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Espera

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Condutores e auxiliares de jeepneys de El Nido aguardam por mais passageiros.

Filipinas

Os Donos da Estrada

Com o fim da 2ª Guerra Mundial, os filipinos transformaram milhares de jipes norte-americanos abandonados e criaram o sistema de transporte nacional. Hoje, os exuberantes jeepneys estão para as curvas


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Quem percorre, pela primeira vez, as ruas de Manila tem dificuldade em acreditar que os salões automóveis japoneses, com as suas inovações ecológicas, os seus Toyotas Prius e Hondas Eco se realizam logo acima no mapa. 

O semáforo da Pedro Gil St. abre e uma frota ameaçadora de lata colorida arranca ruidosamente a toda a largura do asfalto. Para trás, fica uma nuvem de fumo preto que envolve cinco ou seis condutores de scooters azarados, já precavidos com lenços apertados contra a boca. Seguem-se mais e mais jeepneys, decorados e artilhados como deu na gana dos proprietários. 

“Agora não é nada” diz-nos o passageiro do lado. “Haviam de ver antes de o governo ter começado a multá-los”. “Em alguns, o condutor quase não via a estrada, de tanta tralha que colocavam nos pára-brisas, nos tabliers e até, lá fora, sobre o capot.”

O diálogo é interrompido por um “Pára!” - o dialecto tagalog incorporou inúmeras palavras dos colonos espanhóis - estridente gritado várias vezes. Mais uma vez, no percurso entre Makati e Malate, o motorista não ouve os passageiros bater com as moedas no tejadilho (o som que pede uma paragem), entretido a conversar com dois amigos que, à frente, lhe fazem companhia. Apesar de falarem a 200 à hora, o reflexo do enorme retrovisor deixa perceber que o assunto é quente. Só isso explica os sorrisos orgulhosos, as risadas descontroladas, as palmadas nos vidros e um certo ar de frete de cada vez que têm que se virar para trás para recolher os pagamentos.

Quando a cabina vai realmente cheia, de quem segue à entrada até ao condutor, as moedas ou notas chegam a passar por dezenas de mãos. Recebê-las e fazê-las avançar é já uma espécie de reflexo condicionado dos pinoys. Faltando um ocasional colega de negócio, os pagamentos funcionam na mera confiança. É difícil ao condutor controlar se recebe o dinheiro de toda a gente que vai atrás. Alguns recorrem à moral religiosa para afectar as consciências cristãs dos clientes: “God knows Judas will not pay” profetiza um autocolante que se banalizou.

Há quem defenda que, deixados de lado o conforto, a segurança e o desempenho ecológico, os jeepneys são o melhor sistema de transporte do mundo. Tudo bem que nos países mais desenvolvidos os autocarros são pontuais ao segundo; e que as paragens estão equipadas com painéis electrónicos que informam onde está o veículo que se aproxima e quando falta para chegar. Também impressionam as suas quase nulas emissões de poluentes, a música ambiente e as cadeiras ergonómicas.

Nas Filipinas, todavia, as pessoas não têm que esperar. Não têm sequer que se dirigir a uma paragem. A esquadra nacional de jeepneys é de tal forma imensa que são dezenas, às vezes centenas, os que disputam as mesmas rotas. Como se não bastasse, Mesmo contra a lei recentemente criada, muitos dos seus condutores, por vezes, também proprietários, optam por circular sem rota definida. Seja qual for o método, está sempre um jeepney a poucos metros e são eles que abordam – ou, melhor, chateiam - os pedestres para os convencer a viajar.

Quanto às paragens, o cliente tem sempre razão. Não espanta que se façam ligeiros desvios para deixar a senhora à porta de casa ou o menino na escola. Na prática, todos os passageiros sabem que, mais cedo ou mais tarde, vão pedir o mesmo. Se algum não estiver para perder tempo, é só sair e apanhar o que vem atrás, colado à traseira daquele em que segue.

Convém não esquecer ainda as vantagens mecânicas dos jeepneys. Em Manila, onde as as ruas e avenidas são quase todas asfaltadas e planas, esse factor é menos determinante mas no resto do país o que não faltam são estradas de terra que na época da chuva se transformam em lamaçais. Com a sua tracção optimizada, ao contrario dos autocarros e mini-vans, os jeepneys não só vencem os problemas mais sérios, como o fazem com a cabina e o tejadilho a transbordar de gente e carga.

