Esconder Legenda
Mostrar Legenda
Resistência

Resistência

Soldados da IDF removem um judeu ultra-ortodoxo.

Jaffa, Israel

Protestos Pouco Ortodoxos

Uma construção em Jaffa, Telavive, ameaçava profanar o que os judeus radicais pensavam ser vestígios dos seus antepassados. E nem a revelação de se tratarem de jazigos pagãos os demoveu da contestação


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Uma qualquer tempestade de areia longínqua enche de pó a atmosfera sobre o litoral centro de Israel e a marginal que acompanha as praias mediterrânicas de Telavive não foge à regra. É algo que pouco preocupa os inúmeros atletas que vemos a percorrê-la mas, logo ao lado, os vendedores da feira da ladra a leste da rua Yekef não largam os espanadores, determinados em manter uma aparência minimamente digna das suas relíquias e antiguidades. Por comparação, a azáfama destes é absolutamente mundana para outros conterrâneos, envolvidos em reivindicações e batalhas superiores.

Deixamos o bazar e avançamos em direcção ao casario que ocupa a encosta da velha Jaffa mas nunca chegamos a completar o trajecto. Capta-nos a atenção uma mancha negra formada por um batalhão de judeus ultra-ortodoxos encerrados por barreiras metálicas azuis e controlados por elementos da polícia local, trajados com uniformes de aparência militar e também por soldados das IDF – Forças de Defesa de Israel.

Ouvimos clamores espontâneos e desgarrados, intercalados por outros colectivos que um ou outro haredim com perfil de líder faz questão de lançar. Aproximamo-nos, curiosos, e não demoramos a obter de um polícia a explicação superficial de tão estranho alarido. Em 1993, durante escavações de uma obra, foram descobertos vestígios arqueológicos num cemitério do bairro de Andromeda Hill. A comunidade ultra-ortodoxa judaica convenceu-se de que ali se encontravam jazigos ancestrais sagrados e montou uma operação de protesto contra a profanação das sepulturas, imperdoável aos olhos do judaísmo que professa a existência da vida depois da morte.

O assunto depressa cruzou mares e chegou ao julgamento dos poderosos judeus americanos. Como consequência, o Congresso Rabínico Central determinou que se organizassem sucessivas manifestações.

Várias tiveram lugar em frente da casa de Manhattan do magnata do imobiliário Aby Rosen, entretanto acusado de, em equipa com o sócio Michael Fuchs perpetrar a heresia para poder continuar com a construção do “Eden”, um hotel de luxo com valor estimado de 480 milhões de euros.

Dois outros protestos, em particular, destacaram-se pela dimensão impressionante que atingiram. Um concentrou 10.000 judeus ortodoxos junto à sede da RFR (a empresa dos investidores) no número 390 da Park Avenue. O outro teve lugar em Washington e reuniu cerca de 7000 participantes. Mais ou menos ao mesmo tempo, em Jerusalém e Beit Shemesh foram reunidas forças contestatárias que viajavam frequentemente de autocarro para Telavive. Vimo-las entrar em acção nas imediações do cemitério de 3000 anos.

Primeiro na expectativa, alguns haredim juntam-se em pequenos grupos. Dedicam-se a conspirar entre si e partilham expressões de aparente regozijo que nos sugerem terem chegado ao plano ideal para vencerem os desafiadores. Outros, concentram-se nas páginas de Toras portáteis e ensaiam leituras de orações que estão certos provarem a legitimidade das suas convicções.

Percebemos como vibram com a leitura. E como convocam os crentes próximos para lhes mostrarem, orgulhosos, as virtudes dos trechos religiosos mais comoventes. 

Os chapéus pretos - borsalinos, fedoras, shtreimels, kolpiks, trilbys – e algumas kipás protegem-nos do sol que rompe a névoa dominante mas não escondem as peots (canudos que caem das têmporas) que, a cada movimento, ondulam e afagam as barbas fartas.

