Esconder Legenda
Mostrar Legenda
Combate

Combate

Árbitro deixa cair dois galos adversários e dá início a mais um combate.

Filipinas

Quando só os Galos Despertam um Povo

Banidas em grande parte do Primeiro Mundo, as lutas de galos prosperam nas Filipinas onde movem milhões de pessoas e de Pesos. Apesar dos seus eternos problemas é o sabong que mais estimula a nação.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Entramos no quarto do pequeno hotel de Manila cansados de uma recente aventura na Indonésia. Para descontrair, ligamos a TV e entregamo-nos, por momentos, a um zapping descomprometido e curioso. Desprezados inúmeros programas banais, deparamo-nos com um plano apertado de duas aves hesitantes numa pequena arena e o insólito capta-nos a atenção.

No vizinho Japão, seria o exotismo pesado do sumo que nos atrairia, nos EUA, o desafio masoquista de tentar perceber o encanto do basebol, na Tailândia, talvez o muai thai (boxe tailandês). Mas acabámos de chegar às Filipinas. O desporto nacional são, ali, as lutas de galos (sabong) e, a prová-lo há um canal dedicado que as transmite horas a fio enriquecido por análises e comentários entusiásticos em tagalog, o dialecto nacional.

Desenvolvemos um inesperado interesse pela excentricidade cruel desta tradição introduzida há séculos pelos colonos espanhóis.  Aproveitando a descoberta das Filipinas, resolvemos, assim, investigar e fotografar alguns torneios realizados em galleras de distintas ilhas, num périplo de cockfighting que começaria em Bohol, passaria pela improvável Marinduque e teria fim em Busuanga, parte do remoto grupo Calamian.

É num dia escaldante que entramos no recinto de Dauis, em Bohol, infernizado pela cantoria de centenas de galos de crista levantada e onde os combates já decorrem. Ainda cá fora, em cabines construídas para o efeito, especialistas que nos dizem bem pagos atam tares (lâminas em forma de espora) nas patas das aves lutadoras recorrendo a pequenas malas onde as mantêm criteriosamente arrumadas. Mas, malgrado a sua abundância e diversidade, um aviso afixado no contraplacado de fundo alerta: “Não são permitidas lâminas duplas”. 

Logo ao lado, vários criadores/treinadores atiçam os seus competidores uns contra os outros para os excitar e exercitar e um veterinário de serviço limpa e cose feridas de galos já atingidos, tentando salvá-los para combates futuros. Alguns metros para diante, são pesados os próximos concorrentes do dérbi, numa balança minimal que confirma as suas categorias. 

Apesar do frenesim e da intensidade do evento, a inesperada presença dos fotógrafos estrangeiros atrai as atenções e suscita uma série de reacções extemporâneas.

Chamam-nos à proximidade de um homem forte que traja uma camisola de alças largueirona e informam-nos com entusiasmo e reverência: “Ele é que é um dos grandes campeões! Já repararam no braço? Só quem tem muitas vitórias pode fazer uma assim!” Por esta altura, o herói visado revê-se já nos elogios e vira o seu bíceps direito para expor o galo lutador que tatuou com tinta negra.

Continuamos a percorrer o exterior da gallera, missão cada vez mais complicada devido à aglomeração de gente junto à zona das bilheteiras. Quando entramos, por fim, no sabungan (arena), a atmosfera é densa e o zoar já audível lá fora torna-se ensurdecedor.

A anunciar um novo combate, os termos meron e wala são gritados vezes sem conta e combinados com gestos similares aos da bolsa pela multidão exclusivamente masculina. Define-se, dessa forma, quem quer apostar uma quantia alta (milhares de pesos) ou baixa (centenas de pesos). Assim que o confronto tem início, os gritos histéricos passam a incentivar também os galos em competição.

Em Coron, no sul do vasto arquipélago filipino somos apresentados  ao duvidoso Ricky Balboa, um promotor de derbies (inclusive daquele a que vamos assistir) que confessa, com orgulho mal disfarçado de gangster, ter sido expulso do Canadá por organizar combates (ilegais naquele país, como em quase todo o mundo dito civilizado).

