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Muito que escolher

Muito que escolher

Trabalhadores seleccionam nozes de cacau na roça de Água Izé, no sul de São Tomé.

São Tomé e Príncipe

Que Nunca Lhes Falte o Cacau

No início do séc. XX, São Tomé e Príncipe geravam mais cacau que qualquer outro território. Graças à dedicação de alguns empreendedores, a produção subsiste e as duas ilhas sabem ao melhor chocolate.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O senhor Armandinho conduz a pick up de serviço do patrão, o Secretário de Estado da Economia Silvino Palmer, pela estrada vermelha e sinuosa que sulca a selva luxuriante de Príncipe entre Santo António - a única cidade da ilha – e as profundezas do mato para sul. Passada a roça de Porto Real e a aldeola também decadente de São Joaquim, apontamos para Terreiro Velho. A propriedade desperta antigas memórias na mente de Armando. Para nossa fortuna, o antigo avançado da selecção nacional santomense não se furta a partilhá-lhas. “Ora, então agora estamos a caminho do Terreiro Velho. Tem uma vista fabulosa, vão ver. Era de um senhor português chamado Jerónimo Carneiro. Sabem como é que a ganhou? À batota!” “À batota? Mas que tipo de batota?” perguntamos-lhe, intrigados pela simplicidade da descrição. ”Armandinho mostra-se surpreendido pela nossa ignorância: “Oh, que batota acham que foi ? Às cartas, claro! Não me peçam pormenores que eu não estava lá mas quase toda a gente da minha geração sabe disso.”

Mais tarde, à conversa com Silvino Palmer, no seu gabinete, este mostrou-se inclinado para que não tenha sido bem assim. E, no entanto, Armandinho tinha todas as razões para conhecer a estória, fosse ela ou não real. Armandinho habitava desde sempre na roça Sundy, também ela, em tempos, propriedade da família Jerónimo Carneiro. Os seus pais tinham chegado ao Príncipe numa das levas de emigração de Cabo Verde, vindos da ilha da Praia. “Quando? Isso já é mais difícil de dizer. Ora eu nasci em 1953.” Informa-nos, sem hesitação. “Tenho ideia que foi logo a seguir à guerra.”

A estrada conquista uma colina, abre para a clareira elevada e revela um portão. “Já cá estamos, diz-nos do lugar do pendura, Francisco Ambrósio, antigo estudante de Castelo Branco e aspirante a vedeta do futebol europeu a quem os planos saíram furados, agora professor de várias escolas do Príncipe. Um outro jovem encarregue de guardar roça abre-nos passagem e dá-nos permissão para a explorarmos.

Deixamos o questionário sobre Jerónimo Carneiro e a viatura e saímos à descoberta, guiados por Armando, Francisco e por Eduardo, amigo do segundo, que fizera todo o caminho, ao ar livre, sobre a caixa da pick up.

Reparamos nos carris miniatura do caminho de ferro antes usado para conduzir os carregamentos de cacau das plantações até aos secadores e admiramos o edifício principal da roça. “Olhem aqui!” sugere-nos Armando que conversa com o capataz da propriedade no limiar do terreno elevado. Avançamos até debaixo das grandes árvores que lhes concediam sobra. Dali, na sua companhia, desvendamos uma enseada em forma de coração, preenchida por um Golfo da Guiné cor de turquesa que se embala suavemente contra a tropicalidade da ilha. O mato, em particular, é tão denso e invasivo que se apoderara até de dois cabeços rochosos mais próximos e do ilhéu do Boné de Joquéi, longínquo.

Enquanto apreciávamos o cenário, Francisco e Eduardo tinham descido à plantação que se estendia encosta abaixo. Passado algum tempo, reapareceram e ofereceram-nos frutos de cacau já partidos ao meio, maduros e suculentos. Meio desidratados pelo calor do meio da manhã, devorámo-los em três tempos. Tivemos, assim, o primeiro gosto da matéria-prima mais rentável e notória de São Tomé e Príncipe: dois maravilhosos cacaus, belos e amarelos.

