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Canal de Lazer

Canal de Lazer

Amigos descontraem à beira do canal de Oudezids, em pleno Red Light District de Amesterdão.

Amesterdão, Holanda

Numa Holanda Surreal (Sempre a Mudar de Canal)

Liberal no que a drogas e sexo diz respeito, Amesterdão acolhe uma multidão de forasteiros. Entre canais, bicicletas, coffee shops e montras de bordéis, procuramos, em vão, pelo seu lado mais pacato. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Durante um de vários pequenos-almoços à conversa, Michiel van Os, antigo docente universitário conceituado de história responde-nos com comoção contida e algum saudosismo: “eu reformei-me exactamente no famoso 11 de Setembro 2001. Durante o meu discurso de despedida, as pessoas pareciam algo agitadas mas só me contaram o que se tinha passado no fim do dia”. René, a esposa, terminou a carreira de juiz um mês depois. Não que se pudesse comparar ao cataclismo terrorista que arrasou as Torres Gémeas mas, por essa altura, o prédio em que viviam sofria os seus próprios danos estruturais, causados pelo afundamento do solo ensopado em que há muito se instalara Amesterdão.

Cada vez mais afectados também pela exigência das escadarias que tinham que vencer no dia-a-dia, os van Os encontraram uma alternativa mais que condigna no último andar duplex de um prédio do início do séc. XVII. Encantou-os a sua arquitectura histórica e a localização junto ao bairro de Jordaan, em frente à Westerkerk e à casa-museu de Anne Frank. O casal partilhou o privilégio de ali passar a viver, num domicílio elegante com muito de antiquário e de biblioteca, expressões harmoniosas de duas óbvias paixões, a leitura e o antigo. Nós, devido a relações quase familiares, vimo-nos prendados com alguns dias de acolhimento bondoso no seu lar secular. Há muito que não intuíamos o passar do tempo como por lá.

De noite, embalam-nos os tic-tacs de relógios vetustos, de corda e de cuco. Em simultâneo - ou quase - o tocar dos sinos de diversas igrejas em redor. De dia, inspeccionávamos a enorme fila de visitantes da casa de Anne Frank que, como uma espécie de ampulheta humana, víamos fluir do lado de lá do canal de Keisergracht, a partir da janela ampla do piso inferior do domicílio.

Durante a nossa estadia em Amesterdão, notícias frescas relataram que Annelies Marie Frank – o seu nome completo – teria sucumbido dois meses antes da data em que a sua morte ficou para a história, vítima de fome e de tifo, no campo de concentração alemão de Bergen Belsen. Hoje, num sacrifício paciente e apenas simbólico, centenas de pessoas esperam ao frio e à chuva para espreitarem o esconderijo que a família Frank construiu por detrás de uma estante no edifício em que o pai de Anne trabalhava. O abrigo serviu os propósitos até que foram atraiçoados, capturados e se juntaram aos milhões de vítimas do Holocausto.

Os bilhetes para visitar aquele esconderijo lúgubre estavam esgotados para vários dias. Como tal, passamos pela porta do edifício, prosseguimos para explorar o coração do bairro em tempos operário de Jordaan: o seu casario funcional e, ao longo dos canais, os barcos-casa elegantes em que muitos amesterdaneses se habituaram a viver.

Andamos pelo limiar do anel histórico e turístico da cidade mas as coffee shops sucedem-se em bom número e conferem às ruas e ruelas um aroma excêntrico com que só as frequentes casas de gaufres concorriam. Muitos moradores queixavam-se de que as primeiras lhes empestavam as casas.

Painéis electrónicos disseminados pela cidade alertavam para o perigo que os dealers de rua representam em Amesterdão: “Heroína Branca Vendida como Cocaína. Novembro passado, morreram três turistas.”

Acabamos por nos cruzar com a morte de forma ainda mais imprevista. Descansávamos na praça Dam, nas imediações de homens-estátua e outros personagens móveis, daqueles que ganham a vida a impingir fotografias com os transeuntes.

