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Rota de mar

Rota de mar

Lancha percorre o litoral verde-azul do PN Abel Tasman, no norte da Ilha do Sul da Nova Zelândia.

Nelson a Wharariki, Nova Zelândia

O Litoral Maori em que os Europeus Deram à Costa

Abel Janszoon Tasman explorava mais da recém-mapeada e mítica “Terra Australis” quando um equívoco azedou o contacto com nativos de uma ilha desconhecida. O episódio inaugurou a história colonial da Nova Zelândia. Hoje, tanto a costa divinal em que o episódio se sucedeu como os mares em redor evocam o navegador holandês.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Abrigada dos ventos e frentes frias pelas montanhas que se projectam do cimo da Ilha do Sul, a região de Nelson goza de mais horas de sol que qualquer outra parte da Nova Zelândia. E é quase só sol que temos quando exploramos as ruelas de Nelson e enquanto viajamos pela estrada 60, apontados a Takaka e, logo, ao limite setentrional pontiagudo de Te Wai Pounamu (Águas Esmeralda), assim preferem os maori tratar a metade de baixo da nação kiwi.

Uns meros quilómetros fora da área suburbana, os cenários já se revelam tão bucólicos como seria de esperar. Sucedem-se vales amplos, forrados de um pasto verde quase fluorescente e delimitados por vertentes florestadas repletas de sulcos. Quando a via se acerca à Tasman Bay, revela outros desses sulcos, invertidos, que se desenrolam até ao oceano tranquilo.

Duas horas depois, chegamos a Puponga. Para oriente, estende-se o Farewell Spit, uma língua de areia que encerra a Golden Bay e, por sinal, a Ilha neozelandesa do Sul.

Deixamos a 60 para a Wharariki Road. Passamos a serpentear na direcção contrária e rumo a norte, entre outeiros ora cobertos por uma floresta baixa de árvores manuka ora, em que esse mato denso foi sacrificado à erva que também ali alimenta o exército ovino da Nova Zelândia.

Seguimos o caudal acastanhado do ribeiro Wharariki por meandros e ferraduras caprichosas. De um lado e do outro, os rebanhos pastam equilibrados em encostas retalhadas por vedações de que, a espaços, despontam mini-bosques de palmas-dracenas e algumas destas cabbage trees solitárias.

Nesse tempo, a Wharariki Road tinha-se alinhado com a costa setentrional. Um café e um parque de estacionamento anunciam o desvio para a praia homónima. Continuamos a pé guiados pelo riacho até que o trilho abre para um reduto de dunas alvas e nos revela uma praia a perder de vista. Subimos as dunas. Num ápice, a brisa que antes fluía ligeira entre os outeiros transforma-se num vendaval furibundo. Vemos a areia seca voar a grande velocidade e cobrir o areal compactado pela maré vazia de uma névoa granulada. O retiro do mar concedia acesso temporário a um tal de trio de ilhas Archway. Avançamos na sua direcção mas mal conseguimos controlar os passos. Sentimos a cara açoitada pela areia tresmalhada e por borrifos das vagas que se espraiavam, violentas, e torcidas para leste pelos tresloucados westerlies.

Rendemo-nos à agressividade da atmosfera. Espreitamos apenas um ou dois recantos intrigantes entre os grandes rochedos Archway, após o que batemos em retirada para o abrigo bucólico em que ficara o carro.

Perdida nuns antípodas solitários, a Nova Zelândia está desde sempre sujeita à rudez do oceano (ali pouco) Pacífico e dos agentes em geral.

Quando a vislumbraram e começaram a explorar, os navegadores europeus passaram por sucessivas aflições.

Como acontecera já no limiar austral de África, contornaram as penínsulas, os cabos, todas as adversidades até levarem os seus enseios descobridores e colonizadores a bom porto.

Abel Tasman, o holandês que se adiantou face à concorrência, fê-lo exactamente nestas paragens por que andávamos.

