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Um Apocalipse Televisionado

Um Apocalipse Televisionado

Uma instalação a condizer com a mediatização da montanha Cumbre Vieja junto ao cume do vulcão San António.

La Palma, Espanha

O Mais Mediático dos Cataclismos por Acontecer

A BBC divulgou que o colapso de uma vertente vulcânica da ilha de La Palma podia gerar um mega-tsunami. Sempre que a actividade vulcânica da zona aumenta, os media aproveitam para apavorar o Mundo.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Andamos pelo centro de Santa Cruz de La Palma quando termina uma missa a decorrer no interior da igreja de El Salvador e os crentes regressam à luz ténue do dia cinzento e a um saudável convívio secular. Francis - o guia que temos durante alguns percursos pela ilha – confirma-nos a religiosidade dos palmeros e também o seu amor pela boa-vida, de preferência ao ar livre: “Nós cá em La Palma somos provavelmente dos europeus mais latino-americanos que existem. Temos o segundo melhor tabaco do mundo, a seguir ao de Cuba, claro. Também somos grandes adeptos de fumar “puros” e da salsa, da rumba e de outros ritmos caribenhos. Em La Palma não existem discotecas. O que há é música de rua e, na maior parte das vezes, ao vivo.”

Para quem visita a mais ocidental das ilhas Canárias pela primeira vez, torna-se difícil de dizer quais dos dois aspectos ocupa mais a mente dos moradores. Seja como for, os palmeros têm boas razões para se entregarem à fé de alma e coração. Segundo uma parte considerável da comunidade científica, vivem paredes meias com uma gigantesca bomba-relógio de que ninguém decifrou ainda o prazo de detonação.

O dia seguinte amanhece ainda mais plúmbeo mas a chuva acaba por não nos perturbar o trajecto até ao Parque Nacional La Caldera de Taburiente. Atravessamos um túnel escavado na montanha que Francis nos afiança que os nativos tratam por del Tiempo: “É que é quando entramos do lado de lá e o tempo está mau, é quase garantido que, no oposto, vai estar bom.”

Subimos gradualmente a encosta até atingirmos uma secção coberta de pinheiros viçosos, a que a luz solar satura de um verde-amarelado excêntrico. Dali, avistamos os contornos supremos da caldeira do grande vulcão de La Palma, percorridos por uma caravana de nuvens que os ventos predominantes conseguem forçar para dentro da cratera. 

Tendo em conta a beleza extasiante e a paz natural que se vive, interrogamo-nos como terão reagido os palmeros ao inesperado alarmismo mediático e globalizado em volta da sua ilha-mãe.

Após o tsunami do sudoeste asiático de 25 de Dezembro de 2004, os media apressaram-se a encontrar possíveis sucessores. A BBC, em particular, divulgou o documentário “Megatsunami, Onda da Destruição” assente na teoria a que chegaram Stephen N. Ward e Simon Day após desenvolverem uma simulação computorizada dos efeitos de um eventual desabamento da vertente oeste do vulcão Cumbre Vieja (1949 m) sobre o oceano Atlântico, despoletado por uma grande erupção. A simulação estimava que a derrocada geraria enorme ondas. Poderiam ter, na origem, 900 metros de altura, após três horas, atingiriam a Península Ibérica – a norte - com cerca de 5 metros mas, depois de mais de seis horas de travessia, ainda chegariam às ilhas das Caraíbas e aos litorais opostos da América do Norte e do Sul com entre 10 a 15 metros e provocariam uma destruição avassaladora.

Desde 2005, os media aproveitaram ao máximo o potencial de angariação de audiência e transformaram este estudo científico numa mega-erupção de sensacionalismo. Mais e mais canais, revistas e Websites usaram a teoria da dupla para desenvolver documentários e artigos quase sempre apostados na histeria fácil, com os norte-americanos na liderança deste carnaval, divulgadores de imagens hollywoodescas de ondas gigantes a engolirem a inevitável ilha de Manhattan. Enquanto isso, o Cumbre Vieja manteve-se impávido e sereno.

