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Palestra

Palestra

Ian Channel, feiticeiro da Nova Zelândia, ora de cima de um escadote.

Christchurch, Nova Zelândia

O Feiticeiro Amaldiçoado

Apesar da sua notoriedade nos antípodas, Ian Channell o bruxo da Nova Zelândia não conseguiu prever ou evitar vários sismos que assolaram Christchurch. O último obrigou-o a mudar-se para casa da mãe.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A província neozelandesa de Canterbury vivia a sua habitual paz bucólica quando encontrámos o Wizard pela primeira vez. A vida já longa de Ian Channell tinha-o feito passar por vários recantos do mundo anglófono, da velha Álbion aos confins do downunder mas era na Cathedral Square de Christchurch que mais se sentia em casa e a manhã solarenga favorecia o impacto da sua pregação. Na praça, duas rulotes coloridas disputavam os primeiros clientes do dia, uma a promover comida chinesa e a outra os seus wraps de kebab. No extremo oposto, espectadores casuais acompanhavam os movimentos decididos por xadrezistas de rua em confronto, todos reunidos em volta de um enorme tabuleiro pintado no chão. Enquanto isso, vários eléctricos número 18 coloridos chegavam e partiam da estação terminal.

Ian já nem precisava de chegar aos últimos degraus do seu escadote para se destacar na praça. O feiticeiro vestia uma túnica branca em que assentavam uma barba e cabelo compridos e grisalhos. Apoiava-se na derradeira tábua do palco improvisado e enunciava as suas mais recentes teorias para uma pequena multidão de curiosos: “And ladies and gents ... this is the eternal truth ...” insistindo em como o tempo se cruza com o espaço e ambos se projectam num Universo Intencional da Vontade que converge para a identidade suprema de cada Eu que, reflecte, em cada pessoa, o Cosmos.   

À luz da sua existência exotérica, a conjectura parece fazer todo o sentido. O feiticeiro nasceu em Londres, em 1932. Dez anos depois, graduou-se na Universidade de Leeds, em Psicologia e Sociologia. Mais tarde, aceitou integrar o Adult Education Board da Universidade de Western Australia onde geriu o programa de artes comunitárias. E viria ainda a fazer parte da equipa de professores que dotou a recém-criada Escola de Sociologia da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney.

Por essa altura, ganhou dimensão um movimento de protesto estudantil que, entre outros problemas, contestou o conservadorismo do ensino. Ian Channell sentiu as vibrações e interveio. Criou um movimento de acção directa a que chamou ALF (Action for Love and Freedom). A sua implementação, por sua vez, passou pela que chamou “The Fun Revolution”. E as duas reformas resultaram numa forte revitalização, de tal maneira que o conceituado jornal Sydney Morning Herald passou a chamar à instituição antes envelhecida “the university that swings”.

Tanto o movimento como o seu mentor enfrentaram reacções negativas mas também apoios inesperados. O director do departamento a que pertencia Channell, convencido de que era louco, despediu-o sob o pretexto de não ver progressos na sua tese no campo da Sociologia da Arte. Mas o Vice-Chanceler tinha-se tornado simpatizante e apoiou a continuação das suas experimentações sociais. O professor aproveitou e convenceu-o a nomeá-lo Feiticeiro da Universidade e a atribuir-lhe uma pequena remuneração. Assim teve início a sua longa carreira. E a construção de uma personagem ficcional a que se entregou de corpo e alma, e a que fez questão de sacrificar a carta de condução, identificação de segurança social, passaporte e restantes documentos.

Assumindo-se como Wizard a tempo inteiro, Ian Channell promoveu-se e aos seus ideais como nunca e conseguiu novos cargos: cosmólogo, Obra de Arte Viva e Shaman da Universidade de Melbourne e ainda Professor de Cosmologia Sintética. Channell usou ainda a fama conquistada em lutas ideológicas, políticas e até económicas. Algo desgastado pelo permanente confronto do conservadorismo académico aussie e a precisar de novos desafios, mudou-se para a cidade kiwi de Christchurch e deu início a uma sequência duradoura de palestras sobre escadote, a que tivemos a fortuna de assistir. 

De volta à Cathedral Square, as gaivotas invadem o espaço aéreo e até mesmo o solo. Como forças do mal asadas, debatem-se e soltam guinchos estridentes. Perturbam a cadência de pensamentos do orador e a clareza das suas palavras que o vento nor’wester vinha a propagar pela praça, convocando mais e mais curiosos. Nem sempre a presença da plateia foi um dado adquirido.

