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Pauliteiros em Acção

Pauliteiros em Acção

Pauliteiros dançam em honra de São Isidro, o padroeiro dos agricultores, na estrada que liga Mucusún a San Juan, nas imediações de Tostes.

Pueblos del Sur, Venezuela

Por uns Trás-os-Montes Venezuelanos em Festa

Em 1619, as autoridades de Mérida ditaram a povoação do território em redor. Da encomenda, resultaram 19 aldeias remotas que encontramos entregues a comemorações com caretos e pauliteiros locais.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Enquanto descemos das terras elevadas de Mérida (1.610 m) por uma longa estrada de desfiladeiro, o cenário abrigado entre encostas íngremes torna-se, primeiro, mais árido e logo pedregoso e salpicado por cactos. Quase meia-hora de pendente depois, alcançamos Las González e damos com o portal de entrada para os PueblosdelSur decorado com um painel semi-político que classifica o destino como turístico e, ao mesmo tempo, promove a figura de Marcos DíazOrellana, o governador bolivariano do estado.

O rio Chama broa por ali, acelerado pelo declive que o faz desaguar ainda mais depressa no lago Maracaibo, de cujas margens a Venezuela extrai a maior parte da sua riqueza petrolífera. 

Atravessamo-lo por uma velha ponte de ferro com aspecto de campanha. Na margem oposta, tem início a ascensão para as montanhas e vales em que se escondia o destino final.

A estrada de asfalto prova-se desgastada, sinuosa e cada vez mais estreita. O desfazer de uma das suas curvas e contracurvas revela-nos um motociclista-artista da região que se havia detido junto a uma paredão argiloso e ali trabalhava numa escultura comemorativa, de canivete em riste e capacete colocado com a viseira para baixo, para se proteger da poeira que a sua escavação provocava.

À conta da paragem propositada do autocarro e da curiosidade do grupo multinacional de passageiros, o trânsito deixa praticamente de fluir.

Somos forçados a prosseguir caminho e voltamos apenas a deter-nos à chegada a um lugarejo de nome Mucusún. Ali, surpreende-nos um bando de nativos enegrecidos trajados apenas com saias de vime e coroas de penas e plumas, todos eles pauliteiros solidários que dançam entregues à música chiadeira de um violoncelista acompanhado por dois tocadores de viola e a uma coreografia que privilegia a soltura de movimentos. 

A exibição destes índios Cospes homenageia a Virgem de Coromoto. Em tempos, os Cospes foram refugiados da colonização e evangelização forçada dos espanhóis. Até que a Virgem lhes apareceu na selva de Guanare em que se refugiavam e os incitou a baptizarem-se a converterem-se. Quase todos os indígenas aceitaram. Não foi esse o caso do cacique - de nome Coromoto - que receava perder a sua importância. Coromoto fugiu mas a Virgem voltou a aparecer-lhe.

Irado, Coromoto tentou agarrá-la mas a Virgem desapareceu, materializada numa pequena estampa vegetal que viria a ser encontrada e venerada pelos venezuelanos. 

Quanto a Coromoto, o cacique foi mordido por uma cobra venenosa. Regressou moribundo a Guanare, onde, em transe, começou a pedir o seu próprio baptismo. Salvo da morte pela Virgem e convertido, tornou-se num apóstolo e rogou a um grupo de índios que ainda resistiam a também se converterem. Mais tarde, já com o nome católico de Ángel Custódio, morreu de velhice.

A dança desenrola-se entre uma plantação elevada e um casario rural oposto, coberto de telhas coloniais envelhecidas. Quando termina, o cacique dos “indígenas” inaugura um discurso o mais pomposo possível – mas, ainda assim, humilde - em que louva a chegada dos visitantes da FITVEN – a feira internacional de turismo venezuelana que havia suscitado toda a encenação - e, acima de tudo, a iniciativa do Ministério do Turismo da sua pátria em fazer daquelas paragens remotas um destino turístico.

Confrontamos Coromoto de câmaras em riste. O cacique regressa ao seu papel de líder dos indígenas fuliginosos. Pega num arco cupídico de madeira e faz-se ainda mais selvagem. Aponta-nos o seu arquinho e a flecha proporcionalmente diminuta. Ao mesmo tempo, esconde a face e emite gritos e uivos de criatura em pânico, intercalados com bufos de fúria.

Acompanhamos o acto até ao índio Cospe lhe pôr cobro. Depois, regressamos ao autocarro benzidos pelo som de uma maraca que passa a tocar na nossa direcção.

Continuamos serra adentro perseguidos por uma carrinha pick up carregada de índios cospes que se haveriam de juntar à festa mais à frente. Chegamos às imediações de Mucuambin e a cena repete-se mas, desta feita, a cores.

