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Nos céus de Canaima

Nos céus de Canaima

Avioneta levanta voo do aeródromo de Porlamar, origem de voos frequentes para Canaima.

PN Canaima, Venezuela

O Rio Que Cai do Céu

Em 1937, Jimmy Angel aterrou uma avioneta sobre uma meseta perdida na selva venezuelana. O aventureiro americano não encontrou ouro mas conquistou o baptismo da queda d'água mais longa à face da Terra


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O pequeno Cessna parece ter tido melhores dias mas só ficamos realmente apreensivos quando constatamos o volume e o peso provável do único homem aos comandos. Saturado da sua rotina aérea, o piloto recebe-nos com indiferença. Passa-nos um briefing minimal e descola de imediato para o céu sobre a floresta tropical de Canaima.

A atmosfera revela-se nublada, ventosa, repleta de poços de ar e faz o avião saltar a toda a hora. Mas nem a turbulência nem o historial de acidentes aéreos naquela área afectam o repouso del comandante que se afunda num enorme jornal venezuelano e vai retocando a manche com os joelhos.

O voo é curto. Tão depressa como subimos, regressamos ao solo seduzidos pelas vistas privilegiadas daquele estranho domínio sul-americano. Aterramos nas imediações da lagoa Canaima onde nos são concedidas duas horas livres.

Apesar do ambiente luxuriante que a envolve, ao olho mais urbano, a Laguna de Canaima pode ser confundida com o reservatório vasto de uma qualquer ETAR remota. As suas águas repousam ali dos caprichos do rio que nela se precipita com violência em saltos com nomes excêntricos: o Hacha, o Golondrina e o Ucaima.

Durante quilómetros a fio, o Carrao serpenteia entre os vários tepuis (mesetas), rasga a selva e arrasta terra e húmus que conferem ao caudal um visual ocre. Quando esta água é empurrada para os limites do meandro amplo que se segue, o composto de ácidos fúlvicos e húmicos adensa-se e reage. O resultado é uma espuma suspeita e uma gradiente de tons que vai do negro nas partes mais profundas a um vermelho-amarelado junto às margens. O cenário prova-se, de facto, químico. Tão químico, quanto natural. Não fossem as correntes submersas traiçoeiras provocadas pelas quedas de água, a lagoa poderia ser considerada segura, quase termal. 

As duas horas escoam-se. Regressamos ao acampamento base e juntamo-nos a um grupo multinacional que aguarda instruções dos guias para zarpar Carrao acima.

Mas, nesse dia, o tráfico aéreo de acesso ao Parque Nacional Canaima havia-se complicado e alguns viajantes estão atrasados. Os guias têm o tempo contado com precisão. Sabem que correm o risco de ser apanhados no rio depois do pôr-do-sol o que obrigaria a que o grupo passasse a noite na selva das margens. É sob a pressão dessa desventura que conduzem as operações.

O campo base fica no extremo oeste da lagoa Canaima e as curiaras que nos esperam estão atracadas no porto Ucaima, a montante dos vários saltos do Carrao que nunca conseguiriam vencer. Cumprimos a caminhada em redor da lagoa quase em corrida, segundo o ritmo dos líderes nativos que se mostram cada vez mais preocupados. A determinada altura, reparamos em como o frenesim que tomou conta da comitiva contrasta com a paz ilusória do rio, ali, a apenas algumas dezenas metros do abismo. 

Chegados os visitantes em falta, embarcamos em três curiaras (canoas resistentes de construção indígena) movidas por motores poderosos. A navegação contra corrente começa tranquila mas as águas depressa se agitam. Na iminência dos rápidos Moroco, os guias caem num impasse que preocupa os passageiros. Até que uma ordem de Carlos - o responsável máximo da jornada – nos leva de volta à ação.    

Determinados e destemidos, os homens do leme puxam pelos motores e fazem as embarcações sulcar e galgar os rápidos. A viagem assemelha-se a uma montanha russa fluvial. Tanto subimos as vagas furiosas do Carrao como descemos no rio e as vemos invadir parcialmente as embarcações. A banda sonora da aventura também é intermitente. Quando os motores soltam a sua força, ouvimos o rugido grave dos pistons. E sempre que o caudal avassalador os condiciona, impõe-se o bradar agudo da água. De quando em quando, ouvem-se ainda gritos de pânico.

Após uma derradeira aceleração, vencemos os rápidos Moroco e Mayupa e entramos num trecho pacificado do Carrao. O resto da viagem até ao Canyon de Ahonda já é feito no escuro.

Assim que desembarcamos no acampamento intermediário, dois companheiros de viagem bascos põem-nos a par dos acontecimentos: “Rapazes, estes gajos são doidos! Como estava a ficar de noite, em vez de sairmos dos barcos e voltarmos a entrar mais à frente, meteram-nos naqueles rápidos furiosos! Lemos num guia que já aconteceram ali várias tragédias e que, na época das chuvas, isso está completamente proibido pelo governo.”  

