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Torres Kanak

Torres Kanak

O Centro Cultural Jean Marie Tjibaou, um monumento à cultura Kanak criado pelo arquitecto Renzo Piano.

Grande Terre, Nova Caledónia

O Grande Calhau do Pacífico do Sul

James Cook baptizou assim a longínqua Nova Caledónia porque o fez lembrar a Escócia do seu pai, já os colonos franceses foram menos românticos. Prendados com uma das maiores reservas de níquel do mundo, chamaram Le Caillou à ilha-mãe do arquipélago. Nem a sua mineração obsta a que seja um dos mais deslumbrantes retalhos de Terra da Oceânia.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Chega mais um fim-de-semana e Nouméa muda para o seu modo de descompressão. Bem cedo, na manhã de Sábado, a longa marginal da cidade enche-se de desportistas determinados em suar do corpo o castigo de segunda a sexta, quando só podem sentir a atmosfera veraneante do exterior através das janelas dos escritórios, sujeitos aos horários das sucursais francesas da ilha, ou dos negócios e vidas alternativas em que se aventuraram para enriquecer e escapar aos constrangimentos da longínqua metrópole.

Os audazes parecem alcançar o primeiro dos objectivos com relativa facilidade.

Depois do jogging, dos patins em linha e da volta de bicicleta, segue-se uma passagem rápida por casa para o duche e, logo se unem à romagem aos areais arredondados da Baie des Citrons e de Anse Vata.  

A distância dos apartamentos só em casos raros justifica uma deslocação motorizada mas o desgaste do esforço matinal aliado a alguma necessidade de ostentação complica o transito paralelo ao mar. Circulam veículos banais, pequenos Peugeots, Citroens e Renaults que a pátria-mãe exporta a preços inflacionados. Mas, entre estes, procura estacionamento uma quantidade incomum de bólides recém-adquiridos, Audis Q7s, BMW’s exuberantes e os sumptuosos Porsches Cayenne que, graças à homenagem prestada pela marca germânica à capital exótica da Guiana Francesa, seduzem duplamente os milionários gauleses.

É um litoral urbano mas recompensador este partilhado pelos metros, zoreilles ou zozos (franceses que nasceram em França), caldoches caledonianos (franceses nascidos na Nova Caledónia descendentes de condenados penais ou emigrantes livres) e kanaks (os indígenas melanésios). Não oferece a cor ou o glamour tropical de outros que o Pacífico do Sul esconde ao largo mas está a três ou quatro minutos do centro da cidade. 

Como na maior parte das realidades coloniais, os kanaks reduzem-se à sua sobrevivência imigrada na dispendiosa capital. Ao invés, um surpreendente número de metros, caldoches citadinos e habitantes de origem asiática recorrem aos veleiros e iates que entopem a marina da cidade para navegarem às ilhas de sonho da Nova Caledónia. Ou dinamizam a economia emergente do território com os seus gastos nas lojas e esplanadas sofisticadas de Nouméa.

Centro Cultural Jean-Marie Tjibaou: um monumento à identidade kanak

A meio da tarde, a meteorologia atraiçoa o lazer balnear da população. Nuvens escuras como breu aproximam-se vindas dos lados de Vanuatu e soltam um dilúvio fulminante a que os raios e trovões ininterruptos dão ares de apocalipse nunca anunciado.

Por essa altura, entramos no Centro Cultural Tjibaou. Segundos antes de nos refugiarmos sob a estrutura excêntrica do complexo kanak desenhado por Renzo Piano, de longe, a estrutura mais criativa da cidade, atingem-nos umas meras gotas pesadas.

Uma exposição de fotografia exibe imagens históricas da Melanésia (região do Pacífico do Sul que abarca as Ilhas Salomão, a Nova Caledónia, Vanuatu e Fiji) encontrada por antropólogos aventureiros do início do século XX. Ao som da chuva, da trovoada e dos ensaios de músicos kanaks que vão actuar à noite, essas imagens permitem-nos recuar no tempo.

Como aconteceu com tantas outras paragens do Pacífico, foi o inevitável James Cook o primeiro navegador europeu a deparar-se com a ilha de Grande Terre, em 1774. Apesar de já então tropical, a seu ver, a costa acidentada e montanhosa assemelhava-se, à da Escócia, de onde era originário o seu pai. Cook decidiu, por isso, baptizá-la com o nome latino daquele território.

