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Mindelo Púrpura

Mindelo Púrpura

Transeunte cruza uma ruela garrida entre a Rua Santo António e a rua do Tejo.

Cabo Verde 

O Milagre de São Vicente

Uma volta a esta ilha revela uma aridez tão deslumbrante como inóspita. Contra todas as probabilidades, por um capricho da história, São Vicente viu o Mindelo prosperar como a segunda cidade mais populosa de Cabo Verde e a sua indisputada capital cultural.


(texto)


O "Armas" aproxima-se do ancoradouro e as vagas amansam-se à medida que o ilhéu do Farol ganha volume. Destaca-se das falésias entre o ocre e o castanho, imponentes, que ladeiam a baía do Porto Grande. De tal maneira que nos revela a escadaria branca que o trepa até ao topo. O casario acrobático do Mindelo desvenda-se espraiado pela base extensa do Monte Verde como que a querer também conquistar-lhe o cume. 

À hora a que o barco aporta, o sol cai para trás do Monte Cara. Ilumina e amarela a cidade com uma morabeza astral que tem tanto de suave como de efémera. Já em terra, com a noite a insinuar-se, damos connosco ansiosos por desvendar o que havia para lá dos enormes paredões ferrosos que pareciam conter a capital.  Decidimos descobri-lo antes de nos dedicarmos ao Mindelo.

O novo dia amanheceu solarengo e algo ventoso como é suposto na época mais fresca e enxuta de Cabo Verde. Apanhamos o carro alugado na Avenida Marginal e, logo, a estrada Mindelo-Calhau, um longo calçadão irregular, feito de pedras basálticas, tão vulcânico como seu destino final. Seguimos para montante da ribeira seca de Julião, através de uma savana com feno raso ressequido, salpicada de arbustos espinhosos.

Aos poucos, internamo-nos no coração da ilha e apontamos para a caprichosa costa leste. O Calhau não tarda. Admirarmos o seu casario multicolor no sopé dos dois vulcões negros que reforçam a pequenez dos lares. Os arredores descampados surgem-nos em estilo Western, como uns nenhures fantasmas varridos pela areia e pela poeira, repletos de edifícios térreos abandonados à cacimba e aos Alísios.

Uma destas estruturas tem a companhia de uma baliza tombada e todo um campo de futebol áspero por diante. Identifica-os um letreiro: F.C. Beira Mar do Calhau. A sede é preta e amarela, as cores precisas do Sport Clube Beira-Mar de Aveiro. Ao longe, na direcção do restante barlavento cabo-verdiano e do continente africano, vislumbramos ainda a ilha de Santa Luzia, em óbvio fora-de-jogo.

Retomamos a estrada que ali ganha o nome de Baía das Gatas-Calhau. O Calhau fica já para trás quando reparamos que um arbusto feito árvore abraça o rail de aço. Invade a berma e balança-se ao vento sobre o asfalto, como que a reclamar a supremacia do aventuroso mundo vegetal.

Ainda sem avistarmos vivalma, entramos no domínio desafogado da Praia Grande. Uma sucessão de mesetas altivas de lava há muito esfriada dão ali à costa. Sucessivos areais prolongam-se do limite das marés do Atlântico, vertentes acima. A estrada que ondula entre essas mesmas vertentes e o oceano cruza os areais e as dunas. Conduz-nos a uma derradeira enseada fechada por novo casario linear.

Consultamos o mapa.  Confirmamos tratar-se da Baía das Gatas de que já tanto ouvíramos falar. Foi o pretexto de que não precisávamos para a visitar e nos refrescarmos com Strelas geladas. Longe da data do famoso festival local e sem a multidão mindelense e de outras partes de Cabo Verde, faltava vida àquelas paragens.
Acabámos, assim, por nos sentarmos a almoçar numa esplanada arejada, seduzidos pela recepção genuína da dona: “Se querem comida de cá, vão ter que esperar uma meia-hora, no mínimo. Aqui a gente faz tudo fresco e na hora.” avisa-nos, por certo já farta das pressas dos pequenos tours que por lá passavam. “Não, não há cachupa! Mas há galinha frita.”

