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Dia no ksar

Dia no ksar

Nativos deixam o ksar Ouled Soultane.

Tataouine, Tunísia

Os Castelos de Areia que Não Desmoronam

Os ksour foram construídos como fortificações pelos berberes do Norte de África. Resistiram às invasões árabes e a séculos de erosão. A Tunísia presta-lhes, todos os anos, uma devida homenagem.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Tataouine ganhava nova vida. Provenientes dos quatro cantos do Magrebe e do Egipto, instalavam-se na povoação milhares de almas do Saara. Chegavam por terra em carrinhas cobertas de poeira fina ou em voos curtos provenientes das nações vizinhas. Formavam comitivas desorganizadas e barulhentas que se instalavam um pouco por toda a cidade e arredores, de tendas de inspiração beduína aos hotéis mais luxuosos.

Os nativos estão habituados à invasão anual dos visitantes. Identificam facilmente as suas origens e saúdam-nos com salamaleques efusivos e apertos de mão repetidos.

Não estamos assim tão longe da Europa mas estas portas do Saara estabelecem ainda uma fronteira de exotismo que era famosa em tempos coloniais. Os franceses partiram da Tunísia no terceiro mês de 1956 mas, por terras gaulesas, “aller à Tataouine” continua a significar perder-se no fim do mundo. Sem saber como nem porquê, George Lucas conseguiu ridicularizar a expressão. Filmou parte substancial do episódio IV da Guerra das Estrelas na região circundante e, quando teve que baptizar um remoto exoplaneta das areias para a saga, optou por Tatooine.  Enquanto avançamos do centro da capital de província para o hipódromo que acolhe vários eventos do festival, aquela terra parece realmente de outro mundo. Uma vasta zona de baixas-pressões resiste sobre o centro e norte de África. Estende-se do interior do Senegal, Mali e Níger até à Sicília e à Sardenha e o manto de nuvens cúmplice rouba o sol escaldante a grande parte do Saara. Ao mesmo tempo, vendavais revolvem as dunas do deserto e pintam a atmosfera do sul da Tunísia de um tom sépia algo marciano, nada de estranho para os seus habitantes mais que habituados a estas tempestades.

Zulia, uma anfitriã do evento recebe-nos em frente ao hipódromo e, após os cumprimentos, faz questão de avisar: “Está prestes a começar uma corrida. Andem por aí à vontade mas tenham cuidado com os animais. Alguns sentem a excitação no ar e podem dar coices ou morder”. Não levamos a coisa muito a sério e circulamos entre camelos e cavalos a que os proprietários e os jóqueis dão os últimos cuidados. Um veterinário de serviço inspeciona-os meticulosamente e tira notas num bloco com páginas pré-formatadas. Está visto que as provas não são a brincar.

Passamos para o interior do recinto e damos com as bancadas repletas de um público estranhamente agasalhado e curioso que acompanha a chegada à meta dos primeiros classificados de uma meia-maratona, atrapalhados por camelos foragidos que teimam em não abandonar a pista.

Os prémios são entregues com pompa e circunstância e, logo após, têm início exibições de acrobacias montadas que entusiasmam a multidão: cavaleiros que galopam virados para trás, outros que deles se dependuram e apanham terra do chão tudo ao som de tambores e flautas do deserto tocados ao vivo e narrado em directo por uma repórter radiofónica equipada a rigor.

Entretanto, um exército de peões em djellabas toma conta do recinto. Alinham-se no extremo oposto à bancada empunhando bandeiras vermelhas e brancas, - as cores da Tunísia - enquanto guerreiros a cavalo galopam de um lado para o outro simulando antigas batalhas históricas a que Lawrence das Arábias preferia não ter faltado. Inesperadamente, tornamo-nos vítimas do confronto.  

Os cavaleiros haviam recebido ordens para dispararem quando se cruzassem em frente ao centro da bancada. Mas alguns fazem-no contra o solo, demasiado próximo dos fotógrafos e do público. Já estávamos meio surdos mas ainda somos atingidos por pequenas pedras projectadas do chão que nos provocam feridas ligeiras no pescoço e na face e deixam uma espectadora a chorar, com perda momentânea de visão.

