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Ao Insurgente Desconhecido

Ao Insurgente Desconhecido

Figuras douradas - dois homens e uma mulher - do monumento aos insurgentes desconhecidos da "Bush War" a guerra de libertação contra a minoria branca da Rodésia. 

Harare, Zimbabwe

O Último Estertor do Surreal Mugabué

Em 2015, a primeira-dama do Zimbabué Grace Mugabe afirmou que o presidente, então com 91 anos, governaria até aos 100, numa cadeira-de-rodas especial. Pouco depois, começou a insinuar-se à sua sucessão. Mas, nos últimos dias, os generais precipitaram, por fim, a remoção de Robert Mugabe que substituiram pelo antigo vice-presidente Emmerson Mnangagwa.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Aterramos de um voo de hora e meia do extremo norte do Zimbabué. A avioneta detém-se. Gellys escolta-nos até à zona em que as malas seriam entregues.

Não havíamos falado durante o voo. Limitámo-nos a aproveitar o privilégio de contemplarmos de pouca altitude a incrível paisagem do Zimbabué. Gellys, manteve-se ocupado com os  comandos e botões da aeronave. Ali detido pela demora da bagagem, o piloto revelou uma agradável cortesia britânica e com uma informalidade que só muitos anos naquelas partes de África moldam nos súbditos de Sua Majestade ou descendentes. Aproveitamos a sua predisposição.

“Então e isto de ser piloto começou como?” perguntamos-lhe. “Bom, como um passatempo e enquanto mantivemos a quinta, manteve-se só isso. Depois...levaram-nos tudo. Agora, é o que me permite sobreviver por cá.” Por mais dramáticas que parecessem, as suas palavras não nos surpreenderam. Estávamos a par dos acontecimentos. “Mas e, no vosso caso, houve violência?” acrescentamos. “Violência física não, mas era uma pressão a que não podíamos resistir. Aparecia uma turba com armas e dizia que tínhamos que sair até tal dia. Depois, voltavam mais a sério. Não vimos alternativa. Deixámos a casa e a propriedade. A maior parte dos zimbabueanos brancos perdeu tudo. Nós, os que ficámos por cá noutras condições, continuamos a sujeitar-nos à loucura do Mugabe e a muita discriminação.”

As malas chegam. Gellys tinha o regresso a Mana Pools a cumprir. Despedimo-nos com o desejo de um melhor futuro para ele e para o Zimbabué. Por essa altura, tanto nós como Gellys estávamos conscientes que, para começar, tudo dependia da resiliência de Robert Mugabe.

Mugabe foi o mais proeminente líder da guerra de Libertação travada contra a minoria branca da República da Rodésia, auto-proclamada independente do Reino Unido, em 1965. Durante toda a sua vida, Robert Mugabe abominou a supremacia da minoria branca em que cresceu. Este ódio viria, aliás, a condicionar a sua futura governação do Zimbabué.

Entre penas de prisão e encontros com líderes marxistas, Mugabe liderou forças militantes e de guerrilha que, mal Moçambique obteve a independência de Portugal, operaram a partir da extensa zona fronteiriça com o actual Zimbabué. Em 1979-80, excepção feita à África do Sul do Apartheid, sua óbvia aliada, o regime supremacista e, em boa parte, racista da Rodésia estava isolado. Do outro lado, Mugabe via-se pressionado por Samora Machel e outros líderes para pôr termo ao conflito. Muito contrariado, acedeu.

Na sequência, resistiu a várias tentativas de assassinato das facções ZAPU e ZANLA, que passaram a disputar o poder com o seu ZANU. O partido ZANU venceu as eleições. Em Abril de 1980, Mugabe prestou juramento enquanto Primeiro-Ministro já não da Rodésia mas de um Zimbabué reconhecido pela maior parte do mundo. Os seus anos iniciais de governação indiciaram estabilidade mas Mugabe veio a revelar-se um déspota ressentido, com vistas curtas, vulnerável a vaipes e a paranoias.

Não saíramos sequer do aeroporto. Os danos provocados pelas suas quase quatro décadas no poder sucediam-se. Por excessiva descontração, tínhamos chegado apenas com euros. As caixas ATM não tinham nem dólares americanos nem os bonds zimbabueanos criados quando o dólar nacional se desvalorizou tanto que nem meia linha de um caderno chegava para anotar quantos valiam 1 USD ou 1 Euro. Ao fim de alguma investigação, conseguimos um misto da moeda americana e de bonds como troco da compra de um protector solar, na farmácia das Chegadas. Aprendida a solução, continuámos a obtê-los, um pouco por todo o país, nos supermercados das maiores cadeias. Às tantas, mesmo sabendo que fora do Zimbabué, os bonds valeriam zero já nem refilávamos para garantirmos troco em dólares americanos.