Não temos porque reclamar. Sentamo-nos entre franceses, holandeses e ingleses. Desde o desembarque no Mindelo que não víamos sinal de compatriotas. Saboreamos as cervejas e a estranheza daquele recanto da ilha que a companhia tornava mais estrangeiro. Findo o pequeno banquete, avançamos para Salamansa, a aldeia piscatória que se seguia, instalada na baía anterior à da capital em função da água doce, rara na maior parte de São Vicente, como no restante arquipélago. Entramos na que aparentava ser a rua principal. Um grupo de mulheres e crianças partilha a fonte da povoação, munidas de jerricans plásticos. Enquanto os contentores enchem, trocam piadas e brincadeiras espontâneas a que respondem com gargalhadas fáceis. Do outro lado da estrada, uma outra, senhora de mais idade, acabava de estender o equipamento azul do clube de futebol local sob o olhar de um clã reduzido de homens, alguns jogadores, outros ex-jogadores e adeptos que, motivados pelo nosso interesse, se apressaram a louvar o valor da sua equipa.

Passamos pela praia em frente à povoação. Ali, os desportos-rei são outros. Vários adolescentes nativos e um jovem holandês que acabou por ficar, gerem um centro informal de desportos náuticos. Em simultâneo, aperfeiçoam o seu surf e kitesurf. Ao regressarem do mar, alguns deles voluntariam-se para uma curta produção fotográfica. Cristiano, Kenny Marlon e Vladimir exibem, em poses estilosas, as suas pranchas e físicos. Confiante, Jairson não precisa de adereços para chegar a um mesmo plano.

Estávamos em vias de fechar a volta à estrada em que conduzíamos desde manhã cedo. Ao mesmo tempo, tínhamo-nos aproximado do acesso ao zénite da ilha (750 m), o Monte Verde sobranceiro que admirámos à chegada de ferry de Santo Antão. Ascendemos ao seu cume panorâmico. Devagar, devagarinho, a altitude prendou-nos com vistas majestosas da Praia Grande. E, para diante, ao longe, de Santo Antão, da Baía do Porto Grande, do Mindelo que a preenchia e dos montes e vales estéreis mas deslumbrantes entre a meseta que nos sustentava e o Canal de São Vicente. Os Alísios castigavam aquelas alturas. De tal maneira que, ao chegarmos à beira do precipício, mal nos conseguíamos equilibrar.

Apesar da distância, percebemos que o “Armas” voltava a atracar no porto. O dia encerrou-se num ápice e as luzes tomaram conta do casario. Não podíamos continuar de costas viradas para uma cidade tão orgulhosa e resiliente como o Mindelo.

Desde sempre, o Mindelo lutou contra as mais diversas adversidades. De cada vez que a sua população começava a aumentar, alguma nova tragédia a assolava e travava a evolução. Foram as secas e os ataques de piratas. Em 1861, em pleno boom do abastecimento de carvão aos navios propulsionado por companhias inglesas; com a escravatura já abolida e a cidade a abrir-se ao progresso e ao mundo, um surto de febre amarela reduziu os 1400 habitantes a metade. Passada a maleita, a população voltou a recuperar. O declínio da venda de carvão e da ancoragem de barcos no Porto Grande durante os anos 30 do século XX e secas e fome terríveis nos 40 levaram a mortes, a uma intensa diáspora e a nova decadência.

A vida nas restantes ilhas não era mais fácil e a crença de que o Porto Grande tinha inesgotáveis empregos para oferecer suscitou intensa migração para o Mindelo. Em simultâneo, o facto de a cidade ter o único liceu do Barlavento fez com que lá se concentrasse a nata dos intelectuais do arquipélago, incluindo Amílcar Cabral. A sua presença esteve na origem da emergente consciência nacional cabo-verdiana.