Da altitudes intermédias porque andávamos, ascendemos em direcção a Roque de Los Muchachos, a 2426 metros. Ali, estamos sobre um dos pontos mais elevados das Canárias e de toda a Macaronésia que, por essa razão, acolheu um dos melhores observatórios espaciais do hemisfério norte, a par com o do monte Mauna Kea, situado na ilha havaiana de Big Island.

Há um manto de nuvens abaixo de nós que nos impede de avistar os cenários de La Palma e as ilhas mais próximas. Sem alternativas, avançamos para norte e aproximamo-nos da costa ocidental que percorremos em quase toda a extensão, por povoações pitorescas mas também através de campos de lava até nos aproximarmos à exacta área de La Palma que pode ceder a qualquer altura e que suscitou toda a comoção.

Passamos o casario colorido de Los Canários e Fuencaliente. Pouco depois, estamos a ascender a uma nova cratera, desta feita a do vulcão San António, uma das várias que surgem sobre a longa encosta do Cumbre Vieja. 

O cone é negro, coberto de uma terra de lava sobreposta por velhas erupções. A contrastar, brotam do fundo da sua cratera pequenos pinheiros destemidos. Por si só, o cenário é digno de espanto mas a coisa não fica por aí. Caminhamos ao longo de um trilho estreito que dá a volta à cratera e damos com uma qualquer instalação de arte que alguém provisoriamente deixara exposta sobre o solo. Um centro de sala da década de 50 - ou, vá lá que seja, 60 - destacava-se da negritude dominante. Compunham-no um sofá, um abat-jour, um tapete, um velho rádio de madeira e, sobre este, uma TV do mesmo material e da mesma época.

O mistério adensa-se, como a névoa que paira, à distância, sobre o mar, em caso de derrocada, o receptador da vasta encosta abaixo de nós e o culpado do Apocalipse atlântico que se seguiria.

No passado, outros deslizamentos de terras poderiam ter gerado uma enorme destruição não fosse a área em que se deram ser praticamente desabitada. Em 9 de Julho de 1958, um dos frequentes sismos de grande intensidade do Alasca provocou o deslizamento de uma encosta da baía de Lituya e os 30 milhões de km3 de terra desprendidos criaram uma onda que atingiu os 500 metros de altura. Ora, a suceder-se, o desprendimento do Cumbre Vieja soltaria 500 milhões de km3. Mas a onda provocada iria dispersar-se por uma área incomparavelmente mais ampla que a da baía alasquense.

Vemos, para sul, O Teneguia, outro sub-vulcão do Cumbre Vieja, chamemos-lhe assim -  o último não submarino de La Palma a entrar em erupção, em 1971, com uma das actividades mais ténues e curtas de que houve registo nas Canárias.

Nos últimos tempos, tem sido o vizinho vulcão El Hierro a assumir o protagonismo. Desde meio de 2011, sofreu quase 10.000 tremores de terra causados por actividade do magma na base da ilha. Alguns têm-se aproximado dos 4.5 na escala de Richter, valores que já forçaram as autoridades a proibir a pesca em redor e até a desviar o trânsito de partes mais sensíveis de El Hierro.

Os media não perderam tempo. Nos últimos meses, voltaram a alertar para o risco eminente de colapso do Cumbre Vieja e de tsunami, provocado por uma entrada em erupção por alastramento da actividade intensa de um – ou vários - dos vulcões de El Hierro, a apenas 128 km de distância.

Dali, do topo do San António, a única coisa que vimos precipitar-se no mar foi o Sol quase escarlate que o Atlântico engoliu sem qualquer oscilação. Naquele momento, tínhamos mais com que nos preocupar que a mera destruição da civilização que conhecíamos. A noite caía e o frio começava a incomodarmos. Estava na hora de descermos para Santa Cruz e de bebermos uma das bebidas revigorantes da ilha.

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