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Puro Pacífico do Sul

Puro Pacífico do Sul

Tonganês observa a pequena ilha de Fa, ao largo de Tongatapu.

Tongatapu, Tonga

O Último Trono da Polinésia

Da Nova Zelândia à Ilha da Páscoa e ao Havai nenhuma monarquia resistiu à chegada dos descobridores europeus e da modernidade. Para Tonga, durante várias décadas, o desafio foi resistir à monarquia.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O desembarque no aeroporto Fua’amotu deixa antever um destino, no mínimo, muito peculiar. A varanda cénica do edifício está à pinha com famílias chorosas que gritam e acenam aos seus regressados. Os homens que descem com peso e pompa a escadaria do avião vestem tupenus tradicionais – longas saias de sarja - que combinam com camisas ou t-shirts coloridas, invariavelmente XL, XXL ou XXXL, ou não fosse raro o tonganês adulto com menos de 90 quilos. As mulheres, essas, gerem, de forma creativa, a combinação kofu-tupenu, recorrendo, por vezes, a cores e cortes inovadores mas respeitadores da tradição. Nota-se em ambos a felicidade concentrada própria dos retornos com tempo contado.

No interior do edifício, o stand do turismo parece ter sido abandonado há décadas. Não há bandas a tocar melodias de boas-vindas nem anfitriões de ocasião a oferecer colares de flores cheirosos ou a saudação polinésia nacional malo e lelei. Noutros países do terceiro mundo, os  turistas têm que aturar autênticos cercos e quase raptos de taxistas, comissionistas de guest-houses etc etc. À chegada a Tonga, no entanto, são literalmente ignorados por não passarem de forasteiros, personagens à margem da corrente de emoções gerada pelos reencontros.

Depois da Educação, a Diáspora

Tongatapu – a ilha sagrada do sul – alberga cerca de 71.000 habitantes. São 70% da população total. Aqui, como nas restantes ilhas, é rara a família que não se sacrificou à diáspora, um dos preços que Tonga continua a pagar pela sua soberania e consequente preservação étnica e cultural.

Tantos como os residentes no arquipélago, os emigrantes dispersaram-se por vários subúrbios da Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos e formaram colónias pesadas e saudosas.

A capital Nuku’alofa depressa desilude todos os que chegam à procura de mais um paraíso tropical. Incaracterística em termos urbanísticos e arquitectónicos - apesar de alguns edifícios notórios, como o Palácio Real - a cidade espraia-se entre a vastidão do Pacífico do Sul e os mangais da lagoa de Fanga’ Uta. Algo poeirenta e gasta, Nuku’alofa (Residência do Amor) em tonganês - tem nas suas gentes genuínas e o principal cartão de visita e os poucos tons garridos e enfeites. 

Entre os números que classificam Tonga, destacam-se os 98% da taxa nacional de literacia. A acção educacional – com uma sólida base religiosa - está bem patente na quantidade de uniformes que se detectam, com cortes e cores inequívocos que distinguem as entidades formadoras, quase todas tradicionalistas. Nos pátios escolares, nas paragens de autocarro, nas lojas à beira da estrada e onde quer que calhe, os agrupamentos espontâneos de trajes repetem-se e saltam à vista. São de tal maneira considerados que a sua produção é, para as raparigas, uma prática académica obrigatória e, como quase tudo, em Tonga, comunal.

A importância da aprendizagem vem de há muito. O Reino nunca foi governado por um país ocidental mas, quando os primeiros missionários chegaram, no século XVIII, a desconfiança depressa deu lugar a um respeito venerador que moldou a cultura vigente por forma a contemplar o Cristianismo nas suas diferentes expressões. A maioria dos tonganeses (cerca de 38%) são metodistas seguidores de Wesley. Entre as várias outras religiões adoptadas pela população destacam-se a Mórmon, o Catolicismo e a Igreja Livre de Tonga.