Nos primeiros tempos da sua experiência kiwi, as autoridades tentaram prendê-lo. Mas o feiticeiro conseguiu evitá-las e regressou a horas diferentes trajando um fato de falso profeta da Igreja de Inglaterra e um chapéu pontiagudo. Depressa se tornou numa atracção da cidade, mencionado nos guias turísticos e com direito a opinar e actuar sobre os temas relevantes primeiro de Christchurch, depois da província de Canterbury, de todo o país e até do downunder.

Em 1990, Mike Moore, um velho amigo, então primeiro-ministro, nomeou-o Feiticeiro Oficial da Nova Zelândia. Cinco anos depois, com o apoio do Mayor, Christchurch acolheu um Conclave de Feiticeiros a que compareceram vários colegas que ajudaram a construir um ninho de feiticeiros no topo da torre da biblioteca da universidade. Ian Channell viria a sair de um ovo gigante posto numa galeria de arte local. Cantou ainda um feitiço dedicado a uma das principais partidas de râguebi da época, enquanto fazia queda livre e, acompanhado por 42 assistentes, desceu o rio da cidade de gôndola, viagem excêntrica que aproveitou para exibir o URL do seu novo site em diversas tabuletas.

Apesar de todas as acções promocionais, o Wizard prestava a maior parte dos serviços de forma gratuita e os seus rendimentos eram parcos. Os honorários atribuídos pela Câmara Municipal nunca foram suficientes mas o apoio financeiro prestado pelo amor da sua vida, Alice Flett, permitia-lhe prosseguir com o seu estilo de vida, conceptualmente arrojado e destemido. Novos feitiços maléficos viriam a enfraquecê-lo.

Em 2003, a casa de madeira em que habitava foi arrasada por um incêndio que a polícia de Christchurch considerou fogo posto. O Wizard, a sua companheira e dois inquilinos conseguiram escapar incólumes mas Ian Channell perdeu a sua colecção de vídeos e de livros. Também o WizardMobile - construído com duas frentes de Volkswagens Carochas - foi vandalizado. Mas forças muito superiores entrariam ainda em acção.

A Nova Zelândia está situada sobre o Anel de Fogo e a actividade tectónica nas imediações do país e da província de Canterbury é enérgica. No ano seguinte a termos encontrado o Wizard, Christchurch recebia ameaças constantes das profundezas da Terra. Vários sismos com altas intensidades – incluindo um de 7.1 – abalaram a região. Não causaram baixas mas os estragos foram consideráveis. Continuámos a viajar pelo Pacífico e regressámos a Portugal mas, em Fevereiro do ano seguinte, estávamos de novo a caminho da Nova Zelândia quando um abalo muito mais próximo da cidade que os anteriores a devastou e foi responsável por 185 mortes, uma das maiores catástrofes de que tinha sido vítima a nação kiwi. Acompanhámos os acontecimentos dramáticos e, desde então, que nos inteiramos das suas consequências na vida do Wizard com interesse redobrado.

O tremor de terra e as suas frequentes réplicas deixaram a catedral de Christchurch e vários outros edifícios em redor em ruínas. A Canterbury Earthquake Recovery Authority ordenou a sua demolição e suscitou a oposição de várias entidades incluindo da UNESCO World Heritage Center, de grupos de arquitectos e, como era de esperar, do Wizard que cumpre, em Dezembro próximo, 80 anos. Em declarações à TV, no meio dos destroços, o feiticeiro manifestou preocupação por ser duvidoso que a população de Christchurch possa continuar a viver segura na cidade reconstruída. Mas Ian Channell também revelou a sua angustia particular: “Se a Cathedral Square for destruída, perco o meu espaço emblemático, o meu lar espiritual, o meu espaço de exibição, a minha instalação. As pessoas que me seguem até podem ficar mas sem a minha praça não acho que faça muito sentido.”

Aconselhou ainda os habitantes de Canterbury a não se tornarem chorosos ou românticos como os italianos ou os gregos que dão abraços e beijos por tudo e por nada e apelou para o reforço do famoso stiff upper lip britânico, da sua solidariedade e bravura.

Mais recentemente, o feiticeiro decidiu retirar-se e abandonar Christchurch de vez. Mudou-se para sul, para Oamaru, para casa da mãe. Há três meses atrás, regressou à capital de Canterbury para protestar mais uma vez contra a demolição da sua catedral.