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Perigo: correntes

Perigo: correntes

Nadador-salvador traz um banhista arrastado pelas fortes correntes ao largo de Boucan Canot. As intervenções dos nadadores-salvadores são permanentes em Boucan Canot.

Reunião

O Melodrama Balnear da Reunião

Nem todos os litorais tropicais são retiros prazerosos e revigorantes. Batido por rebentação violenta, minado de correntes traiçoeiras e, muito pior, palco dos ataques de tubarões mais frequentes à face da Terra, o da remota ilha francesa da Reunião está por conceder aos seus banhistas a paz e o deleite que dele anseiam.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Projectada do fundo dos mares como uma de tantas erupções massivas de lava que o clima moldou e tornou luxuriante, a Reunião tem rebordos e litorais quase sempre bruscos e abruptos. Disso se queixam os moradores da capital Saint-Denis, desejosos de evasão à altura do isolamento e da rotina que, malgrado o nome, a ilha que os acolheu lhes impõe. Thomas nascera em Versailles. Deixou o requinte e a proximidade da metrópole parisiense em busca de aventura e de uma carreira de professor mais solarenga e remunerada nos confins meridionais da União Europeia. Como sempre acontece, só em parte o plano lhe correu como esperado. Em termos sociais e culturais, a pequena Saint-Denis mantinha-o espartilhado, algo deprimido. Thomas contava com a praia para recuperar o ânimo. Gabou-nos e aconselhou-nos Boucan Canot como a meca de areia, água, sal e melanina a que se habituara a peregrinar. Omitiu, na íntegra, o lado sombrio que lhe viríamos a descobrir.

Chegou o dia de nos fazermos a sul. Boucan Canot destacava-se do mapa e continuava a estimular-nos a memória. Não tardámos a visá-la. Metemo-nos na estrada que ligava Saint-Denis a Saint-Paul. Bastaram umas centenas de metros para percebemos o quão extrema e exigente se podia provar a Reunião. Em parte deste percurso, a costa revelava-se de tal forma íngreme e escarpada que nunca concedera uma via, por mais estreita que fosse. Rendidas às evidências, as autoridades francófonas ergueram um viaduto sobre o mar. Mesmo assim, a sequência rodoviária desse viaduto era uma estrada submissa à falésia, sobre a qual, com demasiada frequência, se precipitavam enormes calhaus. Só redes de aço resistentes evitavam que estas bombas-relógio causassem danos mais sérios. O drama atenuado eram as longas filas de trânsito sem escapatória.

À hora a que nos fazemos ao caminho, todavia, tudo corre pelo melhor. Não nos chegamos a deter em Saint-Paul. Boucan Canot, distava uns poucos quilómetros. Surge-nos como um desvio inesperado da via litorânea.

Estacionamos. Passamos para diante da torre de vigia cimeira da praia, habitada por nadadores-salvadores sempre a postos. Dali, contemplamo-la em formato panorâmico, entre a linha recuada de coqueiros e a da rebentação. Nuvens carregadas que a sobrevoam adensam a luz. Escurecem o dourado do areal, desafogado e moldado por mil pés. De tão extensa que era, a praia estava longe de à pinha. Uma óbvia sede pela frescura espalhada pela rebentação faziam concentrar a maior parte dos veraneantes junto à beira-mar. Também nós por lá nos instalamos. Examinamos à pressa o perfil das vagas. Acalorados pelo dia abafado, juntamo-nos a uma turba de banhistas já dentro de água.

Uma laje de rochas coberta de pedras complicava os passos anfíbios inaugurais. A força das ondas a desfazer-se no areal, agravava ainda mais a vulnerabilidade de quem tentava mergulhar. Por fim, conseguimos entrar. Num ápice, damos connosco numa espécie de cuba de máquina de lavar marinha. Propulsionadas por uma tempestade para sul no oceano Índico, as ondas chegavam sem um padrão de vigor definido. Rebentavam mais à frente ou mais atrás e surpreendiam banhistas que assim se viam atrapalhados e arrastados para a zona pedregosa e o areal e a chocar uns nos outros.

Para aqueles que, como nós, tinham decidido avançar para salvo da rebentação e ficar sem pé, o panorama não era muito melhor.

Correntes intermitentes apanhavam desprevenidos alguns dos aventureiros mais incautos e puxavam-nos em direcção a alto-mar. De tal maneira e com tal frequência que os nadadores-salvadores já tinham desistido de entrar e sair da água. Permaneciam, em posições estratégicas, sobre grandes longboards. Resgatavam, um atrás do outro, os banhistas em apuros.

Apesar de toda a ondulação e respectiva comoção, mais que habituados à violência do mar português, chapinhámos, mergulhámos por baixo da rebentação e só não apanhámos boleias das ondas porque terminariam, dolorosas, sobre a tal laje rochosa e pedregosa que nos havia dificultado a entrada. Refrescámo-nos como merecíamos, já então com a consciência de que aquela incursão no mar rebelde de Boucan Canot, tinha sido, só por si, uma enorme benesse.

Devido aos sucessivos acidentes mortais que lá tiveram lugar, pela perspectiva realística e penosa de se repetirem, Boucan Canot passa boa parte do tempo encerrada a banhos. Os culpados são, desde há muito, os mesmos: os tubarões-touro que sulcam as águas em redor da ilha, ávidos por se banquetearem com carne vulnerável.

