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Um mahu integrado

Um mahu integrado

Grupo de mulheres e um mahu (vestido de creme) participam num concurso de misses realizado no mercado municipal de Papeete.

Papeete, Polinésia Francesa

O Terceiro Sexo do Taiti

Herdeiros da cultura ancestral da Polinésia, os mahu preservam um papel incomum na sociedade. Perdidos algures entre os dois géneros, estes homens-mulher continuam a lutar pelo sentido das suas vidas.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Pouco passa das nove da manhã mas, no Mapuru a Paraita, o mercado de Papeete, o frenesim é já absoluto. Observamos uma multidão folclórica a instalar-se entre as bancas de fruta dificultando cada vez mais a circulação dos clientes.  No interior, a instalação sonora faz ecoar a sua péssima qualidade mas, ignorando as limitações, um DJ improvisado passa os sucessos polinésios do momento que servem de fundo à locução.

Decorre um concurso local de misses. As concorrentes surgem cercadas por representantes mais velhas das suas zonas da cidade e do restante Taiti, trajando vestidos típicos repletos de cor, folhos e outros complementos vistosos. Estão ainda embelezadas por grinaldas, coroas e tiaras de plumerias, gardénias, hibiscos ou orquídeas. E, consoante o posicionamento de algumas destas flores nas orelhas, comunicam o seu estado civil e a sua disponibilidade amorosa. À primeira vista, parecem-nos todas mulheres mas as aparências iludem e encobrem a presença de alguns mahu. Os homens-mulher do Taiti.

William Bligh, o mestre da famosa Bounty e o ainda mais reputado capitão James Cook estiveram entre os primeiros europeus a deparar-se com eles e a relatar com enorme espanto. Descreveram então, a sua realidade social, em parte, semelhante à actual: “São rapazes diferentes que recebem, desde a infância, uma educação distinta da dos jovens guerreiros ... Para eles, não há guerra nem caça. Depilam-se e transvestem-se e, quando chegam a adultos, comem à parte dos homens, cantam e dançam com as mulheres e tornam-se, com frequência, empregados domésticos da nobreza...” Paul Gauguin, durante o seu retiro taitiano, encantou-se com a sua suave excentricidade e pintou-os com redobrado prazer.

Ainda no campo histórico, convivem duas explicações para a existência e a aceitação dos mahu. Uma diz que os pais os começavam a considerar e a tratar como raparigas assim que percebiam algum indício inesperado de feminilidade. A outra teoria defende que, quando as famílias tinham demasiados rapazes, passavam simplesmente a tratar um dos mais novos como rapariga para garantir a ajuda necessária na lida da casa. O terceiro nascido era, por hábito, o alvo da experiência. 

Nos tempos que correm, a primeira é ainda prática corrente e, sem surpresa, os mahu preferem ser abordados no feminino, algo que a nação taitiana há muito se habituou a respeitar, e até, em certos casos, a admirar.

Como em tantos outros casos, a existência de Danu Heuea passou pela reprovação implícita do pai. Hoje, apesar do sofrimento da juventude, esta cinquentona bem conservada e de pele dourada pelo sol tropical, desdenha e combate a discriminação. Desempenha um papel protagonista no concurso de misses, introduzindo e descrevendo as concorrentes. Apresentou, em tempos, um programa de TV chamado “Nós, as Mulheres” e, nos dias normais, é a responsável pela comunicação da câmara municipal de Papeete.

Tantos outros ocupam lugares essenciais em empresas ou organizações. São empregados de mesa, cozinheiros ou recepcionistas. Ou conquistaram cargos de responsabilidade nas relações públicas de hotéis e agências de turismo. São também músicos e coreógrafos, alguns conceituados como Coco HotaHota e Tonio que lideram grupos de danças polinésias idolatrados nas ilhas.

À imagem de Danu, a maior parte dos mahu têm plena consciência de serem “efeminados” em físicos de homem e orgulham-se do seu papel intermediário entre a brutidão masculina e a doçura perfumada das mulheres, que em tudo procuram imitar. Os mais velhos não gostam particularmente de ser confundidos com os Rae-Rae, os travestis sexualmente “predadores” que recorrem à prostituição no red district de Papeete para financiar as suas existências marginais. Mas, para seu desgosto, desde 1960 - quando a nova palavra surgiu - os dois termos foram-se intersectando. Por toda a Polinésia Francesa, o termo rae-rae  popularizou-se e define, agora, os travestis – operados ou não - em geral.

Os “retoques” médicos e a cirurgia são passos reais para um sonho que quase todos os mahu partilham: o de se transformarem em verdadeiras mulheres. É comum optarem por tratamentos hormonais que lhes concedem os tão desejados seios, por mais pequenos que sejam. A derradeira operação, essa, é quase sempre demasiado custosa e não se faz no Taiti, o que torna obrigatória uma arruinante viagem aos Estados Unidos.

Além da mudança física de sexo, a sua ansiedade recai também sobre um relacionamento. O comum mahu dá por si a aspirar com a vida com um homem. Mesmo que, na Polinésia Francesa, os missionários do Velho Mundo tenham escrito e selado a ordem natural das coisas e o casamento entre mahu e homens seja considerado um tabu (a palavra até é originalmente Polinésia) católico contra o qual é raríssimo os primeiros insurgirem-se. 

No Mapuru a Paraita, o concurso de misses prossegue animado a ritmos de tambor e jambé por machos polinésios musculados e tatuados que fazem suspirar tanto as donzelas como os mahu. São fontes inesgotáveis de testosterona, esculturas bronzeadas perfeitas moldadas pela alimentação proteica, pelas muitas horas de treino sobre canoas e outros exercícios tonificantes. Tudo o que a natureza se esqueceu de conceder aos mahu, ou preferiu não fazê-lo. No fim do evento, o mercado acalma e parte das organizadoras refugiam-se num bar do piso superior onde o encantador Rockos canta sucessos de Elvis, faz algum tempo. Sentadas junto ao palco, partilham um petisco leve de peixe cru com leite de coco enquanto seguem as melodias. Sucedem-se “Love Me Tender”, “Suspicious Minds” e “Heartbreak Hotel” que suscitam admiração e mais suspiros. Mas, quando o romantismo dá lugar ao Rock ‘n’ Roll frenético de “All Shook Up” as três amigas todas vestidas de azul e branco (dois dos seus trajes iguais), refugiam-se na varanda contígua e ficam a contemplar os derradeiros movimentos do mercado de Papeete. Passados minutos, duas voltam para o show, mas a terceira, mahu, prefere o isolamento e a reflexão, como que a reexaminar se a sua vida de mulher em corpo de quase mulher lhe continua a fazer sentido.