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Enseada do Éden

Banhista explora o litoral translúcido do oceano Índico, ao largo de Anse Lazio.

Praslin, Seichelles

O Éden dos Enigmáticos Cocos-do-Mar

Durante séculos, os marinheiros árabes e europeus acreditaram que a maior semente do mundo, que encontravam nos litorais do Índico com forma de quadris voluptuosos de mulher, provinha de uma árvore mítica no fundo dos oceanos.  A ilha sensual que sempre os gerou deixou-nos extasiados.

Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)

Mal nos apareceu à frente, percebemos que a noite de Dave fora mais longa que o aconselhado e que se levantara contrariado e a esforço. O rapaz era de Mahé, a ilha-mãe das Seichelles. Tinha-se mudado para Praslin fazia já alguns anos alegadamente porque a vida era mais tranquila. A justificação pouco condizia com a sua condução de rali, que não tardou, tivemos que refrear. Em vez de acatarmos o que nos sugeria e atravessarmos de imediato o parque nacional e o interior luxuriante da ilha para a costa norte, convencêmo-lo a contornar toda a sul e a recortada, a leste, sem grandes pressas.

Queríamos, com aquele itinerário bem mais amplo, ficar com uma ideia abrangente do que podíamos esperar de Praslin. Depressa percebemos que tínhamos aterrado noutro dos paraísos perdidos pouco abaixo do equador, na vastidão do grande oceano Índico.

Quase sempre entre um mar cor de esmeralda e uma floresta tropical densa, percorremos a baía Grande Anse e chegamos à confluência com a vizinha Anse Citron. Entre os dois areais, a estrada bifurca. Segue para o troço que Dave antes sugerira. A outra ramificação transforma-se numa via litorânea de sopé de encosta, também sinuosa e ondulante, a partir de então tão estreita, que em certos trechos impede a passagem de dois veículos em simultâneo e ameaça seguir mar ou selva adentro.

As enseadas apelativas repetiam-se uma atrás da outra banhadas por águas circunscritas por uma barreira de recife ao largo. Sucederam-se uma série de outras “anses” (enseadas) sugestivas. A St. Sauveur, a Takamaka, esta baptizada de acordo com a colónia destas árvores quase rastejantes que lhe emprestam muito mais verde e sombra que apenas os meros coqueiros. Seguiram-se a Anse Cimitière e a Bois de Rose, logo a Consolation e a Marie-Louise, todas elas praias privilegiadas. Até que atingimos a zona urbanizada da Baie Sante Anne e, passado o porto e a povoação contígua, cortamos para norte. Não tardámos a dar com Anse Volbert. É este o principal núcleo habitacional e balnear da ilha, virado para longos areais também eles afagados por um mar quase imóvel, semi-represado por barreiras de recife algo mais distantes da costa que as do sul.

Com a volta de Praslin já a passar de meio, estávamos convencidos da sua beleza preservada. Ao mesmo tempo, sabíamos que havia melhor. Ansiosos por nos voltarmos a banhar numa das praias deslumbrantes das Seichelles e do Índico, convencemos Dave a prosseguir para o extremo noroeste da ilha. Vinte minutos numa estrada de terra batida depois, estávamos de frente para um mar tranquilo, festivamente translúcido e de diferentes tons de azul, ciano, turquesa e um quase lápis lazúli. Nas imediações da costa frondosa, a maré mantinha-se cheia, salpicada por uma colónia de calhaus graníticos de um rosado polido. Perante tal vista, sob o sol abrasador das quase onze da manhã, disparámos para a areia coralífera, trepámos a dois ou três rochedos volumosos e, dali, fizemos algumas fotos. Pouco depois, enfiámo-nos na água e celebrámos o momento com natações e flutuações deliciosas.

Antes de regressarmos à companhia de Dave, ainda espreitámos duas ou três outras pequenas enseadas, cada vez mais sumidas na vegetação densa, de que se destacavam os coqueiros estendidos na horizontal sobre o oceano. Hoje, só se encontram em Anse Lazio e ao longo do litoral de Praslin coqueiros dos convencionais. Nem sempre assim foi.

Em plena era dos descobrimentos, os povos asiáticos e, entretanto, os marinheiros e aventureiros europeus que com eles estabeleceram contacto, nunca tinham visto palmeiras que gerassem cocos da dimensão de alguns que encontravam no mar e praias do Índico, que chegavam a ter 60 cm de diâmetro e até 42kg. Diz-se que certos marinheiros malaios os terão visto “cair para cima” do leito do mar.

Disseminou-se, então, a crença de que eram produzidos por árvores que cresciam nas profundezas do oceano. Nos seus “Colóquios”, Garcia de Orta foi mais longe. Afiançou que nasciam de palmeiras que haviam sido submergidas por uma grande inundação quando o arquipélago das Maldivas se separou da Ásia.

O povo malaio acreditava que essas árvores davam abrigo a Garuda, uma espécie de ave gigante que capturava elefantes e tigres. A Garuda é, ainda hoje, o nome da companhia aérea nacional da Indonésia. Sacerdotes africanos também acreditavam que, por vezes, as árvores dos cocos-do-mar se erguiam acima do oceano, que as vagas que geravam impediam as embarcações de prosseguir e que os marinheiros impotentes eram devorados pela Garuda. Mas não se ficou por aí a riqueza dos imaginários criados em redor dos cocos-do-mar.

