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Sirocco

Sirocco

Sirocco, de Tuuli e Kivi Sotamaa, na altura sobre a neve, parte do percurso artístico 'The Treasures of Arabia'.

Helsínquia, Finlândia

O Design que Veio do Frio

Com parte do território acima do Círculo Polar Árctico, os finlandeses respondem ao clima com soluções eficientes e uma obsessão pela estética e pelo modernismo inspirada pela vizinha Escandinávia.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Quem chega à capital finlandesa por estes dias Invernais, gélidos e nevosos depressa desenvolve a impressão de que não há mais nada para fazer, de que é a única coisa que a cidade tem para mostrar. Em 2009, o Conselho Internacional das Sociedades de Design Industrial (ICSID) escolheu-a como a 3ª Capital Mundial do Design, após Turim (2008) e Seul (2010) e entre 46 cidades de 27 países. Helsínquia bateu Eindhoven na fase final e, apesar do título garantido, ao longo do ano do certame, manteve intacta a sua competitividade com a cooperação empenhada das 4 cidades parceiras: Espoo, Vantaa, Kauniainen e Lahti.

Já no balcão do turismo do aeroporto Helsinki-Vantaa tínhamos reparado na predominância incontornável de folhetos e brochuras sobre exposições, itinerários e eventos relacionados com o design. Na delegação do centro da capital, o paradigma repete-se reforçado com as indicações que as funcionárias de serviço fazem questão de prestar e desenvolver.

Se não os podes vencer, junta-te a eles. Na manhã seguinte acordamos com as galinhas para espreitar o Emma – Espoo Museum of Modern Art. Uma funcionária da municipalidade espera-nos à saída do autocarro e começa por se mostrar surpreendida “Ah são vocês. Tenho que confessar que não esperava que fossem. Estão vestidos como nós. Por norma, os jornalistas do sul da Europa aparecem-nos muito mal preparados para estas temperaturas, de calças de ganga e a tremer. “Rimo-nos com a honestidade da observação e trocamos mais alguns reparos humorísticos. Entretanto, Hanna Saari lembra-se da exigência da sua missão e atalha para um briefing exaustivo sobre o design finlandês e os seus últimos projectos. Desbobina frases intermináveis repletas de termos como sustentabilidade, integração, natureza, inovação, desenvolvimento e interacção e fá-lo de cor e salteado, fruto de um aturado estudo prévio e da repetição. Não lhe dizemos mas, entre nós, temos que ser tão honestos como ela. Toda aquela conversa soa-nos a nada. A confirmar as suspeitas, logo à terceira questão absolutamente leiga que lhe colocamos já se sente desconfortável. É suposto o design assegurar o oposto: “Sabem, assumi o cargo há pouco tempo. Ainda me estou a familiarizar com estas lógicas e terminologias. Vou ligar a um colega mais informado e já vos respondo a isso” diz-nos sem perder a compostura para logo dar ao dedo no ecrã táctil do terceiro iPhone com que traiu a pátria. Por nós, nem valia a pena. Só por si, as teorias do Design nunca nos levariam a lado nenhum. Queríamos ver soluções reais e peças revolucionárias. Para lá de tanto folheto e lengalenga, Helsínquia e as suas satélites estão cheias delas. 

Encontramos a primeira no WeeGee Exhibition Center – o edifício recuperado de uma velha e gigantesca gráfica -  organizada sob o conceito de DesignEspoo!, em redor da maquete urbanística daquela cidade e com um espaço dedicado à participação activa dos moradores que são convidados a deixar sugestões inovadoras num painel já repleto de post-its coloridos. Há imagens da casa-OVNI Futuro, uma habitação desenhada por Matti Suuronen com objectivo de produção em massa, com fé inabalável num porvir tecnológico, aprazível e nómada, também na conquista do Espaço. Até que, a meio da década de 70, a Crise do Petróleo fez os preços dos combustíveis disparar e, com eles o do plástico. A Futuro foi retirada do mercado mas, hoje, cerca de 50 exemplares subsistem um pouco por todo o mundo. A 001 pertence a Espoo.

O céu azul instala-se e o frio intensifica-se com a brisa húmida e veloz que o Golfo da Finlândia lança sobre a cidade. Fazemo-nos fortes e exploramos o epicentro do estilo da capital, Punavuori, um bairro actualmente etiquetado como o seu Design District nem que seja porque concentra mais de 150 bares, cafés, restaurantes e ateliers com decorações, ambientes e objectos originais num grelha de ruas que se estende da avenida central de Mannerheimintie até aos antiquários do porto e à Feira da Ladra de Hietalahti.