No século XIX, baleeiros começaram a operar a partir do litoral da principal ilha do arquipélago, bem como comerciantes de sândalo. A matéria-prima esgotou-se entretanto mas, à medida que outras ilhas em redor eram colonizadas pelos britânicos, estes incrementaram o blackbirding. Dedicaram-se a raptar nativos da Melanésia para os usar como escravos nas plantações de cana-de-açúcar de Fiji e da província australiana de Queensland. Com o tempo, as vítimas e todos os povos nativos da Oceânia seriam chamados de kanakas, segundo a palavra havaiana para “homem”. 

Após a anexação francesa da Nova Caledónia, conseguida por Napoleão III em competição acérrima com os ingleses, o termo viria a ser encurtado para kanak e começou a ser usado de forma pejorativa pelos colonos. Em reacção ao preconceito, a população autóctone adaptou-o com orgulho, para se auto-definir e à sua nação.

“Bonjour monsieur, madame” saúdam-nos as funcionárias melanésias na recepção do Centro Cultural Jean Tjibaou. O cumprimento é formalmente educado. Soa à delicada e tantas vezes forçada compostura gaulesa em vez de à timidez típica dos indígenas e diz muito do dilema em que vivem actualmente os kanaks.

Dois anos antes, tínhamos visitado  Vanuatu, um vasto reduto insular também colonizado pelos franceses, em condomínio com os britânicos, até 1980. E, apenas algum tempo depois de aterrarmos em Nouméa, espanta-nos já a distância civilizacional que separa aquele arquipélago da Nova Caledónia, apesar da proximidade geográfica e étnica dos seus povos, ambos, alguns séculos antes, selvagens e canibais. 

Por razões históricas e políticas, os franceses influenciaram a paisagem e a cultura da Nova Caledónia de uma forma bem mais forte. Marcaram presença com uma comunidade crescente de caldoches e metros e, mais tarde, com empresas e instituições importadas da metrópole. Hoje, como no passado, muitos kanaks duvidam ou discordam dos benefícios da presença francesa e do estatuto de colectividade francesa especial atribuído à sua nação.

Reexaminam os ideais e a contestação do padre-mártir Jean-Marie Tjibaou que deixou os estudos de Sociologia na Universidade Católica de Lyon e regressou à Nova Caledónia para liderar um processo de revolução cultural que visava recuperar a dignidade do povo kanak e perseguir a independência.

Tjibaou abandonou a vocação religiosa por considerar que, à época, “era impossível a um padre tomar posição, por exemplo, a favor da restituição das terras ao povo kanak. Entre outras formas posteriores de luta, liderou, em 1975, a Manifestação Melanésia 2000 que agrupou, no lugar do centro que o homenageia, todas as tribos da Nova Caledónia.  

Tendo sido evitada, em última instância, uma eminente guerra civil entre os nativos e os colonos, assinou, em Paris, em 1988, os Acordos de Matignon que estabeleceram um período de desenvolvimento de dez anos com garantias económicas e institucionais para a comunidade kanak, antes que os neo-caledonianos se pronunciassem sobre a independência.

Passado esse período, um novo acordo foi aprovado pela população e assinado em Nouméa, sob a égide de Lionel Jospin. Previa a transferência de soberania, em 2018, e a independência em todos os domínios excepto a defesa, a segurança, a justiça e a moeda.

Jean-Marie Tjibaou já não esteve presente em nenhum dos acordos pós-Matignon. Foi assassinado, na ilha de Ouvéa por um independentista radical, que se opunha às cedências do líder.  

À Descoberta da Grande Terre

Antes de deixarmos Nouméa, passamos pelo aeroporto para tratar de burocracias relacionadas com o aluguer do carro. E o funcionário ao balcão, dono de um visual eternamente juvenil que lembra o de Jean-Paul Belmondo não disfarça a sua curiosidade: “E que fazem dois portugueses na Nova Caledónia, coisa tão rara?”

Exulta, depois, com a resposta: “Repórteres? Olha que maravilha! É óptimo que nos promovam lá na Europa. Sabem que os franceses não ligam muito a isto. Para terem uma ideia, quando a TV francesa emite imagens das passagens de ano do Pacífico, mostram sempre Sydney e ignoram-nos, quando a nossa festa até acontece antes da de Sydney.”

Tomamos a auto-estrada em direcção a norte. Desvendamos as primeiras planícies e colinas verdejantes da La Brousse, a vastidão rural da Grande Terre de que os caldoches se apoderaram e continuam a explorar. A caminho de La Foa e de Sarraméa, a selva impenetrável que cobre ainda a maior parte do arquipélago Vanuatu vizinho, foi ali substituída por pastos sem fim percorridos por grandes manadas de vacas. Para as conduzirem, os cowboys caledonianos recorrem cada vez mais a carrinhas pick-up e a motos-quatro, em vez dos clássicos cavalos. 

