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Um astro dos astros

Um astro dos astros

Visitantes apreciam a estátua de Ulugh Beg em frente ao observatório espacial que construiu.

Samarcanda, Usbequistão

O Sultão Astrónomo

Neto de um dos grandes conquistadores da Ásia Central, Ulugh Beg preferiu as ciências. Em 1428, construiu um observatório espacial em Samarcanda. Os seus estudos dos astros levaram-lhe o nome a uma cratera da Lua. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Apesar do fluxo intimidante de velhos Ladas e Volgas soviéticos, desafiamos a rotunda e a autoridade do polícia sinaleiro a umas poucas dezenas de metros, esperançados que o estatuto de forasteiros nos safe de sarilhos. Favorecidos pelo abrandamento de duas ou três daquelas relíquias automóveis, conquistamos a rotunda no meio da Avenida Universitet Bulvari. Entre árvores seculares e frondosas, encontramos a estátua imponente de Timur O Grande, o fundador turco-mongol impiedoso da sua própria dinastia, conquistador de um vasto império que incorporou a Pérsia e parte considerável da Ásia. Quando chegamos às imediações do trono que ocupa, estamos aos pés do ídolo histórico supremo da nação.

Nessa mesma tarde, avançamos uns seis quilómetros para nordeste de Samarcanda e duas gerações na linhagem. É com uma espécie de orgulho contido que os anfitriões que temos na cidade nos conduzem à estátua e aos domínios elevados do observatório de Ulugh Beg, neto de Timur, uma personagem com propósitos de vida bem distintos dos do avô.

Subimos ao longo de um paredão pintado de azul e salpicado de branco que, não restam dúvidas, emula o Cosmos. A determinada altura da rampa, surpreende-nos uma sessão fotográfica de um casamento local, numa versão pouco ou nada muçulmana e, tradicional, só se fosse da era Soviética do Usbequistão.

O noivo traja um fato negro de cetim que contrasta com a camisa e a gravata, ambas brancas. A noiva vem de vestido branco que, da cintura para baixo, se alarga em folhes. Tanto o fotógrafo como o vídeografo de serviço usam o muro como fundo das suas imagens para assim lhes conferirem um fascinante visual celestial. Combinam esforços para que o véu da noiva pareça flutuar num vácuo ficcional e instruem o noivo para apontar para galáxias longínquas, à laia de conquistador de muito mais que um mero coração.

A sessão fotográfica levara-nos a atenção que a guia Niluvar Oripova merecia. Quando a ela regressámos, reparámos na figura dourada e sentada que lhe oferecia sombra, em como contemplava o horizonte, indiferente aos acontecimentos corriqueiros em redor. Ansiosa por retomar a função em que ainda dava os primeiros passos, Nilufar não perdeu tempo: “Aqui o têm: Ulugh Beg, ou o Grande Príncipe. O seu nome verdadeiro era Muhammad Taragay. Foi criado na corte de Timur. A partir de 1409, tornou-se o regente do domínio de Mavennakhr de que era capital Samarcanda. Mas o Grande Príncipe mostrou-se pouco interessado em seguir os passos dos antecedentes. Começou por se dedicar à ciência. Abriu uma madraça, uma espécie de universidade muçulmana com enorme gabarito.”

Entre as vocações de Muhammad Taragay, depressa se incluiu o estudo dos astros. Aliás, a astronomia tornou-se o seu tema académico de eleição, ministrada por cientistas do mundo muçulmano escolhidos a dedo; a determinada altura, mais de sessenta astrónomos. Quatro anos depois de inaugurar a madraça, em plena Idade Medieval (1424), Ulugh Beg fundou ainda o observatório espacial em que estávamos prestes a entrar, na  origem com três andares.

Começamos por espreitar a sua vala escavada ao longo da linha do Meridiano e em cujo limite existia um arco usado para calcular as várias constantes com base no Sol e nos movimentos dos planetas. A combinação da estrutura com o objecto formava o amplo sextante Fakhri que permitiu levar a cabo diversas medições e estudos mais tarde essenciais à astronomia.

Além de imagens e outros documentos antigos, o museu do Observatório está repleto de imagens dos triunfos espaciais mais recentes, com destaque para a alunagem norte-americana. Este destaque, em particular, só foi possível pela relativa maturidade da independência usbeque face aos antigos senhores coloniais de Moscovo.

Em paralelo com a consciência da importância dos seus antepassados para estes triunfos, existe uma certa frustração entre a comunidade de cientistas e historiadores muçulmanos por os congéneres ocidentais negligenciarem o contributo dos astrónomos muçulmanos. “É demasiado comum os autores saltarem de Ptolomeu para Copérnico e ignorarem os mil e quinhentos anos de protagonismo muçulmano da astronomia.” queixou-se, por exemplo, Salmah Beimeche, um autor frequentemente revisitado pela sua insatisfação.