Nos anos 70, os criadores finlandeses pegaram no design dinamarquês e no sueco como exemplos e desenvolveram as suas próprias marcas e uma identidade nacional com expoente na figura histórica de Alvar Aalto, autor premiado de dezenas de edifícios revolucionários da Finlândia e do Mundo e de várias peças premiadas.

Os produtos que encontramos um pouco por todo o lado, de cadeiras de pé alto excêntricas até chaleiras minimais têm preços a condizer com esta distinção que aparecem sempre marcados em Euros. Se não se é escandinavo, russo multimilionário ou finlandês, dificilmente se encontra uma pechincha. Felizmente tornámo-nos numa espécie de nómadas modernos. Damos mais valor à descoberta que ao conforto e às soluções domiciliárias e encaramos esta atmosfera helsinquiana como uma de tantas realidades do Mundo, não como uma oportunidade comercial.

Conhecemos, no entanto, os limites da razoabilidade. O pequeno-almoço buffet do hotel Sokos Vaakuna é diversificado, nutritivo, robusto e, claro está, servido em decoração, mobiliário, loiça e utensílios com design finlandês. Mas não disfarça as dores que se formaram durante a noite e nos apoquentam. Estamos habituados a este tipo de problemas nos países menos desenvolvidos e quando o quarto custa uma bagatela. Não é o caso e temos mais 4 noites pela frente. Antes de sairmos para a rua escolhemos o alvo entre os empregados alinhados atrás do balcão e refilamos com a melhor disposição possível: “Desculpe, mas há aqui qualquer coisa que não estamos a perceber. Passamos o dia todo a ver design nesta cidade e o vosso hotel obriga-nos a dormir sobre um colchão que afunda e nos arruína as costas? Faça-nos lá o favor de trocarem a cama ou coisa assim.” O recepcionista alourado sorri e mantém a dignidade. Dá-nos a ideia que já ouviu a queixa centenas de vezes. A resposta deixa-nos desarmados: “Infelizmente todos os nossos colchões são assim. É um modelo novo, americano. Custaram um balúrdio mas reconheço que muitos dos clientes não os apreciam. Acho que não vos posso ajudar.”

Helsínquia tinha borrado ligeiramente a pintura. Ainda assim, deixamos a persistência para mais tarde.

Logo ao lado do hotel, gigantes de granito iluminam e protegem a estação central de comboios desenhada por Eliel Saarinen. Diz-se que inspiraram visuais de Gotham City no primeiro filme da saga Batman. Ali próximo, damos com as formas pouco ortodoxas do museu Kiasma que abriga nova galeria de arte moderna. Segue-se o eloquente Concert Hall e, no extremo oposto do lago central gelado, vislumbramos outra das criações de Aalto, o Estádio Olímpico da capital.

Em 1965, o território soviético era inacessível aos realizadores norte-americanos. Enquanto admiramos o pragmatismo de regra e esquadro da Praça do Senado, percebemos porque serviu para fazer de São Petersburgo no clássico de David Lean, Doutor Jivago. Há muita mais arquitectura divinal para explorar em redor mas, nessa tarde, mudamo-nos para a periferia em busca de uma Arabia local.

Mal saímos do autocarro, detectamos ao fundo a chaminé emblemática do edifício da velha fábrica homónima de porcelana, faiança e barro, inaugurada em 1873 e que, à laia de Vista Alegre, conquistou um lugar especial no coração suomi. Nos dias que correm, o prédio rejuvenescido e alguns edifícios complementares acolheram uma panóplia de pequenas lojas de design, uma biblioteca e a Escola Universitária de Arte e Design de Aalto. O bairro Arabiakeskus e a vizinhança abrigam ainda restaurantes, cafés e alguns dos domicílios mais bem equipados de toda a Finlândia. Ao mesmo tempo, revela-se um museu ao ar livre que nos propõe uma espécie de prova de orientação artística. Munidos de um mapa e ao longo de duas horas, tentamos detectar na paisagem urbana e examinar 24 obras criadas e instaladas por personagens famosas dos vários ramos da arte. Em jeito de confirmação e de recordação, fotografamos cada um dos achados, das Pedras Mágicas à Beira Mar aos pequenos Pássaros Viikki camuflados contra uma parede do mesmo tom, passando pelo parque Tapio Wirkkala desenhado pelo americano Robert Wilson.

A noite põe-se, o frio volta a apertar e a neve cai em abundância. Regressamos da Arabia enregelados e recuperamos a temperatura e as energias num café lounge do centro com estilo irrepreensível. É nestas alturas que o prodigioso design finlandês faz mais sentido.