Esconder Legenda
Mostrar Legenda
Comodidade até na Natureza

Comodidade até na Natureza

Veado passa em frente a máquina de bebidas colocadas em pleno parque de Nara.

Tóquio, Japão

O Império das Máquinas de Bebidas

São mais de 5 milhões as caixas luminosas ultra-tecnológicas espalhadas pelo país e muitas mais latas e garrafas exuberantes de bebidas apelativas. Há muito que os japoneses deixaram de lhes resistir.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Graças à proximidade da vasta e gélida Sibéria, o Inverno japonês instala-se, com frequência, mais cedo do que se espera e, por vezes, invade os meses próprios de uma Primavera solarenga.

Vivia-se o último desses caprichos meteorológicos quando explorávamos os domínios do Monte Fuji, a partir da base da sua vertente sul, encaixada entre a baía de Saruga e a encosta do vulcão. Os dias amanheciam húmidos e frígidos e só de tempo em tempo vislumbrávamos o seu cume nevado distante, entre as nuvens que se haviam instalado.

Para aproveitarmos ao máximo esses períodos efémeros de visibilidade, sacrificávamo-nos a despertares madrugadores que nos faziam chegar à estação de comboio de Kofu antes dos primeiros “autómatos” laborais japoneses e até da abertura das lojas de conveniência da zona, menos presentes que o habitual por estarmos a quase 100km de Tóquio.

A caminhada de vinte minutos enregelava-nos e despertava um apetite voraz. Assim que chegávamos à plataforma, tirávamos das mochilas um qualquer snack industrial comprado na véspera e voávamos para as máquinas de vending ali instaladas. Cento e trinta e ienes (pouco mais que 1 euro), garantiam-nos o primeiro momento recompensador do dia e a compra não podia ser mais fácil e rápida. Já sabíamos de cor e salteado a posição da bebida preferida. As moedas de 100 ienes e de cêntimos que inseríamos caíam quase sem som e bastava-nos não falhar o botão correcto para uma garrafa de Milk Tea Kirin bem quente se precipitar para o depósito, como uma espécie de jackpot alimentar garantido.

Em redor, a geada pintava de branco a paisagem suburbana e cobria secções da estação. Os pequenos bolicaos nipónicos mais pareciam esferovite mas os primeiros golos daquele chá com leite tinham o sabor da salvação. Durante vários meses de exploração do Japão, aquelas máquinas salvaram-nos vezes sem conta.

Há uma máquina de bebidas para cada vinte e dois habitantes nipónicos (cerca de 5 milhões, no total). Surgem em menor número nos recantos rurais ou montanhosos mais insólitos do país ou como parte de verdadeiros exércitos electrificados que tomaram as cidades e os seus arredores. Pertencem a grandes companhias tecnológicas que as alugam às principais empresas japonesas e multinacionais que vendem bebidas. Nas zonas de maior circulação de pessoas – como em Shinjuku, Tóquio, onde se situa a estação de comboios e metro mais movimentada do mundo – podem aparecer em sequências infindáveis que levam ao desespero os clientes mais indecisos. A oferta não é para menos. Além de uma panóplia de águas minerais, vitaminadas e com sabores e dos refrigerantes internacionais do costume - Coca Cola, Pepsi, Fanta, etc - são ainda oferecidos inúmeros refrigerantes e sumos nipónicos (os japoneses chamam a todos jusuu) vários tipos de chás, chás com leite, incontáveis tipos de cafés (normais, Premium e hiper-fortes), de cafés com leite e até achocolatados.

Por norma, as bebidas surgem organizadas por categoria e uma barra azul ou vermelha abaixo da linha dos preços determina se são produtos quentes ou refrigerados sendo que os primeiros diminuem à medida que o Inverno fica para trás mas, com excepção para Okinawa e restantes ilhas subtropicais de Ryukyu, têm sempre algumas latas e garrafas a representá-los.

Passada esta pré-escolha da temperatura, a selecção da bebida pode envolver distintos factores. O hábito será um dos principais, como a necessidade física e o estado de espírito do cliente. Mas não se pode menosprezar a aptidão manipuladora das empresas. Nenhum país desenvolveu a arte do design como o Japão e os rótulos e o packaging das pequenas latas e garrafas conquistam muitos cérebros até porque parece pouco credível que, numa nação com o poder de compra do Japão, a ténue diferença entre os 100 e os 150 ienes (preços mínimos e máximos das bebidas) exerça demasiada influência.

No nosso caso particular, conseguimos chegar às bebidas eleitas em relativamente pouco tempo: Milk Tea da Kirin ou  de duas ou três outras marcas (o sabor pouco muda) foi a eleita para pequeno-almoço, para aquecer ou refrescar já que existe quente e refrigerada. Optamos por uma excepcional bebida isotónica quando o calor e a sede apertam e por um café ou café com leite nas raras alturas em que é preciso um estímulo extra para vencer o sono ou o cansaço e continuar à descoberta.

Mas milhões de japoneses e de gaijins (estrangeiros) continuam indecisos. Com o propósito de os influenciar, foram lançadas recentemente algumas máquinas equipadas com sistemas de reconhecimento facial que recomendam bebidas com base na idade e no género do cliente. A título de curiosidade, a empresa responsável pela sua criação e comercialização é a JR East Water Business Co, nem mais nem menos que uma subsidiária da empresa ferroviária JR East Co. E este facto contribui para demonstrar a versatilidade e dinâmicas de negócio a que se entregam empresas de transportes nipónicas.

De regresso ao reconhecimento facial, se for identificado um homem na casa dos 50, a recomendação cairia provavelmente sobre um chá verde. Se esse homem for mais novo, passará a ser um café. A uma mulher nos seus vinte e poucos anos será sugerido um milk tea ou algo mais doce. Mas os criadores previram também outras situações. 

A recomendação da bebida pode, por exemplo, depender da temperatura e da altura do dia. Em qualquer caso, o produto aconselhado é identificado com uma etiqueta electrónica especial que se activa de imediato. E, segundo um acordo entre municipalidades japonesas e as empresas de vending, máquinas posicionadas em lugares estratégicos – como estações de metro e de comboio - foram equipadas com sistema de suporte energético especial e programadas para oferecer bebidas em caso de desastres naturais.

Em tempos de normalidade, o pagamento das bebidas pode ser feito com recurso a moedas ou notas, ou ainda a sistemas de cartões inteligentes como o popular Suica que tomou conta do Japão e é usado para inúmeros fins. Mas as leis do mercado ditaram que nem sempre é necessário pagamento.

Alguns operadores de vending de bebidas menos dispendiosas (70 a 120 ienes e servidas em copos de papel com logos e até mini-anúncios neles impressas) lembraram-se de oferecer descontos ou até mesmo as bebidas às pessoas que, em troca, assistissem a filmes publicitários com cerca de 30 segundos. A tarefa pareceu simples e até divertida a milhões de nipónicos. Hoje, estas máquinas superam já as 50.000 unidades e juntaram-se às mais de cinco milhões que tinham já conquistado a nação dos imperadores.