Além disso são polivalentes. Um proprietário pode usá-lo como autocarro nos dias úteis e, ao fim de semana, assegurar a entrega de um carregamento de abacaxis ou de tijolos. Surgem ainda para fretes de passageiros especiais, como o transporte escolar; ou, como presenciámos no aeroporto de El Nido, onde, para evitar a ondulação nos dias de mar bravo, a El Nido Resorts os usa para garantir a transferência dos seus clientes abastados para a baía da cidade homónima. Na ilha de Marinduque, vimo-los carregados de freiras noviças.

Dos Willys americanos ao sistema de transporte nacional

Os jeepneys surgiram, nas Filipinas, alguns anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Quando as tropas norte-americanas abandonaram o país, deixaram para trás inúmeros jeeps, principalmente das series M, MB e CJ-3B (também chamados de MacArthur, Eisenhower e Kennedy)  oferecidos ou vendidos, à pressa, a locais.

Num país devastado pela ocupação japonesa e pelos bombardeamentos norte-americanos – a destruição da Manila pós-guerra é comparável às cidades mais arrasadas pelo conflito, como Berlim e Dresden -  a pobreza atingiu níveis inimagináveis no fim da década de 40 e durante a de 50. Os jeeps entravam na vida das pessoas como bênçãos divinas. Dando uso à sua mundialmente reconhecida capacidade de adaptação, os filipinos pegaram na quintessência dos jeeps de Guerra americanos e acrescentaram extensões às cabinas que permitiam aumentar a capacidade de carga e tejadilhos de metal que protegiam do sol e chuva tropicais.

Cada novo dono criou, desta forma, um negócio privado e, graças ao seu espírito empreendedor, os recém-criados jeepneys, além de transporte pessoal e familiar, assumiram o papel de autocarros e táxis do país.

Inicialmente, eram apenas meros jeeps esticados mas, assim que os proprietários começaram a facturar e a concorrência a aumentar, a necessidade de serem vistos pelos transeuntes e o orgulho de possuir um jeepney impressionante fez com que começassem a cromá-los, pintá-los ao seu estilo pessoal, combinando cores garridas e todo o tipo de motivos com  inúmeros equipamentos decorativos e ambientais incluindo luzes hipnóticas, campainhas com efeitos criativos e sistemas de som poderosos que testavam sobre os passageiros e os transeuntes.

Quanto ao nome jeepney, a sua verdadeira origem dispersou-se no tempo e existem, hoje, duas teorias paralelas que o explicam. Uma diz que o termo surgiu da junção de jeep com knee, por os passageiros se sentarem nas cabinas joelho contra joelho. Outra defende que provem da fusão de jeep com jitney, uma espécie de táxi partilhado comum nos EUA e Canadá.

A partir do fim da década de 60, as Filipinas conquistaram um crescimento económico que era segundo na Ásia, logo a seguir ao do Japão. A bonança foi efémera. Determinados em desviar milhões de dólares para as suas contas e em coleccionar sapatos, Ferdinand Marcos – no poder de 1966 a 1986 - e a esposa Imelda depressa arranjaram forma de se perpetuar à frente do país que acabaram por arruinar.

Uma consequência indirecta e mal menor deste longo desgoverno está em que, até muito recentemente, a evolução caótica do fenómeno jeepney foi ignorada. O resultado reluz, ronca e fuma, hoje, nas estradas das mais de 7000 ilhas do país, de Luzon a Palawan.

O santuário jeepney de Baclaran

Saímos em Malate e, apanhamos, de imediato, outro deslumbrante protótipo de chapa, que segue em direcção ao mercado e terminal de Baclaran, nos arredores de Manila. Vai cheio e segue ainda mais quente e húmido que o anterior. A entrada de dois estrangeiros causa uma reacção de compaixão em cadeia. Há um apertar colectivo que, do nada, gera espaço para nos sentarmos. Se fossemos filipinos, a preocupação não teria sido tanta. O mais certo era fazermos a viagem de pé, pendurados, meio dentro, meio fora da cabina.

Lugares comuns à parte, os pinoys são realmente amáveis e interessados – não interesseiros – para com os visitantes. Historicamente educados à moda latina e com um surpreendente domínio do inglês – que aprenderam nos 50 anos de colonização estado-unidense e aprendem como segunda língua desde que entram para a escola - são abertos e extrovertidos. Como tal, não demorou muito até que estivéssemos à conversa com metade dos passageiros, demasiado curiosos pelo porquê de tanta foto e acerca das nossas vidas.