Um motorista do turismo local recebe-nos e conduz-nos ao hotel. Descansamos uma mera hora. Voltamos a sair com ele, guiados ainda por uma cicerone do governo, Salome, que cumpre instruções e nos leva ao National Heroes Acre, a 7km do centro. Entregue aos chats do seu telemóvel, Salome pouco nos liga ou dirige palavra. O motorista dirige, como é suposto, mas quase só fala com Salome. O monumento nacional não tarda. No cimo de uma escadaria curta, inicial e central, estão o túmulo e estátua de bronze de homenagem aos insurgentes desconhecidos que perderam a vida na guerra de libertação. Compõem a estátua três guerrilheiros armados e em poses altivas: uma mulher e dois homens. As duas extremidades do monumento são delimitadas por murais que narram a história do Zimbabué. 

No cimo da colina, sobre uma torre com 40 metros assim elevada para ser vista de Harare, destaca-se a “Chama Eterna”. Foi acesa aquando das celebrações da Independência do Zimbabué de 1982.

Fiel às suas inclinações marxistas, Mugabe, adjudicou a construção do Heroes Acre a uma empresa norte-coreana. Não nos espantou, portanto, apurar que o mausoléu imitava o Cemitério dos Mártires Revolucionários de Taesong-guyok, nos arredores de Pyongyang.

O Heroes Acre serve de última morada cerimonial dos insurgentes zimbabueanos. Nessa mesma tarde, um forte contingente de militares e trabalhadores civis prepara, ali, o funeral de um desses heróis, o Comandante Naison Ndlovu, que falecera dias antes, com 86 anos.

Ndlovu era estimado não só pelo seu papel na independência do Zimbabué como pela integridade que manteve durante toda a sua vida contra o regionalismo e o tribalismo. Isto, num país que ainda hoje padece da polarização por vezes irracional entre as suas etnias predominantes, a xona, de Robert Mugabe e a Ndebele, ambas do ramo Bantu. Em certas fases da sua longa ditadura, Mugabe levou esta oposição xona vs Ndebele a extremos sanguinários.

Regressamos ao centro. Harare mantém-se tranquila dentro do que o seu caos controlado de incontáveis pedestres e vendedores e compradores de rua concede, claro está. Com o próprio Mugabe a admitir que o desemprego se cifrava entre os 60 e os 90%, só as incontáveis iniciativas privadas de tudo um pouco sustentam as famílias – por norma, numerosas – e mantém ligada à máquina a moribunda economia local.

Enquanto caminhamos, passamos por sucessivas bancas improvisadas à porta de lojas que, não raras vezes, se veem forçadas a admitir a concorrência.

Ao ponto a que as coisas chegaram, Mugabe até se pode queixar na imprensa que Harare nunca voltará a ter turismo enquanto estiver cheia de lixo (em grande parte o deixado pelos vendedores de rua ao fim do dia). Mas também sabe que forçar a remoção dos vendedores poderia representar o princípio do seu fim. Como tal, no meio de uma fascinante floresta urbana de prédios em que a arquitectura soviética dos anos 70 se mescla com influências africanas e outras coloniais britânicas, a sina pesada de Harare prossegue à sombra e ao sol de melhores e piores dias. Uma senhora compõe extensões capilares vistosas a outra. Sentadas em cadeiras trazidas de casa, cambistas seguram enormes molhos bafientos de notas. À falta de besta de carga, um vendedor de fruta empurra a sua própria carroça cheia de laranjas. São meros exemplos de uma miríade de modos de sobrevivência.

Nem zimbabueanos brancos nem turistas. Não vemos um único branco na cidade. Começamos, aliás, a sentir que por aquelas alturas, éramos os únicos. Mas as estatísticas garantem que ainda lá se mantêm vários milhares deles, de cultura anglófona e - não podiam faltar - muitas centenas de portugueses, mais de mil no Zimbabué, donos de restaurantes, de empresas rurais, de turismo e do que mais lhes tenha calhado na vida.

Mas, voltemos à decadência do Zimbabué. Até 1987, Mugabe manteve-se ocupado com um combate sanguinário e tresloucado contra as facções que se haviam dedicado a uma oposição de banditismo nas províncias mais remotas do país. Para as controlar, Mugabe não olhou a meios e terá causado a morte a cerca de 20.000 civis. Nos 37 anos do seu jugo, mataria rivais e súbditos com relativa frequência, às vezes, pelas razões mais estapafúrdias.

