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O Apogeu da América do Norte

O Apogeu da América do Norte

Vista aérea do cume mais elevado do monte McKinley ou Denali, a montanha suprema da América do Norte com 6194 metros de altitude.

Denali, Alasca

O Tecto Sagrado da América do Norte

Os indígenas Athabascan chamaram-no Denali, ou o Grande e reverenciam a sua altivez. Esta montanha deslumbrante suscitou a cobiça dos montanhistas e uma longa sucessão de ascensões recordistas.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Após vários dias de exploração dos domínios majestosos de Prince William Sound, deixamos Valdez e damos início a um longo trajecto pseudo-nocturno para norte, ao longo da Richardson Highway, a primeira das grandes estradas alasquenses. Sucessivos congelamentos e degelos e a descontinuidade do permafrost por debaixo tornaram-na mais ondulada do que seria desejável. De acordo, seguimos a velocidade moderada, num ritmo também apropriado para apreciarmos as formas altivas das montanhas Chugach e a tundra setentrional. Mas não só. O vagar permite-nos evitar as raposas, doninhas, esquilos, porcos-espinhos, alces e até um glutão que, ao longo dos quase seiscentos quilómetros cruzam – ou no caso do alce atarantado, ocupam – o asfalto.

Chegamos a Fairbanks já a meio da madrugada mas nunca percebemos uma alvorada digna desse nome. O sol limitou-se a restabelecer-se do seu curto cochicho sobre o horizonte e a devolver àquelas paragens boreais a luminosidade intensa e plena que lhes devia até ao fim do curto Verão.

Confirmamos a fama da segunda cidade do Alasca. Isolada nos confins de um quase nada árctico, Fairbanks desenvolveu a sua própria vida à margem e nunca se preocupou em atrair visitantes. Como seria de esperar, a maior parte não se apaixona por ela à primeira vista. Nem sequer na seguinte. Compreendemo-los. A cidade pareceu-nos tão improvisada e atarefada como desgastada pelo clima austero.

De qualquer maneira, são os grandes cenários que mais se destacam no 49º estado norte-americano e, a algumas horas adicionais para sul, aguardava-nos o ponto alto do itinerário, aquele que tinha justificado o longo caminho desde Valdez. Ponto alto, bem que o podemos dizer. Destacado da vastidão sub-árctica, o parque Denali foi estabelecido em redor da maior elevação da América do Norte, uma montanha pré-histórica com 6.196 metros, cercada por outros picos menos imponentes. No fim do século XIX, um prospector de ouro baptizou-o de McKinley, como apoio político a um candidato presidencial homónimo dos E.U.A. nascido no Ohio e viria a ser assassinado durante o seu segundo mandato por Leon Czolgosz, um anarquista de ascendência polaca. 

Atingimos o parque pela George Parks Highway que liga as cidades bem distantes e emblemáticas de Anchorage e Fairbanks, como tal, uma das vias mais importantes do Alasca. Mal desviamos para a Park Road, começamos a depreender a razão porque os fotógrafos profissionais se referem aos animais de Denali como vida animal aproximável. A caça é, há muito, proibida e, por isso, a fauna foge menos das pessoas e dos veículos. Nuns poucos quilómetros, passamos por uma família de alces e por raposas que se passeiam mesmo à beira da estrada. Há quem tenha a sorte ou o infortúnio – dependendo da perspectiva e da ocasião – de se cruzar com ursos grizzlies, com caribus e com lobos nos muitos trilhos pedestres e de BTT do parque. 

Avançamos até ao Wonder Lake mas o dia não está particularmente favorável à contemplação do Monte Denali que, em dias limpos, ali costuma prendar os visitantes com fabulosas imagens simétricas: a real e a do seu reflexo nas águas imóveis do lago. Entretanto, para compensar, confirma-se a possibilidade de participarmos num voo panorâmico acima do cume e em seu redor. Conscientes de que a mais de 6000 metros de altitude a meteorologia deveria ser outra, animámo-nos e esperámos pelo melhor.

Dormimos num acampamento de nome Greezly nas imediações do rio Nenana mas, apesar do nome do lugar, nenhum dos grandes ursos alasquenses nos atormentou o sono. Despertámos para uma manhã gloriosa. Às oito, já estacionávamos no aeródromo local, ansiosos pela partida.

“Está bastante ventoso. O avião vai chocalhar um bocado. Além disso, vamos voar a altitude que requer oxigénio” avisa-nos o piloto com a descontracção de quem conduz aquelas excursões aéreas há que séculos. “Mas isso são pormenores. O que interessa é que vão ter o privilégio de admirar das melhores vistas das Américas, sem qualquer disputa!” acrescenta. 