Entre eles, destacavam-se três ceifadeiras embrulhadas em túnicas negras, com máscaras de caveiras e munidas de gadanhas de plástico. Acredite-se ou não, estas empresárias macabras recrutavam interessados em grande número.

Um deles, de meia idade, aspecto e postura de rufia, fez a sua foto mas recusou-se a pagá-la. Discussão puxa discussão, eram já três as Mortes que, aliadas, se atiçavam ao homem. Este, mais que em boa saúde, em óptima forma, recuava mas, enquanto respondia verbalmente, também ripostava de punhos erguidos. A cena durou vários minutos, até que a polícia apareceu e pôs fim àquela que rotulámos como a briga mais absurda que alguma vez presenciámos.

Vamos para onde formos, o trânsito é tão organizado quanto possível mas, muitas das ruas estreitas que ladeiam os canais são partilhadas por carros, autocarros, eléctricos, motociclos, bicicletas e pedestres, os residentes e milhares de forasteiros que, pela semana da Páscoa, chegaram de todos os lados. Percorrê-las ou atravessá-las sem incidentes requer uma concentração permanente e uma gestão de movimentos perfeita. Nem assim, a coisa corria sempre bem. René, por exemplo, ainda se queixava de dores por um qualquer veículo todo-terreno lhe ter recentemente passado sobre um pé.

Chegamos ao núcleo histórico de Amesterdão com a noite a cair, meio enregelados, mas a salvo de incidentes. Espreitamos o seu libidinoso Red Light District, como é suposto. Imbuída da democracia pura e dura de que a Holanda tanto se orgulha, a cidade discutia, havia já bastante tempo, a permanência das prostitutas nas montras dos bordéis. Enquanto isso, hordas de turistas, muitos deles só sexuais, avaliavam os seus encantos. Outros, meros curiosos, tentavam fotografar as mulheres expostas mesmo contra a sua expressa vontade. Um aviso numa montra quase a paredes meias com a igreja protestante de Oude Kerk - o edifício e a igreja mais antiga de Amesterdão - com 800 anos alertava, em inglês: “As trabalhadoras do sexo não querem ser fotografadas. Não tire fotografias às janelas.” O website pic-amsterdam.com (PIC de Prostitute Information Center) que, fundado pela meretriz Mariska Majoor, promovia tours pelo Red Light District, workshops e outros negócios e iniciativas, complementava o alerta: ”o desrespeito pode dar origem a situações problemáticas para si e para a sua câmara. Lembre-se que muitas trabalhadoras do sexo levam uma vida dupla. As fotografias representam um perigo já que podem ser vistas por conhecidos ou invadirem a sua privacidade de outras formas”.

Mesmo assim, de quando em quando, em vez dos convencionais piscares de olho e outros esquemas mais arrojados de sedução de clientes, vemos e ouvimos mulheres escarlates ou arroxeadas baterem com as mãos com toda a força nos vidros, ou saírem para o exterior e tentarem intimidar os infractores com gritos enfurecidos e uma colecção de impropérios. Também ouvimos narrativas impressionantes de perseguições protagonizadas tanto por elas como pelos proxenetas.

Na tarde seguinte, ascendemos ao cimo torre do campanário da Oude Kerk. Daquele topo, apreciamos a 360º o casario antigo a perder de vista em grande parte poupado durante a 2ª Guerra Mundial – seria o porto de Roterdão a cidade holandesa mais fustigada. Durante a subida da escadaria escura, o guia lembra-nos que a cidade e a Holanda beneficiaram sobremaneira por terem acolhido os judeus expulsos da Ibéria pela Inquisição e que subsistem muitos seus habitantes com apelidos portugueses ou hispânicos. Ainda nos impinge que Portugal só não é parte da Espanha graças à Holanda. “Como é isso?” perguntamos intrigados a dobrar pela falta de contexto histórico da sua premissa. “Se não fosse a luta que nós lhes demos na Guerra dos Oito anos, vocês não se tinham conseguido livrar dos Filipes.” “Ah! Bem visto, bem visto!” apoiamo-lo sem reservas.

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