Descemos para a beira da estrada e somos prendados com as danças frenéticas de paliteiros, muitos em trajes garridos repletos de franjas, em estilo de caretos das Américas e homenagem a San Isidro, o santo padroeiro dos agricultores. Cada qual exibe o seu visual irreverente, também máscaras que incluem cabeças medonhas de cabra, vaca e outros animais domésticos, eternizações fascinantes de cultos e rituais totémicos dos povos chibcha e arawak com que os colonos espanhóis se debateram no século XVI e que acabaram por aniquilar ou assimilar.

Até bebés se sujeitam à tradição. Vemo-los adormecerem ao colo, em  vestes reduzidas com os mesmos padrões das dos mais velhos enquanto alguns adultos capricham na infantilidade e cavalgam sobre cavalitos de pau no meio de uma roda de pauliteiros incansáveis. Também ali, o espectáculo chega ao seu término. Regressamos mais uma vez à boleia do autocarro da organização. Dessa feita, segue-nos um bando folclórico de motociclistas movidos pela satisfação do dever cumprido.

Vencidas mais umas curvas quase sempre sobre abismos e uma enorme ladeira que atravessa o vale repleto de milharais do rio San José, chegamos à praça central da cidade homónima, aquela que é considerada a povoação nuclear dos Pueblos del Sur. Junto à esquadra de polícia, um mural a negro junta o trio Chávez, Castro e Morales e valida o bolivarianismo da municipalidade com a máxima “No estamos dispuestos a dejarle a nuestros hijos una pátria reducida a escombros por el capitalismo”. 

Uma multidão ansiosa aguardava a vinda da comitiva à sombra das árvores e, alinhada numa diagonal vertiginosa, sob os telheiros do casario secular. Mal damos entrada na praça, em vez de locos, é um batalhão de locainas também com grandes cabeleiras e em longos vestidos antigos de cores vivas que assume o protagonismo.

Fazem ressoar os inevitáveis paulitos uns nos outros. Esse ritmo, sincronizado com o dos tambores, mantém os moradores - habituados àquela animação apenas noutras alturas do ano – sob uma espécie transe.

O dono do negócio mais bem localizado da aldeia, de chapéu de vaqueiro, não se faz rogado e factura muitos bolívares extra, abrigado entre um balcão de madeira envelhecido e prateleiras mal arrumadas.

Também Marilin Fernández, a vizinha do lado, cede ao chamariz do lucro. Aproveita a disponibilidade da sua geleira decana e improvisa a sua própria bodega que assinala com um simples rectângulo de papel escrito a marcador sobre a janela.

“Venham ver o meu forno de lenha!”. Convida-nos para compensar a  resistência rebelde da sua mais jovem filha ao convívio com os forasteiros. Não pensamos duas vezes. No interior do lar, damos com divisões espartanas e lúgubres mas também com um pátio central a céu aberto que pouco ou nada teria mudado desde a construção pós-medieval do domicílio. Nesse mesmo pátio, Carolina produz-se com grande minúcia ao espelho, sempre de olho no neto de Marilin mas, mesmo assim, esperançada de ainda apanhar o melhor da romaria.

Lá fora, a comemoração tinha-se mudado para uma pequena hacienda a que autoridades de ocasião haviam restringido o acesso por forma a evitarem uma indesejada enchente.

Sobre a relva da fazenda, tem lugar um banquete de almoço e uma exibição mais ampla da vida e das festas tradicionais dos Pueblos del Sur.

Há um trapiche histórico em regime de self-service. E uma espera a que alguns visitantes se sujeitam para conseguirem copos de sumo de cana-de-açúcar acabado de espremer. Sob telheiros próximos, outro conjunto de músicos toca temas famosos entre os nativos. Vendedores dão a conhecer artesanato e o sabor dos principais pitéus da região.

Ainda nos juntamos ao público entusiasta de uma peça de teatro musical, feminina e juvenil que aborda as dificuldades em encontrar o homem certo para o casamento.

Mas, há muito que nuvens escuras como breu se apoderavam do vale. Mal a peça termina, desata a chover a potes e todo San José se refugia da mais que garantida molha. Detemo-nos entre a hacienda e a praça central junto a um grupo de adolescentes que haviam terminado uma qualquer prova desportiva e se premeiam com sorvetes caseiros embalados em sacos. Um deles ouve-nos dialogar e pergunta se somos portugueses. “Pois, bem me parecia que estava a reconhecer essa maneira de falar. Há mais uns poucos por aí. Já há muito que não falam como vocês mas de certeza alguns vos percebem bem melhor que eu!”.  Esperamos que o aguaceiro ceda à bonança e regressámos ao coração daquele Pueblo del Sur em êxtase atentos a sinais de vida dos inesperados descendentes de luso-venezuelanos.

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