Em 1987, Mugabe conseguiu não só a fusão entre os dois principais partidos rivais como a mudança da constituição. Declarou-se presidente executivo. Plenipotenciário, apressou-se a abolir os vinte assentos lugares parlamentares reservados a brancos. A expulsão não se ficou pela assembleia. A população negra não parava de aumentar. Para alegadamente os alojar, Mugabe decretou que iria expropriar, sem apelo, vastas propriedades agrícolas, algumas exploradas por famílias brancas desde o início dos tempos coloniais. Muita desta terra foi, todavia, entregue a ministros e a oficiais superiores, vários, antigos combatentes da Guerra de Libertação. Ao inteirar-se disto, o Reino Unido suspendeu o seu programa de apoio (até então, atribuíra 44 milhões de libras) à compensação dos brancos expropriados.

Como se não bastasse, em 1997, os antigos combatentes da Guerra Revolucionária intensificaram os pedidos de pensões pelos seus serviços militares. Mugabe não tinha como rejeitar. Ignorou todo e qualquer bom-senso económico-financeiro e limitou-se a imprimir centenas de milhões de dólares zimbabueanos. Este influxo gratuito de notas contribuiu para os valores anedóticos da inflação que se seguiram: 100.000% em 2008 quando uma fatia de pão custava um terço de um salário mensal. A cotação da moeda nacional, essa, já não tinha adjectivo que a qualificasse.

Mugabe colocava as culpas da catástrofe na minoria branca resistente que dizia continuar a controlar a agricultura, as minas e a produção industrial. Diabolizou os brancos e os seus próprios oponentes negros. Aproveitou ainda para desviar a atenção do dano das suas políticas com a preocupação crescente da homossexualidade que explicou como uma importação da Europa, sendo os gays “piores que cães e porcos... culpados de comportamentos sub-humanos.”

De 2000 em diante, as ocupações de terras agravaram-se, levadas a cabo por gangs armados que não se furtaram a violações e a assassínios. Tudo se revelou orquestrado por Mugabe que assim vingou o papel que os brancos teriam alegadamente tido nos seus maus resultados das eleições desse ano. Fossem quem fossem, faltavam aos novos beneficiários o conhecimento ou meios técnicos e até financeiros para manterem as terras produtivas.

Até então, conhecido como o celeiro da África sub-Sahariana e um forte exportador, à medida que mais brancos e empresas abandonavam o país, a economia do Zimbabué agravou-se ao ponto de 75% da população depender de ajuda externa para se alimentar. Nada disto parecia incomodar o velho ditador. Mugabe continuou pelos anos 2000 fora a acicatar o estado de semi-guerra em que o país vivia com o único propósito de eternizar a sua tirania.

Num outro dia de Junho de 2017, visitamos as pinturas rupestres de Domboshava, a uns 30 km de Harare. À ida, passamos pelo quarteirão da mansão presidencial. Meio alertada, Salome proíbe-nos de ali fotografarmos. Dez quilómetros depois, de forma brusca, batedores motorizados mandam-nos encostar à berma. Uma interminável caravana de veículos híper-luxuosos e militares em que seguia Mugabe dirigia-se ao funeral do Comandante Naison Ndlovu, no Heroes Acre. E Mugabe não brincava em serviço. Além de um batalhão de soldados e forças especiais noutros carros e vans, protegia-o um veículo com metralhadoras de estilo antiaérea.

Mas, com 93 anos, os anticorpos no seu organismo enfraqueciam. Os da política do Zimbabué, esses, sentiam como nunca a urgência de o extraírem de vez do país. Mais ou menos um mês depois, o Exército Nacional percebeu que Mugabe se livrara do antigo vice-presidente Emmerson Mnangagwa para, mesmo contra a vontade expressa do povo, impor a sua mulher Grace – Gucci Grace, como lhe chamam nas ruas – à sua sucessão.

Já sem nada a temer, os generais entraram por fim em cena e colocaram Mugabe em prisão domiciliária. Sentindo o apoio dos militares, no passado dia 19, em clima de grande festa, os delegados demitiram-no da presidência do partido ZANU-PF e apontaram Emmerson Mnangagwa como novo líder.

Horas depois, Mugabe discursou na TV, na presença algo preocupante de membros das forças armadas, de outros oficiais e de um padre.

Fez tábua rasa de tudo o que se havia passado. Declarou que, dentro de semanas, presidiria ao congresso do partido. Não considerou a sua saída do ZANU-PF, quanto mais da presidência do país. Um dia depois Robert Gabriel Mugabe, o decano dos tiranos de África demitiu-se finalmente da presidência do país. Encerrou, assim, as quase quatro décadas de prepotência, loucura, uso e abuso do Zimbabué. Segue-se o seu vice-presidente Emmerson Mnangagwa. Após 37 anos de frustração, as expectativas do povo não podiam ser mais elevadas.