Notamos um óbvio predomínio de rekels (fatos negros) mas também alguns kaftans (fatos negros com listas douradas e azuis) que confirmam a presença de comunidades distintas do judaísmo, caso da Yerushalmi Haredim.

Algum tempo depois, chega ao local o Rabi Yitzhak Tuvia Weiss – líder da seita anti-sionista Eda Haredit – curiosamente de carro, apesar de toda a área estar vedada ao trânsito.

Acompanhado de um séquito fiel, este Rabi junta-se de imediato à multidão ultra-ortodoxa e inaugura um período de oração comunal. Em seguida, recupera os protestos que conduz sem cerimónias.

”Amaldiçoamos a saúde, a família e o sustento de todos aqueles que participaram na dessacralização destas sepulturas.” grita um haredim já consciente da presença de jornalistas estrangeiros. “Todos aqueles envolvidos na danificação deste cemitério e solo pagarão com as suas vidas – e estas maldições já se provaram reais no passado”.

Depois da oração e das intimidações, os manifestantes tentam deixar as barreiras que os limitam e forçar o cordão policial para se dirigirem ao local do crime. Quando os agentes os barram, entram em confronto físico e têm lugar algumas detenções. Não satisfeitos, atiram pedras, garrafas e outros objectos aos polícias, por essa altura, já apoiados por forças especiais e até por um helicóptero.

Um fotógrafo judeu que antes tinha confraternizado com os haredim regista os acontecimentos de forma ávida. Mas, quando os manifestantes são conduzidos de volta ao interior da vedação, retoma o convívio e, a pedido dos crentes, mostra-lhes as fotos mais impactantes da agitação. Logo após, aborda-nos para tentar perceber de onde vimos e para que órgão trabalhamos, preocupado com o aspecto profissional do material fotográfico que usamos e com a possível quebra da sua, até então, incontestada exclusividade.

Num ápice, os protestantes recuperam energias.  Retomam a carga verbal em coro e chamam aos polícias e militares das IDF “criminosos” e “nazis”. A alguns elementos de ascendência etíope destas forças são ainda dedicados insultos racistas específicos.

As autoridades recebem ordens para mover a manifestação para um parque público nas imediações e a medida reacende o conflito. Segue-se uma instrução superior de desmobilização total dos haredim.

Estes voltam a responder. Incendeiam caixotes do lixo e atiram mais pedras. Dois fotógrafos que tinham entretanto chegado são atingidos e um deles sangra abundantemente da cabeça. O motim agrava-se mas os agentes policiais e militares israelitas estão habituados a lidar com problemas bem piores. cumprem as ordens, em três tempos.

Resta aos haredim o queixume. Erla Yekter, um dos organizadores lamenta-se: “Estas pessoas vieram aqui para rezar e protestar. Se há violência, é só da parte da polícia, não dos protestantes.” E reforça as suas razões: ”as pessoas pagaram pelos jazigos e agora vão construir por cima deles e vender a terra que eles compraram”.

Meses depois, a Autoridade Israelita de Antiguidades anunciou o fim das escavações mas não só. Chegara à conclusão de que as sepulturas do controverso cemitério nada tinham que ver com os ancestrais judaicos. Tinham sido datadas da era Bizantina e Persa e, nos jazigos, entre as ossadas humanas, encontravam-se um jarro com um feto datado de 1800 a 2000 a.C. e ossos de porcos domesticados, oferendas que eram comuns entre as populações pagãs que ocupavam o actual território de Israel.

Estas conclusões não convenceram os haredim que continuaram a convocar protestos. Mais recentemente, as ossadas foram transferidas para a posse de um representante do Ministério dos Serviços Religiosos. A seita Atra Kadisha – outra organização responsável pela contestação – continuou a insistir que se tratavam de judeus porque os mortos tinham sido enterrados de acordo com o costume judaico, de costas e com as cabeças a apontar para Jerusalém. Ofereceu-se ainda para lhes organizar um funeral condigno. 

Guias: Israel+