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Torre Fushimi Yagura

Torre Fushimi Yagura

Uma das torres do palácio Imperial japonês que recuperou o castelo de Edo.

Tóquio, Japão

O Imperador sem Império

Após a capitulação na 2ª Guerra Mundial, o Japão submeteu-se a uma constituição que encerrou um dos mais longos impérios da História. O imperador japonês é, hoje, o único monarca a reinar sem império.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O palácio imperial impõe-se à cidade como uma das mais marcantes viagens ao passado de Tóquio. Quando emergimos da sofisticação tecnológica da estação de metro de Otemashi examinamos a realidade em redor e deslumbramo-nos. Para trás, salta à vista um núcleo pouco uniforme mas harmonioso de edifícios de escritórios modernos, dois ou três deles quase arranha-céus, outros, mais baixos. Ao nível do solo e quase até à base destes prédios, estende-se uma floresta urbana de pinheiros verdejantes que mais parecem ter sido aparados por uma equipa de Eduardos Mãos de Tesoura.

Entre os pinheiros e o palácio, alonga-se uma vasta área coberta de brita cinzenta só interrompida pelo asfalto mais escuro que dá acesso ao palácio. Detectamos o muro do antigo castelo de Edo e um estranho alinhamento de pessoas que lhe virou as costas e parece esperar algo. Ocorre-nos atravessar o asfalto que nos separa delas para verificarmos afinal que se passava mas, não vamos longe.

Um polícia grita em nipónico e gesticula para voltarmos para trás. Fiéis ao objectivo inicial, submetemo-nos a uma volta bem maior. Quando chegamos ao outro lado, a ansiedade tomou conta do grupo que resiste ao frio, de máquinas fotográficas em riste.

Ouvem-se sirenes ao longe. Surgem polícias-batedores em motorizadas volumosas, seguidos por um cortejo composto por sete viaturas negras e uma última, também policial. A pequena multidão entra em frenesim, mais ainda as mulheres que trocam exclamações histéricas, acenam e batem palmas tão comovidas como fora de si. Abre-se a janela traseira de um dos carros, destacado pela configuração de limusine clássica e por uma bandeira vermelha que esvoaça sobre o meio do capô. Um homem de fato, ar cândido e cabelo grisalho revela-se do interior, acena de volta aos admiradores e leva-os a um óbvio êxtase. O cortejo não pára mas abranda. Em três tempos, desaparece para o interior do jardim do palácio. A multidão rejubila. Dezenas de súbditos nipónicos acabavam de ver o seu imperador. Como se não bastasse, o imperador tinha-os saudado.

No que nos dizia respeito, sem sabermos muito bem como, tínhamos acabado de ver o imperador do Japão. O imperador do Japão tinha-nos saudado.

À partida, a probabilidade deste encontro era semelhante à de se achar um outro imperador ainda no activo à face da Terra: zero.

A casa imperial nipónica mantém-se como a monarquia hereditária mais antiga do mundo a exercer em continuidade. A sua origem é tão ancestral que cai num vazio de rigor, apesar de constar num livro de história japonesa do século VIII que foi fundada em 660. a.C.

No largo período decorrido, o poder do imperador japonês alternou entre um quase total simbolismo e uma verdadeira regência imperial. Mas, na maior parte do tempo – apesar de nominalmente apontados pelo imperador - os verdadeiros líderes japoneses foram os shoguns, senhores feudais que disputaram o território nipónico até à entrada em cena da Restauração Meiji, que promoveu o imperador à personificação de todo o poder do reino. Os exploradores portugueses, pioneiros europeus na chegada ao Japão, compararam-no ao Papa: com grande autoridade simbólica mas soberania limitada.

Após estender-se pela Ásia e Pacífico do final do século XIX até 1945, o Império do Sol capitulou em pouco mais que um ano perante os exércitos aliados. Foi reconduzido ao seu arquipélago ponto de partida e dissolvido, em 1947, durante a ocupação dos E.U.A. que estiveram na base da criação da nova constituição nipónica.

Hirohito foi poupado pelos norte-americanos a condenações por crimes de guerra e preservado no poder com o estatuto de “símbolo do estado e da unidade do povo”. Morreu, em 1989. Akihito ocupou então aquele que é conhecido pelo trono crisântemo. Este último imperador é venerado da forma que tínhamos acabado de assistir – e de outras bem mais zelosas ou até fanáticas - como descendente directo de Amaterasu, deusa xintoísta do Sol e do Universo, de acordo, a mais alta autoridade terrena desta religião.

Durante onze séculos, os imperadores japoneses residiram em Quioto. A partir do meio do século XIV, a residência oficial – Kokyo - foi mudada para o castelo de Edo, no coração de Tóquio. O seu edifício principal continuava à nossa frente, abrigado sobre muralhas interiores, para diante da ponte Nijubashi, no cimo de uma colina e entre árvores frondosas.

Vemos dezenas de alunos nipónicos vestidos de negro avançarem em fila ao longo da gravilha. Chegados à ponte, formam com este cenário como fundo e um fotografo, à boa maneira japonesa munido de tripé, regista a imagem dos jovens súbditos para a posteridade.

A estação central de Tóquio não está longe. Partem dela a toda a hora comboios-bala shinkansen destinados às principais cidades do país e equipados com uma hospedeira para cada carruagem. Entretanto, um grupo destas trabalhadoras nos seus uniformes elegantes aflui ao lugar com o mesmo propósito dos estudantes.

No início do século XXI, estas e outras japonesas quase foram prendadas com uma revolução na sempre tradicionalista relação de género nipónica.

Por essa altura, o Príncipe Akishino (segundo filho de Akihito)  mantinha-se o único elemento masculino nascido no seio da família imperial desde 1965.

Com a sucessão em risco, a Casa Imperial decidiu formar um conselho para ponderar a hipótese de uma mulher poder suceder ao Imperador. Mas, em 2006, Akishino e a princesa Kiko geraram um príncipe, Hisahito. Pouco depois, o conselho manteve que a sucessão deveria continuar a fazer-se no masculino. Acontece que Naruhito – o primogénito e provável sucessor do imperador actual – só tem uma filha. O que decidirão os japoneses quando a sucessão voltar a estar em perigo?