Na Reunião, os ataques a banhistas repetem-se mais que no vasto litoral australiano, provavelmente o mais badalado no que ao tema concerne. De tal maneira que, em termos estatísticos, esta ilha francófona é o lugar com a maior probabilidade de se darem à face da Terra. Só de 2010 a 2016, a ilha foi palco de 19 ataques com consequências trágicas, 16% dos 491 registados em todo o mundo. Destes 19, oito foram mortais. Em Boucan Canot e imediações, registaram-se dois só em 2011. Um em 2015 e, o último nesta praia, em 2016.

O incidente de 2015 vitimou Elio Canestri, um campeão juvenil de surf admirado pela comunidade local de surfistas mas não só. Elio contava treze anos. Sucumbiu à investida de um tubarão que começou por o morder na barriga, arrastou para longe da prancha e o devorou como se de uma pequena foca se tratasse. Em Agosto de 2016, Laurent Chardard, de 21 anos, surfava com amigos quando outro tubarão o feriu com tal gravidade num braço e num pé que as feridas obrigaram à amputação.

Nestes dois casos, como em quase todos, os jovens surfistas entusiasmaram-se com as ondas enormes e bem formadas que dão à costa. A psicologia de grupo faz com que ignorem os eventos passados, a proibição oficial de surfarem na maior parte do litoral da ilha  - bem como os respectivos avisos das autoridades - e pensem que nada lhes irá acontecer.

As várias tragédias obrigaram as autoridades francófonas da Reunião a dotarem as praias mais populares de redes anti-tubarão, como aconteceu em Boucan Canot e/ou de outros sistemas protectores. Ainda assim, numas situações, os surfistas aventuraram-se em lugares não protegidos por estas redes. Noutros, os tubarões entraram por fendas geradas entre as verificações levadas pelos mergulhadores, ou sobre as redes que, de quando em quando, as vagas massivas fazem rebaixar.

No intervalo dos períodos de luto pelos ataques, a inexplicavelmente dinâmica economia do surf e do bodyboard de Boucan Canot e da ilha em geral ressente-se. As lojas e escolas de surf e até os hotéis e resorts à beira-mar fecham as portas. Passado algum tempo, a memória esvanece-se. As redes são remendadas ou substituídas e os adolescentes recuperam a inconsciência do costume. Os tubarões não perdoam o mínimo deslize e causam novas vitimas.

Resta saber ao certo o que faz com que a Reunião tenha, em comparação com outras parte do mundo, um número tão elevado de ataques de tubarão.

Quando convivemos com moradores da ilha, não disfarçámos a curiosidade que, enquanto banhistas forasteiros mas não só, o tema nos despertou. Tentámos esclarecer-nos apenas para chegarmos à conclusão de que só as teorias abundam.

Falaram-nos de antigos matadouros nos arredores da capital Saint-Denis que antes despejavam o sangue e até carcaças dos animais para o mar e assim atraíram enormes cardumes de tubarões, principalmente os ali mais abundantes e activos tubarões-touro. Mencionaram-nos a culpa das frotas de pesca chinesas que, com os seus enormes arrastões, fizeram escassear as presas habituais dos tubarões. Estes, aumentaram desde que, em 1999, a ilha baniu a sua pesca por se ter apurado que a carne de tubarão continha níveis elevados da toxina ciguatera, produzida por um pequeno organismo do plâncton que acaba por se acumular na carne dos superpredadores que a Reunião antes consumia e exportava. Seja qual tenha sido a razão, os ferozes tubarões-touro proliferaram e habituaram-se a compensar a falta de alimento com os humanos que se põem a jeito, sobretudo os surfistas e bodyboarders.

Tal como a razão para o drama, as medidas a tomar para lá das falíveis redes e sistemas de protecção complementares despertaram uma polémica internacional. Centenas de artigos na imprensa apelidaram a ilha de “a ilha dos tubarões”, “aquário de tubarões”, “capital mundial dos ataques de tubarões” etc., etc.  Acirraram mais e mais adversários de uma recém-formada contenda. De um lado, estão os ambientalistas que defendem que os tubarões patrulham o mar em redor da Reunião há milénios e que são os surfistas e banhistas que devem respeitar a lógica natural da sua existência. Do outro, a comunidade surf mundial que se arrepia com as tragédias da ilha mas defende o direito dos surfistas de lá surfarem sem arriscarem as suas vidas.

Em 2017, Kelly Slater, onze vezes campeão mundial de surf, reagiu ao ataque do início desse ano com um post na sua página de Instagram que versava: “Honestamente, não vou ser popular por dizer isto mas é preciso levar a cabo um abate sério na Reunião e devia acontecer todos os dias....” “ Se todo o mundo tivesse este rácio de ataques, ninguém usaria o oceano e literalmente milhões de pessoas morreriam desta maneira.”  

Como seria de esperar, o post globalizou de vez o conflito. Muitos fãs mostraram-se desiludidos com Slater ao constatar que este sacrificava a sua habitual postura ambientalista por, do outro lado, estarem surfistas.

Os ambientalistas defendem que as autoridades deviam apostar em redes mais eficientes e na consciencialização dos surfistas. Mas, acima de tudo, na recuperação dos ecossistemas coralíferos ao largo da ilha, devastados pela sobrepesca de arrastão. Boucan Canot recebeu recentemente novas redes e sistemas de protecção. Desde 2016 que não sofre ataques. O último, na Reunião, deu-se há pouco mais de um ano e os seus banhistas e surfistas já se terão voltado a esquecer. Tendo em conta a improbabilidade de a ilha se livrar dos tubarões que a cercam, resta saber até quando.