Recuperamos do incómodo e um comentário sarcástico de um colega inglês devolve-nos o bom-humor: “São assim os guerreiros do deserto! Se os tivessem deixado usar pólvora a sério, por esta altura estávamos todos mortos!”

Pouco depois, entra em cena uma milícia tuaregue líbia que nos impressiona com os seus trajes negros, as bolsas vermelhas a tiracolo e os turbantes e véus que lhes revelam apenas os olhos. Sentimo-nos intimidados mas, ao mesmo tempo, aliviados. Como armas, usavam punhais. Só com muito azar sofreríamos novos danos até porque as encenações marciais estavam prestes a terminar.

Nos últimos anos e até à revolução tunisina, o grande evento do hipódromo era encerrado em apoteose com uma multidão de  participantes e figurantes a exibir ao público uma fotografia emoldurada do ex-Presidente Ben Ali, entre bandeiras ondulantes da Tunísia e gritos de apoio incondicional, enquanto o speaker de serviço assegurava uma longa ovação de pé.

A realização do festival de 2012 esteve em dúvida mas foi recentemente confirmada pelos representantes da Associación des Diplomés du Superieur, pela primeira vez encarregada de supervisionar a organização. Ben Ali não estará presente, nem em pessoa nem em imagens. E dificilmente o presidente actual Moncef Marzouki exigirá ou terá direito a semelhante culto.

No dia seguinte, a celebração passa a itinerante. Afasta-se da cidade e visita os ksour considerados mais importantes da região. Viajamos quase 20 km e damos com uma multidão de pedestres de beira de estrada que, como nós, se dirigem para o ksar de Guermassa num cenário extraterrestre ainda e cada vez mais alaranjado, entrecortado por mesetas longínquas.

A subida para o topo da colina explica porque o povo berbere ali instalou a sua fortificação. Pelo caminho, informam-nos que está prestes a começar o espectáculo dos aldeãos. 

Chegamos extenuados mas a tempo de ouvir a música começar, acompanhada por um coro de mulheres trajadas com haiks folclóricos e lenços vermelhos que cobrem as cabeças coroadas por tiaras douradas.

Um camelo altivo, também enfeitado, espreita por cima deste grupo com relativa indiferença.

Ao nível do solo, dois anciãos de djellabas brancas protagonizam uma estranha dança bélica. Circulam num sentido e no outro, de espingardas velhas em riste que nos fazem lembrar ponteiros de relógio, renovando coreografias com provocações dramáticas e perseguições lentas e contidas.

Quando a exibição termina, mudamo-nos para o ksar Ouled Soultane, um dos mais sumptuosos de todo o Magrebe por agrupar duas estruturas de ghorfas (células de armazenamento de alimentos) construídas em alturas diferentes (séculos XV e XVIII) e que são repartidas por quatro ou cinco andares.

Também aqui os aldeões organizaram uma recepção calorosa aos visitantes que inclui comida tradicional, música e danças e uma  reconstituição do que teria sido a existência das tribos berberes que ali habitavam.

Dois outros anciãos encontram-se e trocam um abraço interminável que nos parece pôr cobro a uma longa separação. Perguntamos o porquê de tanta emoção a um organizador que fala francês e este explica-nos com orgulho: “Nunca foi fácil por estes lados. Agora a Tunísia é predominantemente árabe mas já foi berbere. A partir da altura em que os primeiros exércitos islâmicos aqui chegaram, os raides tornaram-se frequentes e, sempre sob ameaça, as tribos habituaram-se a dar valor à amizade e à solidariedade. Foram valores  que nunca mais se perderam. Estes cumprimentos são apenas uma das suas expressões. Não pensem que só acontecem nestes dias.”

Acompanhamos o festival até o fim e percebemos melhor a honra porque se rege o evento: apesar de todas as adversidades, os povos indígenas do Saara não salvaram só os ksours. Também preservaram as suas identidades.