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Via Crucis

Via Crucis

Figurante de Jesus Cristo é chicoteado por centuriões romanos durante a Via Crucis de Marinduque.

Marinduque, Filipinas

Quando os Romanos Invadem as Filipinas

Nem o Império do Oriente chegou tão longe. Na Semana Santa, milhares de centuriões apoderam-se de Marinduque. Ali, se reencenam os últimos dias de Longinus, um legionário convertido ao Cristianismo.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


César desesperaria perante o desempenho destes súbditos. Abril começou há uns dias e a amihan  - a monção do Nordeste e época seca do arquipélago filipino - vai a meio. O Sol brilha sem piedade mas o calor não chega para desmotivar um batalhão desgovernado de centuriões com vozinhas agudas que guerreiam por tudo e por nada  e provocam os espectadores de Boac, a capital da ilha que leva à cena o Festival dos Moriones.

O evento foi assim chamado por adaptação de morrion, o termo castelhano para os capacetes dos soldados de Castela que continua a definir os usados pelos foliões. E basta avançarmos até à era das Descobertas para compreender a ligação.

Em 1521, Fernão de Magalhães chegou às Filipinas ao serviço de Carlos V. Apesar de ter sido ferido de morte na ilha vizinha de Mactan, o seu sacrifício abriu as portas aos conquistadores espanhóis que, em breve, colonizariam o arquipélago enquanto os missionários que se lhes juntaram, se encarregavam de o converter ao Cristianismo.

Marinduque não escapou à sua acção. Em 1807, a ilha estava já dividida em várias paróquias e cada padre era livre de formar os novos fiéis como lhe aprazia, desde que de acordo com a bíblia. Diz-se que, na de Mogpog, agradavam, em especial, ao Frade Dionísio Santiago, as dramatizações populares e a personagem de Longinus.

Segundo os relatos dos Evangelhos, Longinus terá sido o centurião responsável por satisfazer os judeus em garantir que Jesus e os outros crucificados morriam e eram removidos do Calvário antes do pôr-do-sol, para evitar a profanação do Sabat. Segundo instruções superiores, deveriam partir-se as pernas aos que ainda estivessem vivos.

Quando Longinus se aproximou de Jesus este pareceu-lhe morto mas, para ter a certeza, o centurião, que só via de um olho, decidiu perfurar o corpo com a sua lança. Gotas de sangue caíram-lhe sobre a vista cega e curaram-na. Longinus e dois outros centuriões testemunharam, então, diversas manifestações divinas, incluindo a Ressurreição, o que os levou a aceitar, com remorso, que Jesus era realmente o filho de Deus. Esta inesperada conversão provocou a ira tanto dos judeus como dos romanos e obrigou o centurião a fugir para a Capadócia onde passou a professar o Cristianismo. Mas as calúnias dos judeus instaram Pilatos a enviar soldados para o capturar e decapitar, destino a que o perseguido acabou por se submeter.

Com o passar dos anos, em Marinduque, a história foi simplificada e o drama é tratado com uma combinação de respeito e da famosa descontracção do povo mais latino da Ásia.

Durante toda a semana, Mogpog, Boac, Gasan e Santa Cruz são atormentadas por legiões irrequietas. Surgem grupos de centuriões anacrónicos, que percorrem as praias e se apoderam de casamentos, onde se atrevem a raptar os noivos. Formam colunas militares coloridas e invadem as lojas com exigências de donativos generosos a que a maior parte dos comerciantes tem prazer em ceder.

Alguns nativos contribuem com a sua arte, como Regis e os sobrinhos, que esculpem com dedicação e mestria os moriones mais reais da ilha.

“Vivemos e trabalhamos nos Estados Unidos durante a maior parte do ano ... “ confessam os rapazes que vestem equipamentos das suas equipas de basquete norte-americanas preferidas. “ ... mas quando chega esta altura, arranjamos sempre maneira de vir até cá ...”

Outros ainda, preferem trabalhar e divertir-se ao mesmo tempo e fazem-no mascarados. Encontramos motoristas de jeepneys (autocarros folclóricos filipinos) e de rickshaw, mas também funcionários de repartições públicas, empregados de mesa e até jardineiros. Dentro dos uniformes e das máscaras, o calor é atroz e, muitos, encaram as suas participações no festival como penitências, mas, vistas as coisas de uma forma comparativa, não passam de brincadeiras.

Quando chega a tarde de Sexta-Feira Santa é realizada a Via Crucis. Voluntários devotos desempenham o papel de Jesus e dos dois ladrões e, sob um sol inclemente, carregam as cruzes até um gólgota local.

Também durante a procissão os moriones fazem das suas. Sob o pretexto do realismo, mandam chicotadas violentas nas cruzes e, demasiadas vezes, nos mártires, que têm que apelar à ajuda divina para não ripostarem e se manterem fiéis à representação. Em simultâneo, os esgares sádicos dos centuriões - que ali exibem as melhores máscaras de Marinduque - e a dor que vão infligindo impressionam e angustiam, por solidariedade, os espectadores mais sensíveis.

No Calvário, prosseguem, sem exageros, os acontecimentos históricos. Em vez de pregados, Jesus e os dois ladrões são amarrados às cruzes pelos soldados romanos e reverenciados pela multidão. Representa-se o milagre de Longinus. Pouco depois, Jesus é trazido ao solo e entregue às mulheres que choram a sua morte. Uma vez removidas as cordas que delimitam o cenário, o público corre para se fotografar na companhia dos seus actores preferidos.

Chegado o fim de semana, os moriones voltam à carga e Longinus assume um protagonismo ausente das celebrações. Encontramo-los numa escola de Mogpog - a povoação-berço do festival – onde se realiza um concurso que premeia as melhores máscaras e trajes, segundo diversas categorias. Do cimo de um palco, em tagalog (o dialecto nacional) o apresentador de serviço agradece a um sem número de entidades e pessoas e explica aos concorrentes as regras da competição.  Quando a prova começa, a visão a partir desse mesmo palco revela-se surreal. Numa pista improvisada sobre o pátio da escola, centenas de moriones tresloucados “twistam” lado a lado a coreografia de i tak ta mo, a banda sonora de um programa televisivo idolatrado nas Filipinas. E um painel de júris observa-os compenetrado, conferenciando e elaborando misteriosas apreciações. As exibições duram uma eternidade e deixam os participantes de rastos mas chega-se, por fim, ao veredicto e os vencedores recebem os seus prémios.

Quando os espectadores menos esperam, Longinus surge do nada e é perseguido por uma multidão de centuriões que se esforçam para atrasar a sempre iminente captura. Segue-se uma decapitação dramática que chegue que, emociona e salpica o público, deixando a cabeça do romano sobre uma poça de tinta cor-de-rosa.

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