As grandes nozes que eram encontradas no oceano e nas praias já tinham perdido a sua casca (só assim flutuam) e pareciam quadris de mulheres. Estas ancas e rabos flutuantes foram sendo recolhidos em navios e vendidos por fortunas na Arábia, na Europa e noutras paragens.

Nas Maldivas, era suposto qualquer coco-do-mar encontrado ser entregue ao rei. Guardá-los acarretava a pena de morte.

Em 1602, o almirante holandês Wolfert Hermanssen recebeu um coco-do-mar do Sultão de Bantam (actual Indonésia), por ter ajudado a defender a capital do sultanato homónimo dos portugueses. Sabe-se ainda que Rudolf II, um imperador do Sacro Império Romano-Germânico o tentou, em vão, adquirir por 4000 florins de ouro.

Também se cria, como o descreveu João de Barros - um dos primeiros historiadores portugueses - que as nozes tinham outros poderes extraordinários. Serviriam de antídoto para peçonhas, venenos e enfermidades. Provavelmente devido à acção inibidora da Inquisição, Garcia de Orta nunca se atreveu a mencionar o seu badalado e alegado poder afrodisíaco. Como, pelas mesmas razões, nunca o fez Camões nos Lusíadas em que o Canto X versa:

 

“Nas Ilhas de Maldiva nace a pranta

No profundo das agoas soberana

Cujo pomo contra o veneno urgente

He tido por Antidoto excelente”

Camões retrata esse poder na Lírica, a sua obra que mais aborda o tema do amor e da paixão. Aí, recorre a abundantes artifícios léxicos por forma a evitar dissabores vindos do Inquisidor Geral (Cardeal D. Henrique) e dos censores da Inquisição.

Tínhamos a sensação de que também Dave nos censuraria se ficássemos muito mais tempo em Anse Lazio. Assim sendo, voltámos à carrinha apontados para Anse Volbert, onde fizemos umas compras casuais numa mercearia de donos hindus, escura, abafada e a tresandar a especiarias.

Em nova passagem pela Baie Sante Anne detemo-nos e examinamos a povoação e a sua vida. Entrámos numa pequena igreja protestante piramidal e de madeira vermelha gasta. No interior, damos com várias senhoras nativas, descendentes dos escravos africanos trazidos pelos franceses para as Seichelles, no século XVIII. Encontramo-las em amena cavaqueira sentadas nos bancos corridos. A extremidade de todos os bancos junto ao corredor está decorada com laços de cetim brancos e cor-de-rosa pelo que nos convencemos que está prestes a ter lugar um baptizado. Metemos conversa com as senhoras que se dispõem a corrigir. “Não, não é um baptizado. Antes fosse. É um funeral de uma nossa amiga. Os laços? Nós temos a tradição de as usar nos funerais. A cor deles depende do que motivou a morte. Estes que veem correspondem a doença cancerígena.”  

A surpresa deixa-nos sem palavras mas lá nos recompomos, pedimos desculpa pelo equívoco e retiramo-nos com a melhor expressão anglófona de pesar de que nos lembrámos.

Deixada para trás a igreja, percorremos uns poucos quilómetros e embrenhámo-nos no coração florestado da ilha. Pouco depois, entrámos na área de acolhimento da reserva natural e Património Mundial da UNESCO Vallée de Mai.

O Vallée de Mai preserva uma floresta de palmeiras que chegou a cobrir grande parte de Praslin e de outras ilhas das Seichelles. Aliás, em tempos do supercontinente Gondwana cobriu outras vastas áreas da Terra. Praslin é, à imagem das Seichelles em geral, considerada um micro-continente, já que não tem origem vulcânica ou coralina como quase todas as restantes ilhas do Índico, mas sim granítica.

Conseguirmos resgatar Dave à sua conversa de engate com uma moça nativa da recepção, percorremos os trilhos sombrios e húmidos do parque, fascinados pela beleza frondosa da vegetação, em particular, das Loidocea Maldivicas, as palmeiras endémicas que produzem os cocos-do-mar. Também nos encantaram, como aos marinheiros da era das descobertas, os espécimes secos que a administração do parque mantem expostos nos trilhos.

Agora que pensamos no assunto, a corte feita pelo jovem Dave teve o seu quê de relação com um mito não menos cómico a que Charles George Gordon, um general britânico, chegou em 1881. Tinham passado trezentos e setenta e oito anos de quando Vasco da Gama se tornou o primeiro europeu a avistar e a navegar ao largo do arquipélago actual das Seichelles – no regresso da Índia - e o apelidou de Almirante em sua própria honra. Decorreram sessenta e nove anos após a Grã-Bretanha o ter conquistado à França.

Segundo a teoria a que chegou através de uma análise cabalística do Livro de Genésis, o Vallée de Mai seria o Jardim do Éden e as suas palmeiras eram a árvore da sabedoria. Representavam tanto o Bem como o Mal enquanto, devido às imaginadas propriedades afrodisíacas, o coco-do-mar corresponderia ao fruto proibido. Gordon chegou mesmo a assinalar a localização exacta do Paraíso no mapa da ilha como Vale do Coco-do-Mar.

Esta sua postulação exótica foi contestada por um outro escritor, H. Watley Estridge que confrontou Gordon com a ínfima probabilidade de Eva ter conseguido morder um coco-do-mar através da sua casca de dez centímetros de espessura. Gordon nunca respondeu.