A auto-estrada dá lugar a estradas convencionais, bem mantidas, que os locais, aborrecidos pelas distâncias, percorrem a enorme velocidade. O nome não engana. A Grande Terre é realmente grande. Feitas as contas surge no ranking geográfico como 52ª ilha do mundo, 22ª do Pacífico e tem o dobro do tamanho da Córsega.  Precavidos, continuamos para norte, na esperança de vislumbramos o coração de Voh - a capa do ilustre livro “A Terra Vista do Céu” de Yann Arthus-Bertrand - e explorar os cenários circundantes. Mas a realidade depressa desfaz qualquer romantismo.

Outro dos nomes dados pelos franceses à Grande Terre é Le Caillou, em português, O Calhau. Em Voh, tivemos oportunidade de perceber porquê.

O solo da ilha contem uma enorme riqueza de elementos e minerais industriais críticos, incluindo um quarto do níquel do mundo. A prospecção e mineração são visíveis um pouco por todo o lado mas a região de Voh concentra a actividade e a sua paisagem foi inevitavelmente revolvida e ferida.

O coração vegetal, esse, surge num pequeno mangal próximo das minas mas, como indicia o livro de Arthus-Bertrand, só é detectável do ar e em condições meteorológicas específicas.

Regressamos, assim, para sul, com Bourail em vista. Um vale verdejante conduz a uma praia ampla em que o litoral, por caprichos geológicos, surge ligeiramente abaixo do nível do mar. Repetem-se os aviso de perigo em caso de tsunami mas nenhum dos donos das vivendas ali instaladas se parece preocupar, ocupados com os jardins e os churrascos.

Logo ao lado, o Pacífico castiga a Baie des Tortues com as primeiras ondas a sério que vimos na Grande Terre que, como toda a Nova Caledónia, é protegida pela maior lagoa fechada do Mundo.

Percorridos alguns quilómetros adicionais no mato da La Brousse e chegamos a Pouembout, povoação em que tem início uma das possíveis travessias longitudinais da ilha. Internamo-nos e contornamos as montanhas para revalidar a visão de uma natureza com máculas evitáveis.  

Ao longo do caminho, pequenos exércitos de kanaks trabalham na berma da estrada, a cortar a vegetação resiliente que o clima tropical renova. Em plena época de monção do Pacífico do Sul, a chuva instala-se e some-se consoante o declive no percurso e dá a mais preciosa das contribuições.

Uma hora mais tarde, chegamos a Touho, na costa este da Grande Terre.

Naquele lado, a atmosfera cozinha a humidade e o calor como numa panela de pressão, fenómeno reforçado pela retenção da selva agora compacta e pela ausência de vento que faz do Pacífico interno ao largo (envolto por uma barreira de recife longínqua) uma espécie de mar morto.

Prosseguimos por uma via sombria e estreita em que surgem, a espaços, novos tribus - lugarejos ou aldeias kanaks - tranquilos, ou apenas as suas casas, identificadas por bancas de venda pouco preenchidas ou por estendais que exibem os padrões étnicos garridos das roupas indígenas.

Hienghène é a primeira povoação digna desse nome que encontramos no nordeste da ilha. E, se a população se prova, ali, maioritariamente kanak, a intromissão da modernidade francesa faz-se, de novo, sentir.  Várias mulheres que conversam agrupadas no mercado local formam um curioso conglomerado de vestidos folclóricos. A discussão flui animada sob a sombra do edifício branco polido mas não se vislumbra ou sente um verdadeiro ambiente de comércio tribal, como o que em tempos animou a região. Em vez, kanaks, caldoches e metros compram baguetes nas pequenas mercearias contíguas. Comprova-se, dessa maneira, a predominância funcional da francofonia por toda a Grande Terre.

O nordeste prolonga-se, no mapa, para cima de Hienghène, adornado por montanhas costeiras imponentes que só o Mont Panié bate em altitude. E quebrado por rios escuros perdidos na selva, como Ouaiéme que, ao jeito modernizado do imaginário Camel, é regularmente cruzado por uma balsa a motor.

Ouaiéme marca o limite setentrional que havíamos traçado para a exploração da Grande Terre. Investigadas mais uma ou outra das suas vistas exóticas, invertemos marcha para regressar a Nouméa. Algures nas imediações do Pacífico do Sul, aguardava-nos a Île des Pins, um dos recreios idílicos perfeitos da Nova Caledónia.