Tasman deixou Batavia (actual Jacarta) em 1642. Passou pela ilha Maurícia e descobriu a Tasmânia. Prosseguiu para Leste. Avistou o litoral da Ilha do Sul que terá acompanhado até se confrontar com os imponentes Alpes do Sul e voltado a “ascender” à latitude do Cabo de Farewell, para norte. Contornou-o e ao topo da Ilha do Sul. Já do lado oriental, achou o mar tranquilo da Golden Bay. Lá detectou uma série de fogueiras e fumos indicadores da presença de indígenas da tribo maori Ngati Tumatakokiri. Quando o sol voltou a raiar, Tasman enviou barcos de apoio em busca de uma ancoragem mais favorável e de um lugar para se abastecer de água. Reancorou numa enseada hoje chamada de Wainui Inlet, no extremo sul da Golden Bay.

Nesse processo, os maori acompanharam os movimentos dos recém-chegados e procuraram apurar até que ponto representavam uma ameaça. Por fim, enviaram uma das suas canoas ao encontro dos forasteiros. No seu diário de bordo, Tasman narra o que então se passou: “um guerreiro soprou várias vezes um instrumento e nós mandámos os nossos marinheiros tocar-lhes música de volta”.

Os maoris não estariam, todavia, dispostos ao duelo musical. Os sons que emitiam aos holandeses teriam o objectivo de os afugentar. Os indígenas acreditariam que aqueles seres brancos seriam patupaiarehe, fantasmas mitológicos que lhes levariam as mulheres e as crianças. Outras interpretações defendem que Tasman ancorou precisamente na enseada onde ficava a gruta de uma taniwha maori, um monstro réptil imaginário que a tribo temia que os brancos despertassem. Tendo em conta estas ansiedades, a resposta de Tasman e dos seus homens revelou-se inapropriada.

Mais maoris se juntaram aos primeiros. Reforçados, desafiaram, por fim, os estrangeiros. Receoso de perder o controlo da situação, Tasman ordenou um disparo preventivo de canhão. O ribombar assustou e afugentou os maori para terra.

No dia seguinte, os maoris regressaram em peso e  confrontaram os holandeses, provavelmente com um intenso haka. Tasman terá interpretado que se tratava de uma cerimónia de acolhimento. Após os maori regressarem a terra, ordenou aos marinheiros que aproximassem os navios da costa. Mas, antes que o fizessem, uma canoa maori forçou a colisão com um bote holandês. Um guerreiro nativo golpeou um dos tripulantes no pescoço com um longo chuço e mandou-o borda fora. Quatro outros marinheiros foram mortos, o corpo de um deles arrastado para dentro de uma das canoa waka. Os marinheiros ripostaram com tiros de mosquetes e outras armas. Por fim, convencido de que não era ali bem-vindo, Tasman ordenou a retirada. Desiludido, baptizou o lugar de Baía dos Assassinos e registou que “o encontro os devia ensinar a considerar os habitantes daquelas terras inimigos”.

Tasman prosseguiu  rumo a oriente. Ancorou no actual arquipélago de Tonga.

Os maori só viriam a avistar outros ocidentais mais de cem anos depois, entre 1769 e 1770, no caso, o incontornável capitão Cook e os seus homens, a bordo do HM Bark Endeavour.

Ao contrário dos holandeses, os britânicos voltariam para ficar. Enquanto pioneiro, Tasman manteve a honra de diversos baptismos da zona: o Mar de Tasman. A Baía de Tasman, logo abaixo do Wainui Inlet em que teve lugar o confronto com os maori. Também o Parque Nacional Abel Tasman deslumbrante que, em breve, nos dedicámos a explorar.

Regressamos à estrada 60 e a iminência da Golden Bay. Contornamos o amplo Ruataniwha Inlet, atravessamos o rio Aorere sempre por uma manta de retalhos aluviais e rurais de diversos tons de verde. Passamos por Parapara, por Onekaka e por Puramahoi. A sucessão de povoações com nomes maori comprova-nos o predomínio histórico do povo indígena e o respeito que, nos tempos mais recentes, as autoridades pós-coloniais da Nova Zelândia granjearam aos seus condóminos

Chegamos a Takaka a tempo de nos instalarmos e darmos uma volta tão curta como a povoação, talvez um pouco maior que Coriscada, a aldeia do distrito da Guarda sua antípoda.