Percebemos, entretanto, que, apesar do tamanho diminuto do Príncipe, com excepção para o capataz - que tinha no Terreiro Velho a sua segunda casa - fazia muito que os nossos cicerones ali não iam. Foi com um interesse partilhado mas muito pouca informação da sua parte que descemos a escadaria para a zona da escolha, da secagem e torrefacção, sob telheiros de chapa. Era Dia da Criança, uma espécie de feriado em Príncipe. Também se tratava ainda da primeira roça que visitávamos no arquipélago. Não nos inquietou por aí além a ausência de trabalhadores. Pelo contrário, o aroma achocolatado que irradiava dos depósitos ainda mornos saciou-nos os sentidos. Ao mesmo tempo, a certeza de que viríamos a ter inúmeras outras incursões cacaueiras sossegou-nos a curiosidade e o espírito criativo.

Uns dias depois, voamos para São Tomé. Como é suposto, na capital, visitamos a casa e fábrica de Claudio Corallo. O chocolateiro do momento recebeu-nos disposto a partilhar muita da sua sabedoria sobre o cacau e a arte de o transformar.

Apercebemo-nos então que, sem o sabermos, tínhamos feito o percurso ideal. Décadas após a vigência de Jerónimo Carneiro, o Terreiro Velho era agora pertença daquele expatriado italiano. E um domínio sagrado do cacau.

Como Cláudio explica aos seus sucessivos visitantes, até 1800, a produção cacaueira era exclusiva da América do Sul.  Após o virar do século, D. João VI apercebeu-se que Portugal ficaria sem o Brasil e garantiu que o cacau da Bahia – uma das maiores fontes de rendimento da Coroa – fosse transposto para São Tomé e Príncipe, a sua colónia mais tranquila e com clima mais compatível.

Em 1900, o arquipélago era o maior produtor de cacau do mundo. Contudo, em tempos mais recentes, os cacaueiros originais foram substituídos por outros, híbridos, mais produtivos mas, como concluiu Claudio Corallo, de qualidade inferior. Só a pequena e isolada ilha do Principe ficou a salvo.

Depois de ter vivido e produzido café no Zaire, Claudio Corallo viu-se forçado a deixar o cada vez mais instável Zaire de Mobutu Sese Seko. Em São Tomé e Príncipe, embarcou numa nova demanda pelo cacau e pelo chocolate perfeito. Na segunda das ilhas, Claudio começou por encontrar o Terreiro Velho e cacaueiros ideais para combater o maior problema de há muito do cacau e do chocolate: a amargura.

Durante a prova em que participamos na sua pequena fábrica à beira da avenida marginal de São Tomé, os primeiros momentos são dedicados a exemplificar como o cacau bem cultivado e processado – e, de acordo, o chocolate derivado – não são amargos, ao contrário do que se popularizou. A amargura é sempre produto de defeitos. Em seguida, Claudio dá-nos a provar e aos restantes participantes, nozes de cacau e chocolate com diferentes percentagens de cacau e de açúcar combinados com distintas espécies de café, passas, gengibre e outros. Fá-lo de forma tutorial para que as nossas vistas, gostos e olfactos perdessem o mínimo de informação. “Agora mordam tudo de uma vez só!” instrui-nos preocupado com que sentíssemos o sabor explosivo mas pouco durador de um determinado café arábica. Entre os vários sabores e aromas do cacau, do café e do chocolate, a experiência confirmou-se deliciosa. Sensibilizou-nos para como o verdadeiro chocolate é tudo menos aquilo que as marcas multinacionais colocam nas prateleiras das lojas e hipermercados e para o papel fulcral de São Tomé e Príncipe - a segunda nação mais diminuta de África a seguir às Seychelles - no mercado mundial do cacau.

Com esta matéria-prima a dar lucro crescente a partir do início do século XIX, mais proprietários e empresas portuguesas apostaram em novas roças cacaueiras em ambas as ilhas, invariavelmente com mão-de-obra assegurada por trabalhadores trazidos de Angola, mais tarde de Cabo Verde como cantou Cesária Évora em “Saudade” e até de Macau.

