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Gado

Gado

Vacas aglomeradas num curral da estância Swiss Agro, em Colónia Pellegrini.

Colónia Pellegrini, Argentina

Quando a Carne é Fraca

É conhecido o sabor inconfundível da carne argentina. Mas esta riqueza é mais vulnerável do que se imagina. A ameaça da febre aftosa, em particular, mantém as autoridades e os produtores sobre brasas.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Não há viagem pela América do Sul em que o procedimento não se repita e a Argentina, um dos maiores produtores de carne do mundo, tem aversão às excepções. “Buenos dias. Avanzen despacito para acá, por favor”, diz-nos com uma arrogância protocolar o oficial de serviço. Entramos no país das pampas vindos do Brasil, pela Ponte Internacional Tancredo Neves e, na fronteira, as autoridades da SENASA (Secretaria Nacional de Sanidad Agropecuária) obrigam-nos – como a quem quer que entre no país - a passar com os pneus do carro sobre os seus sagrados pedilúvios, grandes esponjas ensopadas de um líquido esterilizador. Em seguida, temos ainda que sair e fazer o mesmo às solas do calçado.

O responsável por estes cuidados redobrados e pelas longas filas de trânsito que se vão formando é um Aphtovirus altamente infeccioso que, apesar de conhecido há mais de 2000 anos, continua a disseminar a temida febre aftosa. Esta doença pode contagiar manadas de vacas inteiras em três tempos e provoca enormes perdas nas economias dos países que não se protegeram o suficiente. Na América do Sul, as epidemias têm sido recorrentes e geram rixas políticas vergonhosas sempre que os países se culpam mutuamente.

A Argentina, em particular, tem provas dadas de conhecimento de causa. Mesmo que o nome não o traduza, foi Scholein Rivenson, um doutor veterinário argentino de Gualeguaychú, província Entre Rios, que desenvolveu a primeira vacina eficaz contra a doença.

Nas semanas que se seguem, descobrimos os cenários remotos do noroeste argentino e, já em Corrientes, a zona alagada dos Esteros del Iberá, uma enorme extensão de lagoas e pauis que concorre em tamanho e riqueza de ecossistema com o pantanal brasileiro. Ali, após a beleza da paisagem e a miríade de espécies selvagens – dos caimões e jacarés às anacondas e capivaras – acaba por nos fascinar a crueza visual e a vida sedada de Colónia Pellegrini, uma aldeia pobre e alienada pelo isolamento a que foi votada nas margens da Lagoa Iberá.

Colónia Pellegrini conta apenas com algumas habitações térreas (algures entre a vivenda e o trailer), e uma ou outra mercearia quase sem provisões. Mas além da lagoa que atrai turistas e biólogos de todo o mundo, está cercada por estancias criadoras de gado que dão emprego a centenas de gaúchos algo deslocados da vastidão pampenha que tem início algumas centenas de quilómetros para sul.

Os quarenta milhões de argentinos compõem uma das populações que mais carne vermelha consome à face da Terra, para o que muito contribuem as famosas parrilladas, realizadas a toda a hora, por todo o país. Mas são também uma das principais nações exportadoras do produto, razões de sobra para - após os controlos fronteiriços iniciais - as manadas de gado de La Quiaca (na fronteira com a Bolívia) a Ushuaia (cidade mais a sul do mundo, capital da Terra do Fogo) serem frequentemente submetidas a medidas de prevenção.  

Ficamos hospedados nas imediações de Colónia Pellegrini. Após repetidas incursões madrugadoras de barco na vastidão inundada, a dona da Pousada de La Laguna suspeita que nos agradaria uma mudança drástica de planos e pergunta-nos se queremos acompanhar uma vacinação de vacas. A experiência não é de todo exótica para quem, como nós, teve o privilégio de viver o interior de Portugal mas a atmosfera selvagem-rural daquela região retirada da Argentina e a possibilidade de convivermos com um grupo genuíno de gaúchos em pleno trabalho de campo provam-se privilégios irrecusáveis. Aceitamos, de imediato, e, na manhã seguinte, entramos na carrinha do capataz da pousada que nos leva em direcção à estancia Swiss Agro, onde é esperado o veterinário. Encontramo-lo mais cedo do que contávamos, a caminho da quinta e em apuros.

El Doctor ainda não encontrou explicação para o fenómeno mas parece ser sempre assim: quanto mais tenta fazer render o tempo, pior lhe correm os dias. Faltavam-lhe quatro visitas até ao pôr-do-sol quando a tábua de uma das várias pequenas pontes que tinha que atravessar pelo caminho cedeu deixando-lhe a pick up presa ao estrado e as vacinas em risco de sobreaquecimento. O acidente faz parar quem passa mas, apesar de sucessivas tentativas solidárias de libertação do veículo, só um tractor ferrugento trazido mais tarde do pueblo resolve a encrenca.

Quando chega ao rancho, atrasado e irritado, o veterinário encontra tudo a postos para dar início à vacinação e o humor dos gaúchos residentes depressa lhe devolve a boa disposição: “Calma doctor!! Asi los animales se ponen nerviosos!”.

Estamos a entrar no pico do Verão do hemisfério sul e fazem mais de quarenta graus. Como se não bastasse, as movimentações do gado levantam nuvens de pó que invadem os olhos e o nariz e se agarram ao suor. O desconforto faz parte do quotidiano destes cowboys da pampa que o tentam aliviar usando chapéus, cintos e chiripás (saiotes) típicos de couro combinados com camisas leves e claras e lenços azuis. As suas vidas são passadas a cavalo e debaixo do sol e da chuva mas, apesar de o procurarem disfarçar, acabam por nos confessar que, entre todas as tarefas, é com as repetitivas vacinações que mais embirram.

A esforço, agrupam e conduzem as vacas dos currais para um corredor que as aperta e imobiliza numa espécie de espartilho de madeira. Ali, a um ritmo maquinal, o veterinário espeta a enorme seringa em dorso atrás de dorso e renova as doses mantendo uma contagem precisa das cabeças de gado imunizadas. São seiscentas e vinte na Swiss Agro, e a tarefa dura duas horas. Segundo a sua estimativa, uma das estancias programadas terá que ficar para a manhã seguinte. Não é nada que não lhe aconteça com frequência mas, desta vez, o atraso impõe-lhe um árduo castigo. Em vez de regressar a Posadas, como planeado, terá que pernoitar na isolada Colónia Pellegrini.

Apesar dos contratempos, a tarefa e o dever estão cumpridos e os gaúchos recuperam da correria enquanto a poeira levantada pelos animais assenta. Um deles, o sempre sorridente Pablo, descontrai a brincar com um cachorro da estancia sob o olhar indiferente dos companheiros.

El Doctor sai de cena com pompa e circunstância, enaltecendo as virtudes do seu trabalho. “Muy bién. Estas ya quedaran protegidas”. No se si saben, pêro solo en el Reino Unido, en 2001, la fiebre aftosa ha matado más de 6.000.000 de animales. Han perdido quasi 18 mil milliones de dólares. Imaginense eso acá en Argentina...”

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