Na manhã seguinte, pequeno-almoço despachado bem cedo, fazemo-nos ao PN Abel Tasman. Conduzimos até Kaiteriteri. Lá apanhamos um barco do parque que nos revela os caprichos da costa até à enseada recortada de Anchorage, sob o olhar desconfiado de inúmeros corvos-marinhos.

Dali, em diante, tomamos o trilho que serpenteia por aquele domínio costeiro, atentos ao recolher e avançar do mar nos seus sucessivos contornos. O litoral do PN Abel Tasman tem as marés mais pronunciadas de toda a Nova Zelândia. Para que os caminhantes não acabem encurralados, é-lhes requerida uma atenção redobrada.

Alguns dos areais são dourados como não pensávamos ser possível. Conferem todo o crédito ao baptismo da Golden Bay acima, a tal de que Tasman se viu forçado a bater em retirada.

O mar que os afaga tem um tom verde-esmeralda que parece dourar ainda mais a areia. Para o interior, o sobe e desce do trilho revela incríveis colónias de fetos arbóreos, vários, com copas bem acima das nossas cabeças. Pontes suspensas atravessam desfiladeiros profundos, alguns deles caudais de braços de mar que a maré-cheia preenche num ápice. Aqui e ali, voltamos a descer da floresta para o nível do mar. Passamos por lagoas e piscinas naturais que nos seduzem a voltar a mergulhar. É o caso da Frenchman Bay, um braço de mar em forma de vírgula cercado por vegetação frondosa que alterna entre o branco do leito arenoso drenado e um verde-esmeralda suave que, aos poucos, a entrada de mais água adensa.

Seis horas e 20 km depois, entramos na Awaroa Bay. Regressamos ao barco que nos traz de volta a Kaiteriteri e ao carro. Recuperamos energias. Com algum tempo de sobra, intrigados quanto ao que havia tornado as nascentes Te Waikoropupu tão famosas, viajamos até ao seu enigmático reino de água doce.

Tal como acontecera ao longo do PN Abel Tasman, voltamos a ver-nos cercados de floresta densa. Chegados ao término de novo trilho, subimos a um varandim de madeira. A vista em redor volta a surpreender-nos. Oito fontes subterrâneas mantinham a transbordar uma enorme lagoa azulada delimitada pela própria base verde do arvoredo. O seu caudal era de tal maneira translúcido que, à laia de aquário, nos permitia apreciar os mais ínfimos pormenores rochosos, arenosos ou vegetais do leito. Medições de visibilidade levadas a cabo determinaram que chegava a 63 metros, atrás apenas de uma outra lagoa subglacial da Antárctida. Alguns patos selvagens lá nadavam e chapinhavam, queríamos acreditar que com prazer redobrado.

Tal como acontece na gruta do Wainui Inlet em que Abel Tasman em má hora aportou, segundo creem os maoris, também este lago cristalino é frequentado por uma taniwha. Huriawa é, aliás, uma das três principais taniwhas de Aotearoa (o termo maori para a Nova Zelândia), uma mergulhadora das profundezas da Terra e do mar, que faz do seu modo de vida desbloquear canais das profundezas. Os nativos acreditam que é nas águas sagradas de Te Waikoropupu que repousa da sua actividade frenética.

Com o dia prestes a encerrar-se, resolvemos inspirar-nos na mitologia. Sentamo-nos num dos varandins e ficamos a escutar o borbulhar abafado das nascentes, o piar da passarada e o silvar da brisa na vegetação. Abel Tasman desvendou estas paragens maori aos ocidentais há quase quatro séculos. Decorrido todo este tempo, Aotearoa acolhe e recompensa os forasteiros como nunca Tasman sonhou possível.