A produção de cacau do pequeno arquipélago revelou-se tal que frustrou as pretensões britânicas de liderar esse comércio e fez aumentar a pressão de Londres sobre aquilo que apelidava de trabalho escravo, ilegal por obedecer a contratos fictícios e não prever o direito de interrupção ou de regresso ao lugar de origem, apesar de, após a abolição da escravatura de 1876, ter passado a contemplar um pagamento.

Assim retratou Miguel Sousa Tavares o tema no seu famosíssimo best seller de 2003, “Equador”, protagonizado pelo pinga-amor Luís Bernardo Valença. No romance, Luís Bernardo é nomeado governador de São Tomé e Príncipe pelo rei D. Carlos. Após um curto período de adaptação ao desterro equatorial, mais que sentir compaixão pelos trabalhadores injustiçados das roças, o governador perde-se de paixão pela mulher do cônsul que a Grã-Bretanha despachara da Índia com a missão de se inteirar do incumprimento dos colonos portugueses. Em simultâneo, ganha a desconfiança e a inimizade da comunidade de proprietários e administradores.

Após o virar do século XX, a produção de cacau diminui em São Tomé e Príncipe, vítima de algum esgotamento dos solos mas acima de tudo da falta de escala do arquipélago, da concorrência internacional e, a partir da independência de Portugal, da inabilidade dos governos santomenses de aproveitarem as infraestruturas – muitas delas exemplares - construídas pelos maiores proprietários, para prosseguirem com uma produção que até vinha a recuperar de 1945 a 1975.

As roças ficaram ao abandono, com os seus antigos trabalhadores a habitarem as sanzalas sem condições de assegurarem, por si só, a manutenção das mansões dos proprietários, dos edifícios de laboração ou dos hospitais com que algumas roças contavam.

O cacau de São Tomé e Príncipe diminuiu. Não desapareceu. Os tempos passaram mas, algumas comunidades vivem hoje nas roças com condições apenas um pouco melhores que aquelas em que os seus antepassados mais longínquos envelheceram. O espectro do desemprego é de tal forma preocupante na pequena nação que o facto de uma roça continuar a produzir e a exportar cacau é tido como uma dádiva, e isto, por mais fastidioso e mal remunerado que seja o trabalho. Foi isso que constatámos quando, a caminho do sul de São Tomé, passámos na de Água Izé, uma das mais antigas, maiores e mais habitadas do arquipélago. Ali, num dos vários armazéns próximos da entrada, damos com uma equipa de escolha em plena laboração. Sobretudo mulheres santomenses descendentes de cabo-verdianos ou angolanos, de peles brilhantes e sorrisos difíceis mas gentis a removerem as nozes defeituosas das grandes gamelas, enquanto dois ou três jovens alinham grandes sacas já cheias, identificadas com “Cacau Fino. Água Izé. Product of São Tomé & Principe”.

Uma catrefada de cachopos aparece do nada e inaugura o seu inevitável peditório de “doxi, doxi”, “lapiseirra, lápiseirra” com cada erre a parecerem quatro como dita o curioso sotaque santomense. Poderá ter sido ou não a pedinchice das crianças a inspirar os mais velhos mas, quando os miúdos finalmente se acalmam, uma das trabalhadoras inaugura um canto crioulo, em tom agudo. Em três tempos, as restantes mulheres acompanham-na num hino partilhado que nos soou a lamento, como se tivéssemos recuado nos séculos à era local da escravatura ou do que se lhe seguiu.

No tempo em que ficámos por São Tomé, investigámos a realidade de várias outras roças. Nas de Porto Alegre, Bombaím, Monte Café, Agostinho Neto, fossem em quais fossem, a decadência dos edifícios repetia-se como uma inevitabilidade do destino. Em quase todas, o cacau continuava a alimentar uma já secular história de prosperidade e sobrevivência.