Descolamos para o céu azulão. Num ápice, voamos sobre a grande taiga verdejante de Denali. Vemos rios e lagos que o reflexo do sol torna prateados. Para diante, a vegetação verde torna-se seca por acção da maior altitude e do frio. Entram os primeiros braços de gelo e, logo, os brancos frígidos avassaladores dos grandes campos de gelo da cordilheira do Alasca. Continuamos a ganhar altitude sobre desfiladeiros profundos em que deslizam longos glaciares, alguns com meandros caprichosos ou bifurcações graciosas. Vemos enormes pilares de granito esculpidos pela erosão e subsumidos na névoa. 

A determinada altura, entre solavancos e pequenos saltos, deparamo-nos com uma montanha. Temos, aliás, a sensação que com ela vamos colidir. “Ora, aqui está ele!” comunica o piloto americano gabarola aos passageiros com indisfarçável entusiasmo: “Monte McKinley ou Denali, como preferirem. Já muita gente morreu por este sacana. Se depender de mim, nós não vamos fazer parte das estatísticas, não se preocupem!. Vamos dar-lhe três voltinhas e depois regressamos pelo lado oposto ao que viemos, OK?” 

A montanha surge bem destacada acima de nuvens baixas, coroada por um topo branco de gelo permanente, ou dourado do granito mais polido a que o gelo ainda não se conseguiu fixar. O seu assento, escuro, é amplo como o de poucas outras montanhas. Com 5.500 m, a subida da base ao pico é considerada a maior de qualquer montanha situada inteiramente sobre o nível do mar. 

A partir da viragem para o século XX, o pioneirismo da sua conquista despertou a cobiça de um sem número de montanhistas. A primeira ascensão confirmada deu-se em 1910 por um grupo de quatro moradores da região que ficaram conhecidos pela Expedição Sourdough (fermento). Apesar da absoluta falta de experiência no alpinismo, passaram cerca de três meses na montanha. O seu dia de subida ao cume terá durado dezoito horas e sido impressionante. Apenas munidos de um saco de dónutes cada, um termos com chocolate quente e uma vara de abeto de quatro metros, dois deles atingiram o pico norte, o menos elevado dos dois cimos. Ergueram o pau próximo do topo.

A primeira ascensão ao pico mais elevado – a conquista oficial da montanha - deu-se três anos mais tarde por Walter Harper, um nativo alasquense. Robert Tatum, o seu parceiro, também chegou ao cume principal. Este grupo confirmou o testemunho de abeto deixado pela expedição Sourdough, em 1910.

Desde então, inúmeros recordes foram sendo batidos: a primeira mulher, o primeiro montanhista a escalá-lo duas vezes, as primeiras conquistas por novas rotas, a primeira conquista no Inverno (1967), a primeira subida a solo (1970), a primeira subida por uma equipa só de mulheres (1970), a primeira descida da vertente Cassin por Sylvain Saudan “Esquiador do Impossível” (1972), a primeira ascensão por uma matilha de cães esquimós (1979), nova tentativa de ascensão a solo pelo japonês Naomi Uemura, agora no Inverno (1984), falhada, um feito que seria conseguido quatro anos mais tarde. Ao longo deste tempo, e tal como nos tinha adiantado o piloto a bordo, mais de cem pessoas sacrificaram as suas vidas em honra do grande Denali.

A montanha é de tal forma ampla que cria a sua própria meteorologia completamente imprevisível. De um momento para o outro, a atmosfera estável pode degenerar em tempestades furiosas. Em Dezembro, de 2003, foram registados -59.7ºC. Num dia de temperatura semelhante e com um vento de quase 30 km/h, o Monte Denali produziu um recorde norte-americano absoluto de frio de – 83.4ºC.

Perante estes e outros números meteorológicos, topográficos e geográficos, entendemos  porque os nativos Athabascan e outros lutaram tanto tempo para que o tecto da América do Norte se passasse a chamar apenas Denali, exigindo a remoção do nome do presidente que nunca o visitou e pouco ou nada teve que ver com aquelas paragens alasquenses. Este capricho foi satisfeito pelo Presidente Baraka Obaka apesar da oposição do estado do Ohio e da irritação do Partido Republicano um dia antes da sua visita de 30 de Agosto de 2015 em procurou sensibilzar os americanos paras o drama das alterações climáticas. 

Também entendemos porque os nativos guardam tanto respeito pela montanha majestosa no cerne do seu vasto território. Aliás, quando aterramos são e salvos no aeródromo de Denali, esse mesmo respeito ainda nos aperta os corações.