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Alerta

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Fêmea e crias grizzlies detectam a presença de visitantes.

Katmai, Alasca

Nos Passos do Grizzly Man

Timothy Treadwell conviveu Verões a fio com os ursos de Katmai. Em viagem pelo Alasca, seguimos alguns dos seus trilhos mas, ao contrário do protector tresloucado da espécie, nunca fomos longe demais.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Contemplamos o pôr-do-sol interminável sobre Homer, satisfeitos por os dias alasquenses se preservarem tão estivais como longos.

Não são propriamente frequentes os momentos de descontração total nas viagens que fazemos pelo mundo. Conscientes do seu valor, gravamos na memória a imagem do lago espelho e dos hidroaviões diminutos ancorados nas margens, contra a floresta de coníferas circundante.

Tínhamos poucas ilusões de que aquela bonança durasse. A confirmá-lo, a relíquia de telemóvel que usávamos nos Estados Unidos dá sinais de vida. Por coincidência, é um piloto que nos fala do outro lado da linha: “Bom, meus amigos, acho que estão com sorte. Tenho vagas. Venham cá ter ao hangar às 7 da manhã!”

Não é a primeira vez que elogiamos os filmes de Werner Herzog nestas páginas, nem será certamente a última. Tínhamos visto e admirado “Grizzly Man” - a sua obra de 2005 - por duas vezes, e sabíamos que dificilmente nos aproximaríamos tanto daqueles cenários selvagens como ali, onde a extremidade marítima da exuberante língua de terra porque se prolonga a povoação nos permitia, inclusive, vislumbrar as montanhas ainda nevadas de Katmai.

Alguns contactos cirúrgicos deixaram-nos na espectativa de conseguirmos voo e guia e, Michael concedeu-nos o desejo. Assim, antes da hora por ele ditada, já estávamos nas suas instalações do aeródromo.

Preocupado em preencher o tempo de espera, o piloto delicia-nos a contar parte da sua vida aventureira no Alasca: “Bom, como devem calcular, os ursos só são visitáveis no fim da Primavera e Verão por isso, no resto do ano faço outras coisas bastante mais arriscadas”. “Estão a ver os programas da National Geographic sobre as pescas do Alasca (n.a. “Pesca Radical” ou, na versão original, “Deadliest Catch”) ? “Aquilo é realmente perigoso mas quem indica aos barcos a posição dos cardumes sou eu e os meus colegas, a partir do ar, muitas vezes em dias de tempestade nada propícios a estes aviões. Ganhamos um bom dinheiro mas já apanhei uns sustos. Com os ursos é mais tranquilo, vão ver!”

Entretanto, os passageiros em falta dão entrada e Michael passa-nos um briefing exaustivo. Em seguida, metemo-nos na avioneta e descolamos para os céus sobre a baía de Kachemak. Sobrevoamos o spit e Seldovia, uma vila piscatória também isolada. Logo depois, entramos no Golfo do Alasca.

Passados 20 minutos, chegamos às imediações das montanhas opostas. Michael pede que confirmemos que os cintos estão bem apertados e dá início a uma descida abreviada. Não detectamos qualquer sinal de pista e o piloto faz o avião aproximar-se dos areais da península que Timothy Treadwell tornou famosa.

Nos anos 90 e princípios dos 2000, Treadwell tornou-se num passageiro frequente desta rota. Mas as suas repetidas chegadas, nunca entusiasmaram os rangers do parque nacional que com ele mantinham um conflito recorrente devido às permanentes infracções e prepotências do ambientalista.

Timothy Treadwell nasceu em Long Island, Nova Iorque. Os seus pais afirmam no filme que se manteve uma criança normal até que os deixou para prosseguir os estudos universitários, quando começou a espalhar entre os colegas que era um órfão britânico nascido na Austrália e, mais tarde, que se tinha tornado alcoólico e junkie depois de perder o papel de Woody Boyd para Woody Harrelson na série “Cheers”.

Terá sido, aliás, após sobreviver por pouco a uma overdose de heroína, no fim dos anos 80, que decidiu viajar ao Alasca.

Percebeu, nessa ocasião, que tinha que mudar a sua vida e que a protecção dos ursos era uma espécie de chamamento divino que não podia ignorar. Daí em diante, Treadwell regressou ano após ano e confraternizou com os grizzlies com um à vontade cada vez maior, de tal maneira, que se atrevia já a acariciar e até a abraçar alguns espécimes. Os rangers do parque e os habitantes das povoações mais próximas viam nele uma calamidade iminente mas a desgraça adiava-se vezes sem conta.

Por fim, em Outubro de 2003, com o Inverno já à porta, os salmões quase não apareciam nos rios e o período de hibernação obrigava os ursos a alimentar-se com urgência. Mas Timothy abusava da sua sorte no território dos animais. A natureza não perdoou a insolência e o aventureiro e a namorada que lhe fazia companhia foram devorados por um macho faminto.

A sua vida esteve para ser retratada por Leonardo di Caprio, que iria protagonizar o filme mas, Timothy Treadwell tinha entregue os vídeos que acumulara a uma ex-namorada para que esta o passasse para cinema.

Jewel Palovak sempre achou que Werner Herzog era o homem indicado para o fazer. Dessa convicção, surgiu o aclamado “Grizzly Man” e a principal razão para estarmos prestes a aterrar numa praia da longínqua Katmai.

Assim que saímos do avião, percebemos que o litoral está repleto de ursos que escavam à procura de moluscos e as instruções transmitidas por Michael são postas em prática. Seguimos o guia em fila indiana, e aproximamo-nos lentamente dos grizzlies que nos detectam mas ignoram,  satisfeitos com a abundância natural de alimentos. Deixamos o areal e internamo-nos no prado contíguo que nos dá quase pelo peito. Dali, vamo-nos aproximando o mais possível de distintos espécimes e fotografamo-los com cuidados insuficientes, chamados à atenção pelo guia de cada vez que nos deixamos ficar para trás.

O despertar tinha sido madrugador. Uma hora e quarenta minutos depois, fazemos uma pausa para recuperar energias. Michael confirma que não há salmão ou outros peixes nas sandes e, satisfeito com a inspecção, deixa-nos entregue aos snacks e à conversa. Depois, regressamos à caminhada pressionados pela subida da maré.

Avistamos vários ursos dentro do tempo estabelecido mas, antes que se esgotasse, somos apanhados entre uma fêmea que protege as suas crias e um macho.

Michael reconhece, de imediato, o risco e dá o sinal de retirada. Ainda conseguimos fotografar os dois ursitos de visual peluche sob alçada da progenitora mas depressa recuperamos o atraso face ao grupo já de regresso ao avião.

Conhecíamos o filme de trás para a frente e sabíamos que o Grizzly Man tinha resistido 13 anos entre os ursos. Sermos apanhados ao fim de algumas horas não estava nos nossos planos.