viajantes de todo o mundo.

Mas a fama do negócio não travou o envelhecimento do seu mentor. Manuel Oliveira da Silva perdeu a juventude de outros tempos e, com ela, a paciência para a rotina. Passou a gestão do negócio a José Ramirez. O sotaque português do castelhano venezuelano desapareceu detrás do balção e das montras refrigeradas mas o bigode manteve-se e os sabores nunca pararam de aumentar. Hoje, são mais de mil.

José Ramirez dispensa dar-nos a provar os sabores convencionais: “Vejam lá quais vos apetece experimentar e digam-me. Já vejo se estão preparados para todos !”

Passamos os olhos pela lista infindável que decora as paredes e deixamo-nos espantar. Cebola, esparguete e queijo, alho e milho seriam em qualquer lado do mundo consideradas sobremesas suspeitas mas, na Coromoto, o estranho vai muito mais além. “Sardiñas en Brandy” e “Esperanza de Viagra” fazem-nos rir sem cerimónias e sabem muito melhor do que o esperado. De uma forma suavemente doce, o “Pabellon Criollo” consegue ser fiel a um dos pratos emblemáticos da Venezuela. Logo ao lado, alguém se engasga e pede um copo de água urgente. Tinha acabado de testar “Chilli”.

Colherada a colherada, tentamos decifrar ainda os mistérios semânticos por detrás de “British Airways”, “Besos Andinos”, “Perdona, Querida”, “Diário Frontera” e “Samba Pa Mi”, desafiamos também a extravagância de “La Viño Tinto”, “Estornillador” e “Arroz con Pulpo”.

A Coromoto vende bolas de mais de 80 sabores por dia. Apesar da muita curiosidade, não chegamos sequer a provar metade. Esperava-nos uma aldeia das redondezas igualmente refrescante.

Na manhã seguinte, apanhamos o teleférico emblemático da cidade em direcção ao Pico Bolivar (4980m), um trajecto para o tecto da Venezuela que nos dizem ser também ele recordista mundial tanto no que diz respeito à extensão (12,5 km) como à altitude a que chega (4765m).

Ao nível de Mérida, fazia-se sentir um calorzinho agradável mas, com dez minutos de ascensão, ultrapassamos os 3.000 metros e à sombra, o frio torna-se incómodo. Só a estação terminal de Pico Espejo, a umas poucas centenas de metros do Pico Bolivar traz de volta o aconchego dos raios solares.

Lá em baixo, no vale amplo e verdejante da Sierra Nevada, destaca-se o casario de Mérida. Para cima, estão os cumes pontiagudos dos Andes e, no sopé oposto, Los Nevados, um pequeno pueblo pitoresco, isolado da civilização pela inexistência de verdadeiras vias de comunicação.

É para lá que descemos a pé, depois de rejeitarmos fazer o trajecto de mula ou jeep para pouparmos dinheiro e as costas e podermos apreciar condignamente os cenários.

Temos como companhia uma família francesa de “marinheiros” em terra, um casal com dois filhos que, cansado da vida monótona e chuvosa de Nantes, trocou a segurança e a casa, por um veleiro fundeado em Papeete, Taiti em que passou a zarpar para o mundo sempre que o dinheiro ganho como dentistas o permitia.

O percurso de algumas horas, em grande parte a descer, prova-se pouco exigente e visualmente agradável, enfeitado pela vegetação de altitude a que os locais chamam Páramos.

A determinada altura, surge um novo vale, coberto por um tapete multicolor de campos cultivados e, logo a seguir, a aldeia - tal e qual a tínhamos descoberto num ou dois livros fotográficos que homenageiam aquele interior esquivo da Venezuela - com a torre bicuda da sua igreja a sobressair das casas caiadas.

O nome deixa pouca margem para a imaginação. Los Nevados, foi assim baptizada devido aos nevões que, em tempos, a cobriam, de vez em quando, com uma segunda camada de branco. Em conversa com um cowboy local, confirmamos que há muito tal não acontece. “Amigos, já nem me lembro da última vez... os meus pais, sim, falam muitas vezes nisso entre eles e com o pessoal mais velho de cá”.

Nada que espante. O aquecimento é supostamente global. Tendo em conta a altitude da aldeia, 1000 e tal metros e a sua posição quase equatorial no mundo, seria difícil ali continuar a nevar.

Hoje, perdida no tempo, Los Nevados revela-se um típico refúgio agrícola, inclinado como poucos, com mercearias lúgubres e uma tasca intimidante em que a luz natural não entra. Vaqueros de roupas gastas, crianças e velhotes corajosos sobem e descem as suas duas calçadas íngremes atarefados com afazeres intrigantes.

Durante toda a tarde, descobrimos a aldeia e os arredores serranos. Ao jantar, a tal família francesa maravilha-nos com estórias e mais estórias das suas navegações pelo mundo, incluindo fugas a piratas malaios e indonésios e a tempestades sem nação.

Essa noite, dormimo-la numa pousada campestre local. Mal o sol aparece sobre os cumes, voltamos a desafiar a privacidade rural de Los Nevados e, no princípio da tarde, decidimos todos regressar a Mérida no único transporte partilhado que nos podia salvar da dolorosa caminhada serra acima: um velho jeep já sobrecarregado com enormes pedras mós.

Nunca, numa viagem, o desconforto da falta de espaço e dos solavancos nos haviam parecido tão secundário. O percurso faz-se ao longo de uma estrada de terra quase sempre escavada na encosta e que espreita os precipícios da Serra Nevada. Só por si, o cenário já tinha pouco de tranquilizante. Como se não bastasse, o peso dos oito passageiros e das mós faziam o jeep adornar mais que o normal para o lado dramático e deixavam-nos entre a apreensão e o pânico, apesar das piadas lançadas dos bancos da frente pelo condutor e um amigo, ambos necessitados de diversão. “Agarrem-se bem senão vai dar farinha!”

Aos poucos, deixamos para trás o trecho conquistado à montanha. O resto do percurso faz-se bem mais rápido e sem quaisquer sobressaltos.

Chegamos a Mérida duas horas antes do pôr-do-sol e a Coromoto ainda está aberta. Entramos e pedimos alguns dos sabores que pareciam poder ajudar-nos a descomprimir do tormento recém-vencido. Entre as escolhas contaram-se “Cerelac” e “Diário Frontera”. Los Llanos, a região pantanosa e repleta de anacondas do interior da Venezuela foi a próxima. Também por lá encontramos portugueses perdidos.

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