Ao fim da tarde e aos fins de semana, os tonganeses reúnem-se invariavelmente nas suas igrejas, e levam a cabo longos e intensos ensaios musicais e cerimoniais que aprofundam os laços entre os crentes e uma fé incondicional na graça divina.

O Desgoverno Real

Qualquer visitante atento e interessado depressa percebe que apesar da reverência histórica pela monarquia, acima deles, os tonganeses não têm podido confiar em mais ninguém.

De motoreta ou de carro, dá-se a volta a Tongatapu em menos de duas horas e isto apesar de os rent-a-car locais entregarem os veículos com os depósitos quase vazios e a velocidade máxima permitida ser 40 km/h. Entre coqueirais densos e campos cultivados, a berma das estradas revela povoações pacatas que agrupam pequenas casas rurais, hortas e jardins patrulhados por cães e gatos, por galinhas e porcos que contribuem para a auto-subsistência quase sempre problemática dos lares. 

A economia nacional conta com uma vasta componente não monetária e depende das remessas de dólares garantidas pelos emigrantes. O sector monetário - a começar pelas telecomunicações e satélites, ambas vitais para um país espalhado pelo oceano - está nas mãos da família real e outros nobres. E, se em tempos, os reis de Tonga dominaram o Pacífico em redor se tornaram famosos pela ambição e coragem, mais recentemente, Tāufaʻāhau e o seu governo (mas não só) pouco mais fizeram que sujar a imagem da monarquia. Espantaram primeiro os vizinhos australianos e neozelandeses, depois todo o Pacífico com uma série de investimentos e esquemas imaturos que comprometeram futuras ajudas externas ao país. Entre as medidas polémicas – todas tomadas com o objectivo de obter rendimento fácil - contaram-se os projectos de tornar Tonga numa lixeira nuclear; de vender passaportes tonganeses (e respectiva nacionalidade) a estrangeiros, alguns com sérios problemas com as justiças de outros países; permitir o registo de embarcações sob a bandeira de Tonga, muitos dos quais se viria a descobrir envolvidos em operações ilegais incluindo o fornecimento da Al Qaeda; o frete, por um ano, de um Boeing 757 deixado inoperacional no aeroporto de Auckland, que viria a causar a falência da Royal Tongan Airlines; reclamar espaço de satélites geo-orbitais para lucro exclusivo da princesa; a construção de um hotel de aeroporto e casino com um criminoso procurado pela Interpol; a aprovação de uma fábrica de cigarros para exportação para a China, apesar da reprovação das autoridades médicas e contra décadas de promoção da saúde pública. Para encerrar a prodigiosa lista, há ainda que assinalar a confiança quase cega em diversos especuladores “milagrosos” que prometeram mundos e fundos, com destaque para Jesse Bogdanov, que se auto-proclamou publicamente o bobo da corte e foi responsável por parte dos 26 milhões de dólares americanos entretanto perdidos pelo monarca.

Estes procedimentos erróneos e vários outros que envolveram a liberdade de imprensa e de expressão reforçaram a acção do movimento pró-democracia e a contestação em geral. A frustração só aumentou quando Siaosi Tupo V chegou ao poder adiando, de imediato, o cumprimento de promessas de abertura política feitas pelo pai, algo que viria a ter graves consequências.

Um passeio ao entardecer pelos famosos Mapu’a Vaca blow-holes - buracos nas rochas que projectam enormes jactos de água quando atingidos pelas ondas – e ao longo da Piha Passage, volta a desvendar a dependência da natureza em que vive a maior parte dos tonganeses. Assim que a maré vaza, um pelotão de locais munidos de facas e catanas passa a pente o recife, recolhendo todos os peixes e moluscos que se deixaram aprisionar pelo recuar da água. Logo ao lado, pescadores regressam da faina em barcos artesanais em que arriscam as vidas para assegurar alimento para a família.