Continuamos a debater a aventura durante o jantar que é cozinhado à pressa pelos anfitriões. A seguir, Carlos embala-nos com as suas teorias geopolíticas e conspirações dos E.U.A. para dominar a Colômbia e a Venezuela. Mais cedo do que esperamos, os guias e os forasteiros cedem ao cansaço e adormecem, lado a lado, nas redes que lhes estão reservadas. Antes disso, passamos os olhos pelo passado épico de Canaima.

Esta região era há muito conhecida pelos seus indígenas pémon e - defendem alguns historiadores - por Fernando de Berrío, um explorador e governador castelhano que a teria descoberto provavelmente no século XVII. Dois séculos mais tarde, a lenda de um suposto rio de ouro perdido e os artigos e mapas do capitão da armada venezuelana Felix Cardona Puig suscitaram o interesse de um aviador norte-americano intrépido.

Jimmy Angel e a esposa Marie Angel mudaram-se para aqueles confins da América do Sul e associaram-se ioneta voar sobre o tdoresa Amu ilha lhe passou um pedaço de papel ermos uma outra avioneta voar sobre o ta Cardona, a Gustavo “Cabuya” Heny, e a um jardineiro de nome Miguel Angel Delgado que era especialista no manuseamento de cordas e machetes. Juntos, formaram uma equipa de exploração que protagonizou diversas aproximações ao Auyantepui de que se precipitava a Kerepakupai Vená, uma queda de água que, com 979 m, se provaria a mais alta à face da Terra.

Durante quinze dias, Jimmy Angel assistiu os esforços dos colegas no solo. Sobrevoou a área no seu adorado avião Flamingo e largou mantimentos e equipamento atados a pequenos paraquedas. O aviador tinha já antes circundado o topo da grande meseta (tem cerca de 700 km 2 de superfície). Nessas ocasiões, não encontrou o rio de ouro lendário mas achou uma área plana que lhe parecia propícia a uma aterragem. Em 9 de Outubro de 1937, o grupo de aventureiros concretizou o mais desvairado dos seus planos.

De início, o contacto com o solo pareceu suave a Jimmy Angel e a Heny mas as rodas afundaram-se na lama e provocaram uma travagem abrupta que provocou a quebra da tubagem de combustível e atolou toda a parte frontal do avião.

Uma nebulosidade persistente impediu que os dois homens fossem resgatados mas, com a ajuda dos companheiros no acampamento base, conseguiram sobreviver a um árduo regresso por terra a Kamarata, uma povoação indígena da Gran Sabana. O avião foi declarado monumento nacional pelo governo da Venezuela, em 1964. Seis anos depois, seria removido pela força aérea daquele país e colocado no Museu de Aviação de Maracay.

De então para cá, a vastidão selvagem de Canaima continuou a seduzir o mundo e a sua queda de água prodigiosa atrai hordas de curiosos. Faltava-nos pouco para também a vislumbrarmos.

Partimos do Canyon de Ahonda pouco depois do nascer do novo dia. Cumprimos mais duas horas de curiara já não no Carrao mas para montante de um seu afluente, o Churún que flui ao longo doutro grande desfiladeiro, o Devil’s Canyon. Desembarcamos no campo Ratoncito e tomamos o trilho de selva que conduz a um ponto de observação privilegiado do salto.

Quando lá chegamos, a visibilidade é quase total e concede-nos a merecida recompensa. Sentamo-nos sobre um bloco elevado de rochas e ficamos semi-hipnotizados a contemplar o rio Kerepakupai a lançar-se no abismo e a dançar consoante o vento que, próximo do solo, chega a suspender a água cada vez mais dispersa. Divertimo-nos a comentar que nem Jimmy Angel tinha tido aquela vista mas, quando detectamos duas avionetas a voar sobre o topo do penhasco vem-nos à mente a epopeia do norte-americano que morreu, em 1956, depois de se despenhar no Panamá. Louvamos o seu pioneirismo tresloucado, algo que nem todos os venezuelanos optaram por fazer.

Sempre inflamado pelo bolivarianismo totalitário e respectivo anti-americanismo, em 2009, o falecido ex-presidente Hugo Chávez aproveitou um programa de TV para banir o apelido do aviador alegando que milhares de índios Pemon tinham visto as quedas de água antes dele. Decretou então, que a maravilha natural se passaria a chamar apenas Cheru-Meru, algo que teve que corrigir quando a sua filha lhe passou uma nota que dizia que aquele era o nome de uma cascata vizinha e que a palavra certa era Kerepakupai. Após persistentes momentos de prática, Chavez proclamou à Venezuela que tinha dominado a pronunciação do termo indígena correcto. E aproveitou para acusar os E.U.A. de terem violado o espaço aéreo da sua nação com um avião não pilotado: “São os yankees. Ordenei que os abatessem. Não podemos permitir isto”. Jimmy Angel já está a salvo.

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