Enquanto conta as notas de pesos que recebeu dos apostadores, Ricky descreve outras das suas peripécias marginais e, cedendo a uma manobra improvisada de marketing, deixa-nos passar para junto de si, no interior do cockpit, algo que o público mais próximo nos afiança ser um privilégio de poucos.

Aproveitamos a gentileza, e depressa nos vemos numa situação surreal, cercados por grades e por centenas de espectadores excitados que tudo fazem para combinar apostas. 

Um filipino mais atrevido tenta a sua sorte com os estrangeiros e, mesmo sem intenção, incita outros a desafiar-nos, o que vamos recusando com o humor possível por uma questão de princípio ou - nem que fosse só por isso - por não sabermos avaliar sequer a diferença entre o llamado (o favorito) e o dejado (o aspirante), como são chamados na terminologia local. 

A competição é então retomada e os treinadores soltam os seus galos desencadeando agressões imediatas e violentas que fazem voar penas e nos obrigam a movimentações rápidas em redor para evitarmos sermos feridos pelos animais.

Por norma, os ataques começam enérgicos, com grandes saltos de patas em riste mas as aves perdem fulgor à medida que sofrem danos. Golpe após golpe, torna-se necessária a intervenção do árbitro para as reavivar e reatar a luta que só deve terminar quando um ou ambos os galos se imobilizam de vez. Nessa altura, a decisão do sentensyador (juiz) é inapelável.

E, para que não restem dúvidas, a determinação surge escrita a vermelho e é oficializada, em inglês, num painel com quatro faces que coroa a arena: “Judge decision is final.”

Concluído aquele combate, há um intervalo de vinte minutos e logo as apostas se reiniciam prolongando um ciclo que dura toda a tarde e gera uma atmosfera cada vez mais fumarenta.

Empregados de Ricky levam os galos perdedores abatidos ou demasiado feridos para o exterior onde são imediatamente depenados (alguns revelando golpes atrozes) e cozidos. Ao mesmo tempo, os criadores derrotados enfrentam a desilusão.

Já os felizardos são identificáveis sem esforço em redor da gallera. Passeiam os seus galos com cuidado extra, trocam piadas fáceis com outros apostadores satisfeitos e exibem as patas que cortaram, como troféus, às aves a que tiraram a vida.

Sempre que passam de eliminatória, os galos triunfadores enriquecem os seus donos que assim recuperam e multiplicam o dinheiro neles gasto, investido em rações especiais, medicamentos, noutros tratamentos e na inscrição no dérbi.

Cada registo ronda os 100 euros nas pequenas povoações mas pode custar infinitamente mais nos grandes torneios transmitidos pela TV, em que se envolvem tanto a classe média filipina como os VIP’s abastados do país, incluindo actores e políticos influentes.

A derradeira felicidade cabe aos vencedores supremos de cada dérbi que, entre todos os eventos a que assistimos, arrecadavam um mínimo de quase 2000 euros (120.000 pesos), muito dinheiro para o nível de vida sofrível das Filipinas mas apenas uma ínfima fracção do que está em jogo nas competições de nível nacional e internacional.

As lutas de galos não são originárias ou exclusivas das Filipinas, longe disso. Várias outras nações da Ásia, do Pacífico, da América Central e do Sul e até o arquipélago espanhol das Canárias (onde, por contraste, é proibida a tourada) partilham o fervor pelo desporto mas nas Filipinas, o fenómeno atinge proporções únicas. De tal maneira que o gigantesco Araneta Coliseum de Quezon (cidade próxima de Manila) acolhe duas vezes por ano o World Slasher Derby. Durante esta competição multimilionária, que goza de apoios governamentais directos e indirectos, enfrentam-se, ali, os melhores galos lutadores do mundo. E os filipinos vibram mais que nunca.

Guias: Filipinas+