Já quase no terminal de Baclaran, o jeepney entra pelo mercado local, e vai avançando, decímetro a decímetro, ao ritmo a que a multidão despreocupada se afasta. A determinada altura do percurso, as ruas delimitadas pelas bancas apertam de tal forma que entram pijamas, fatos-de-treino e mochilas contrafeitos  pelas janelas. No semi-escuro assegurado pela cobertura superior da estação local do MRT (Mass Rapid Transit, o metro de superfície local), restou saber quantos produtos ali seriam desviados por mês.

Baclaran é pouco ou nada do que se espera de um terminal. Damos de caras com uma rua cinzenta e suja, preenchida por uma fila dupla e quase circular de jeepneys cercados por mais lojas e bancas. Acompanhamos a fila e vamos admirando as suas decorações: há Bugs-Bunnies, personagens Walt Disney, Garfields, Homens-Aranha e seus colegas super-heróis, Cristos e Pokemones, Power-Rangers e Pica-Chus, mais uns tantos orientais que desconhecemos; outros motivos são paisagens paradisíacas ou futuristas, monumentos famosos e maravilhas da mecânica automóvel: Ferraris e bólides do género. Encontram-se ainda pinturas menos óbvias: abstractas, poéticas, indecifráveis. O espectro não tem fim.

Alguns condutores dormitam à espera da sua vez de arrancar, outros tratam da limpeza dos veículos e da mecânica, principalmente das mudanças de óleo, tão frequentes quanto se poderia esperar de motores recondicionados, vários originários da primeira metade do século XX. Ao mesmo tempo, os auxiliares deambulam pelo terminal e pelo mercado adjacente a captar clientes para os patrões, muitos, donos de autênticas frotas como Mário Delcon, o Presidente da 10th Avenue Jeepney Association, ele próprio um ex-condutor.

A sua estratégia é a antecipação e para tal afastam-se distâncias que parecem fazer pouco sentido. Colocam-se à saída do MRT, das ruas que dão acesso a Baclaran e apregoam repetidamente os destinos a alta voz: Quiapo, Ermita; Makati; Santa Cruz; Binondo; Mabini; Parañaque ou Rizal; alguns mais longínquos, dos arredores, como Quezon City e Cubao. Uma vez detectado, o cliente é afavelmente conduzido ao jeepney e, porque se trata de um terminal, espera que a lotação fique o mais completa possível. Passageiro a passageiro, peso a peso, vai-se compondo o lucro do proprietário e é conquistado o ganha-pão dos seus trabalhadores.

Depois dos Willys: o fabrico de base

Quando se esgotaram os jeeps americanos, o fabrico dos jeepneys passou a ser assegurado, com maiores chassis e capacidade extra de passageiros, a partir de motores diesel usados já que, a longo termo, esta solução representava lucros acrescidos para os seus proprietários.

Na sua fase Willy, a maior parte dos veículos eram montados nos próprios quintais dos filipinos, por chefes de família com vagas noções de mecânica herdadas dos G.I.’s. Com o tempo, a procura aumentou exponencialmente e alguns recém-surgidos empresários criaram verdadeiras fábricas como a Sarao, a Francisco Motor Corporation, a Hayag Motorworks, a David Motors Inc. de Quezon City e a MD Juan, dedicada apenas aos modelos vintage, de estilo militar.

Instaladas nos arredores de Manila e Cebu City estas marcas estavam e estão a milhas da tecnologia empregue pelos principais produtores de veículos automóveis do mundo. Em vez de linhas de montagem robotizadas, ali, todos os trabalhadores, mais que humanos, são filipinos, com tudo de latino-asiático, de bom e de mau que o epíteto carrega; operários especializados em juntar uma transmissão Isuzu recondicionada a um motor Toyota mais que usado, acrescentar suspensões sabe-se lá de que fabricante, moldar inúmeras chapas de metal, soldar e encaixar, peça atrás de peça, até a pintura final e à colocação da placa com o nome atribuído pelo dono, a prova final da personalização do jeepney filipino: Erika em homenagem à esposa ou uma qualquer paixão; The Perfect Choice para que não fiquem dúvidas quanto à qualidade do modelo; Maldito, sabe-se lá porquê.

Sem surpresa, cada jeepney demora uma eternidade (cerca de dois meses) a ficar pronto. Nos seus anos de glória, a Hayag entregava cinquenta exemplares personalizados por mês. Alguns, poucos, eram modelos de luxo, equipados com TV’s a cor, ar condicionado, direcção assistida e tracção às quarto rodas.

De quando em quando, estes últimos surgem nas estradas filipinas e destacam-se dos demais como se tratassem de sumptuosos Ferraris ou Lamborghinis.