Salvo raras excepções, a concentração da riqueza nacional na família real e o agravar do desequilíbrio social retiraram aos tonganeses humildes qualquer possibilidade empresarial e até os mais insignificantes negócios, surgem nas mãos de estrangeiros.

Distribuídas por Tongatapu como pequenas prisões coloridas, as mercearias sucedem-se à beira das estradas, às vezes separadas por escassas dezenas de metros e todas elas chinesas. A única proprietária que cede a explicar a razão de ser das grades, fá-lo de forma receosa e, a determinada altura arrepende-se: “os tonganeses não nos querem aqui, odeiam-nos e nós também não queremos nada com eles ...” ... em 2006 assaltaram todas as nossas lojas ... levaram tudo ... “

Foi preciso encontrarmos Bob, um expatriado holandês de idade avançada para percebermos um acto que parecia ir contra a aparente paciência inesgotável dos locais. “... Isso   deveu-se a mais uma das espertezas da realeza. Depois de terem permitido a entrada dos chineses ao abrigo da venda de passaportes, não resistiu a um esquema de subornos que permitia a entrada de contentores vindos da China por valores simbólicos, isto além de a promessa de abertura à democracia ter sido mais uma vez adiada ad eternum ... As pessoas daqui, respeitam a monarquia. Infelizmente, a monarquia não as tem respeitado de volta! ...“

Os tonganeses entregam-se de alma e coração à sua fé e paixões. É uma forma de esquecer as traições de que são vítimas e enriquecer espiritualmente as suas vidas. Nalguns casos, não só.

Soluções Alternativas: o rugby e o turismo

O râguebi foi introduzido na ilha pela presença de colonos, missionários e comerciantes de origem britânica. O brilhantismo do desporto nos vizinhos Austrália e Nova Zelândia, depressa contagiou as ilhas mais próximas do Pacífico e Tonga não foi excepção.

Como a própria sociedade, o râguebi local organizou-se em redor das pequena povoações. Em, Tongatapu, a partir das cinco da tarde, os rapazes e homens mais jovens confluem para os campos pitorescos e mal amanhados das suas aldeias.

São irregulares, não têm quaisquer marcações e a erva chega, por vezes, aos joelhos dos praticantes. Estes, apesar de conscientes das melhores condições no ocidente, não se queixam e, encarregam-se eles próprios de cortar os relvados e de outras tarefas acessórias.

Instigada por tanta aplicação, Tonga nunca conquistou nenhum título mas continua a ser uma das equipas mais aguerridas e respeitadas do mundo. Por detrás da entrega, escondem-se, no entanto, sonhos de sucesso internacional, já tornados realidade por jogadores poderosos e de renome de que são expoentes o All Black Jonah Lomu e o Wallabie Toutai Kefu.

O turismo é a eterna solução adiada para todos os males do Reino. Em termos de potencial, as probabilidades surgem, todavia, do lado de Vava’u, um grupo de ilhéus do norte com as características certas para aliciar investidores, acolher resorts, atrair turistas do sol e da praia em voos charters e começar a facturar. A Tongatapu parece estar reservado um papel de entreposto logístico e cultural mas até isso está por preparar. Até que as condições políticas e económicas se reúnam, a capital Nuku’ alofa ensaia o seu papel com algumas pequenas ilhas idílicas ao largo: Pangaimotu, Fafá e Atafa e em cada uma das raras ocasiões em que os cruzeiros internacionais atracam no porto.

Até lá, caso a realeza não adira a novos planos mágicos, o mercado de Talamahu manter-se-á como a maior expressão comercial da capital e as principais fontes de receitas de Tonga continuarão a provir das remessas dos emigrantes, da exportação de cocos, baunilha, bananas e café e raízes alimentares como a mandioca o taro e a cassava.

Para todos os efeitos, os tonganeses já perderam uma vez a paciência. Aguardam, ansiosos, pela representação parlamentar tantas vezes esquecida conscientes de que uma vez conquistada, a democracia e o progresso dificilmente lhes irão escapar.

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