A partir de 1968, as condições de vida melhoraram graças ao influxo de verbas enviadas pelos emigrantes na Europa e nos E.U.A. Seis anos depois, o 25 de Abril abriu as portas à independência e ao regresso à cidade de muitos quadros e políticos que antes viviam emigrados ou noutras ex-colónias portuguesas.

O Mindelo assumiu o protagonismo do desenvolvimento económico e cultural de Cabo Verde com base na recuperação providencial da actividade do Porto Grande e no acolhimento de parte da população de outras ilhas, em especial de Santo Antão e de São Nicolau. Hoje, acolhe mais de 70.000 habitantes. Mantém um dinamismo evolutivo que é ímpar no arquipélago.

Devolvemos o carro. Começamos a sentir a cidade no moderno Pont d’Agua que agrupa uma série de negócios sofisticados aquém da marina do Porto Grande. Continuamos Av. Marginal fora e constatamos a sua deliciosa vivacidade: os barcos coloridos de pesca a contrastarem com a secura longínqua do Monte Cara, a convivência frenética do mercado de peixe, dos pescadores e varinas com o recanto não menos barulhento da “batota” em que se defrontam, às cartas, dezenas de jogadores. Ali por perto, destaca-se ainda a estátua altiva de Diogo Afonso - que honra a sua descoberta de São Vicente - e a réplica da Torre de Belém, inaugurada em 2010 com a presença do então Presidente Cavaco Silva, para celebrar os 550 anos passados desde a chegada dos navegadores portugueses.

O meio da avenida é marcado por grandes palmeiras. Vemos as suas sombras graciosas projectadas nas fachadas multicolores que a encerram, casas dos mais distintos negócios estabelecidos e itinerantes. Aqui e ali, a relação quase umbilical entre Cabo Verde e Portugal salta à vista. Na pitoresca barbearia, a bandeira nacional convive com uma panóplia de calendários, emblemas e fotografias do Benfica. São vários os jogadores do Grandioso, seus rivais e convocados para a selecção portuguesa nascidos em Cabo Verde ou filhos de pais cabo-verdianos que mantêm dupla nacionalidade.

Numa de tantas vezes que caminhamos pela Av. Marginal, cruzamo-nos com Vânia e Riseli, jovens vendedoras de fruta e vegetais.  Conversa puxa conversa, entramos numa perspectiva não desportiva do tema paternidade. A sua confissão conformada deixa-nos estupefactos: “aqui em Cabo Verde, homem só serve para fazer filhos. Depois, até evita passar por nós para não exigirmos nada.”  “Então ficam só com a parte divertida, como pode ser?” retorquimos. “É isso mesmo. Isto, por cá, não tem nada a ver com Portugal! Eu tenho um filho. Só eu e os meus pais cuidamos dele. Ela já tem dois, é a mesma coisa...”

O Mindelo viu nascer e falecer, em 2011, a sua Rainha da Morna, Cesária Évora. E não tardam a soar êxitos da “diva dos pés descalços”, vindos da Casa da Morna, logo ao lado do prédio emblemático da Figueira & Cia, Lda.

O sol volta a envolver-se com o pico do Monte Cara. Também a praia da Laginha se prepara para a noite. Eliseu Santos, salva-vidas escultural, bombeiro, segurança e professor de educação-física desce da torre de observação e recolhe uma prancha da beira d’água. A essa hora, ele e o colega que o ajuda tornam-se silhuetas em movimento contra a baía prateada.

Logo, um grupo dá música à rua de Libertad d’Africa, sobre um palco montado de costas para o Palácio do Povo, antigo Palácio do Governador. O Mindelo entrega-se de vez ao seu delicioso modo hedónico. Nós, ainda queríamos ter o prazer de admirar a cidade no seu todo. Na manhã seguinte, ascendemos ao cerro da Cruz de João d’Évora. Sós, com o casario em redor da grande baía do Porto Grande por diante, rendemo-nos ao prodígio civilizacional que ali se espraiava.

 

 

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