Apesar das técnicas rudimentares de fabrico, os preços de venda dos jeepneys são assustadores para os padrões de vida locais: 250.000 pesos ( + ou – 4000 euros) os modelos mais básicos, em que a chapa não é sequer completamente pintada; 400.000 pesos (+ ou - 6300 euros) os deluxe.

Na curva descendente

Desde há algum tempo, a produção e a circulação de jeepneys têm vindo a confrontar-se com obstáculos que só o relativo sub-desenvolvimento das Filipinas e a preocupação dos sucessivos governos com a sua popularidade retardaram.

As rotas passaram a ser concessionadas a condutores que pagam uma taxa mensal para as explorar. As tarifas foram também regulamentadas. Mas a principal ameaça ao futuro dos jeepneys está no seu intolerável desempenho ambiental. Foi um problema que detectámos logo no primeiro dia nas Filipinas.

Quando fazíamos o trajecto do aeroporto ao centro de Manila, à distância, a cidade surgia envolta numa névoa tão escura que nos recusávamos a aceitar que pudesse ser poluição, mais inclinados para acreditar que se tratavam de nuvens de tempestade. Teve que ser o condutor do taxi a engolir em seco e a confirmar a dura realidade: “Believe it, it’s CO2 !”  

Um estudo publicado recentemente num jornal da capital concluiu que um jeepney com cabina para 16 passageiros consome tanto combustível como um autocarro de 56 lugares com ar condicionado. Se esta comparação preocupa, que dizer da composição dos gases expelidos pelos jeepneys, invariavelmente equipados com motores usados que, além de processarem mal o combustível, ainda queimam várias latas de óleo por ano.

Assim que precisámos de atravessar Manila, em hora de ponta, percebemos que parte substancial da culpa pelos enormes engarrafamentos é do excesso de jeepneys, muitos dos quais vagueiam, vazios, pelas ruas, à procura de clientes.

Fora da capital, de Cebu City e das outras grandes cidades Filipinas, o panorama não destoa. Quando viajámos de autocarro, de Manila para Vigan, no norte de Luzon, sentimos na pele o atraso de vida causado pelas centenas de jeepneys que entopem as estradas, a velocidade reduzida.

As fábricas que subsistem às novas regras debatem-se ainda com um recente influxo de veículos usados provenientes do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul. As mais poderosas dedicaram-se à construção de outros jeepneys, se é que assim se podem continuar a chamar e já começaram a exportar para o Médio Oriente e Austrália. Fabricam agora exemplares semelhantes aos robustos Hummers americanos da GM - estes baseados nos Hummvees militares. Por questões legais, chamam-lhes Hammers. Jappy Alana, o construtor responsável cuja família fabrica jeepneys desde pouco depois da retirada dos americanos, afirma orgulhoso: “podemos não ter a mesma tecnologia que a GM usa para o fabrico dos Hummers mas os nossos custam um quinto dos originais…” “… e apesar disso, temos vindo a entregar vários exemplares à prova de bala, a Mindanao e não só …”.

Mindanao é a grande ilha mais a sul das Filipinas. É nas suas selvas que resistem as guerrilhas muçulmanas Abu Sayyaf e MILF (Moro Islamic Liberation Force) que atacam frequentemente as forças governamentais filipinas e as tropas americanas que as apoiam.  

À parte dos Hammers, novas fábricas eco-friendly filipinas, lançaram modelos tecnológicos experimentais que se afastam de forma irreversível do conceito original. O mais divulgado foi o E-jeepney, um protótipo eléctrico exibido, no passado mês de Julho, em Makati – a capital financeira das Filipinas - por uma joint-venture formada pela GRIPP (Green Renewable Independent Power Producer), Greenpeace e pelo governo de Makati.

O processo de extinção dos jeepneys tradicionais parece ter já entrado em acção mas tudo indica que vai levar uma eternidade a chegar a consequências significativas.

Em El Nido, no norte de Palawan, encontrámos um magnífico exemplar no quintal de uma casa à beira da baía. Resolvemos investigar e descobrimos que era o sonho adiado de Jolly Rivera, um pescador reformado com rendimento abaixo da media. “… Está ali à espera do dia em que eu tenha dinheiro para o concertar e começar o meu negócio …” Enquanto, em Manila, se testam os primeiros modelos eléctricos, no resto do país, apesar de todas as restrições, muitos jeepneys ainda são o que eram logo após a retirada dos americanos.

Só o tempo dirá se rodam ou não numa estrada sem saída.

Guias: Filipinas+