No interior do museu, destaca-se ainda uma imagem de Edwin “Buzz” Aldrin com a Lua em fundo.  A legenda refere que “os pensadores nascidos no Usbequistão sempre tiveram grande valor para ele até porque há 40 anos alunou sobre uma cratera baptizada em honra de Akhmad Fargonly”, este, como Ulugh Beg, um dos astrónomos da Ásia Central que emprestaram os seus nomes a morfologias da Lua. Além da “sua” cratera, Ulugh Beg, também o cedeu à 2439 Ulugbek, uma cintura de asteroides descoberta, em 1977, pelo russo Nikolai Chernykh, durante mais de quarenta anos um caçador incansável de asteroides, em co-autoria com a sua mulher.

Mas, como continua hoje a acontecer, foram os próprios muçulmanos radicais a contribuir para a desvalorização dos feitos da sua civilização. A sabedoria de Ulugh Beg na governação não se comparava com a sua mestria científica. Após a morte do pai, Beg viu-se derrotado numa de várias batalhas contra um sobrinho e outros familiares que procuraram usurpar-lhe o poder em determinadas áreas do Império Timúrida. Ulugh Beg acabou decapitado quando se dirigia para Meca, por ordem do seu próprio filho mais velho, em 1449.

Nesse mesmo ano, o observatório espacial que construíra em Samarcanda foi demolido por fanáticos religiosos. De tal maneira arrasado, que só viria a ser redescoberto em 1908, por um arqueólogo Usbeque-Russo, V.L.Vyatkin, que adquiriu um documento que informava a sua exacta localização.

Na sequência do observatório, visitamos o Registão de Samarcanda, o monumento mais reputado da cidade, formado por três madraças, uma delas a tal de Ulugh Beg, flanqueada por dois minaretes que os anos fizeram inclinar em direcção ao interior ao pátio do edifício e que os guardas em uniformes verdes do complexo usam como isco de turista para aumentarem os seus parcos rendimentos: “querem ir lá acima? A vista é incrível. Pagam-me vinte euros e levo-vos lá.” 

Já à sombra do iwan (espécie de portal), surge uma escultura que homenageia o mentor da madraça e outras das personalidades que lhe deram alma. No interior, dispõem-se em redor do pátio uma mesquita, as antigas salas de leitura e várias das camaratas em que viviam os estudantes. Hoje, muitas destas salas foram adaptadas a pequenas lojas de artesanato e recordações, algumas delas ocupadas por negociantes de origem russa que agora - muito depois da independência do Usbequistão e da partida dos seus compatriotas eslavos - impingem velhos itens da era em que a U.R.S.S. e os E.U.A. concorriam, obcecados, pela conquista do Espaço que Ulugh Beg e seus discípulos tanto lhes revelaram.

 

Caprichosas Luzes Terrestres

No final de um dos dias que passámos em Samarcanda, somos informados que é possível que venha a haver um espectáculo de luz e som com iluminação e projecções artísticas sobre as fachadas do Registão. Nem os nossos guias nem os transeuntes que por ali encontramos parecem saber ao certo se se confirma, ou a que dias e horas é suposto ter lugar.

Passam-se, assim, trinta ou quarenta minutos de indefinição quando Nilufar, a nossa jovem guia, chega com um novo dado: os guardas dizem que os responsáveis podem activar a iluminação mas os turistas têm que pagar. “Temos que pagar? Mas então existem bilhetes à venda?” perguntamos. “Não existem bilhetes, mas eles só activam o espectáculo se houver um mínimo de pagantes”.

Torcemos o nariz, como já tínhamos torcido numa série de outros esquemas deste género engendrados pelos guardas do Registão. Ao mesmo tempo, imaginamos como o complexo de monumentos iluminado sobre o lusco-fusco deveria ser belíssimo de fotografar.

Fazemos as contas. Chegamos à conclusão que bastava arranjarmos uma dúzia de estrangeiros adicionais para o espectáculo nos custar uma ninharia. Alguns deles já se tinham até juntado à discussão e à nossa demanda. Volvidos vinte minutos adicionais, estavam reunidos uns quinze pagantes, acima do que fora exigido. O sol tinha-se posto e anoitecia a olhos vistos. Ficámos todos a aguardar o espectáculo que, no entanto, continuava por inaugurar.

Só já bem após o desvanecer do lusco-fusco é que as luzes foram ligadas. Para a maior parte dos estrangeiros, esteve bem assim. Nós, sentimo-nos frustrados por tanto esforço ter resultado num quase nada fotográfico. Depois de as luzes serem desligadas, sentámo-nos a contemplar o firmamento que o astrónomo Ulugh Beg dali mesmo tanto estudara.