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Um cenário imponente

Um cenário imponente

Casario de Cilaos, no sopé do Piton des Neiges e de outros picos afiados da caldeira.

Cilaos, Reunião

Refúgio sob o tecto do Índico

Cilaos surge numa das velhas caldeiras verdejantes da ilha de Reunião. Foi inicialmente habitada por escravos foragidos que acreditavam ficar a salvo naquele fim do mundo. Uma vez tornada acessível, nem a localização remota da cratera impediu o abrigo de uma vila hoje peculiar e adulada.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Por alguma razão a estrada de acesso a Cilaos é única. Aproveitou a secção excepcional em que as vertentes quase verticais do coração da ilha dão um pouco de si e, mesmo assim, só chegou ao seu interior com um esforço dantesco de engenharia que teve início em 1927 e 32 árduos quilómetros depois, terminou em 1937. Antes da estrada, o acesso de e para a povoação, cravado na aresta da montanha era vertiginoso e de tal forma apertado que chegava a impossibilitar o cruzamento de caminhantes em sentidos distintos. Os aldeãos que avançavam para as cidades da costa com carros de bois atafulhados de bens tinham que esperar em zonas estratégicas ou para elas recuar para assim permitir o fluxo das pessoas. Como seria de esperar, as derrocadas e quedas mortais aconteciam com demasiada frequência.

Tomamos a ainda aventurosa RN5 à saída de Saint Louis, na costa sul da Reunião.  O percurso sinuoso do rio Bras de Cilaos serpenteia e estreita à medida que  nos aproximamos da sua nascente elevada. Estamos na época seca. Há um bom tempo que não chove a sério por estes lados. O leito amplo e pedregoso que contemplamos um precipício abaixo do asfalto prova o quão avassalador e assustador às vezes se torna o caudal, se alimentado pelos dilúvios que todos os anos encharcam a ilha. No seu âmago, o Cirque de Cilaos pode ser tão verdejante quanto extremo. De 7 para 8 de Janeiro de 1966, o ciclone tropical Denise varreu parte do oceano Índico, incluindo a Reunião. Nesse período de 24 horas, a pluviosidade contou-se em 1825 mm, um recorde mundial absoluto.

Continuamos a subir. Sentimos, cada vez mais próximos, os gigantescos paredões cobertos de vegetação, a espaços, percorridos por véus de noiva gentis que quebram a homogeneidade do verde. Por altura do Îlet Peter Both detém-nos um autocarro cor-de-rosa mais lento que não tarda a fazer-se ao túnel local. Temos a sensação que só por milagre se poderia enfiar naquela passagem subterrânea exígua. O que é facto é que, mesmo entupindo-a na totalidade, o transporte sai para o outro lado da vertente, connosco na cola. Encosta numa paragem desviada do trecho principal e recolhe um grupo de jovens que discute e ouve música a altos berros.

Pouco depois de o ultrapassarmos, avistamos os cumes afiados do Piton Papangue e do Piton des Calumets. Vencidos mais alguns esses, temos o Mare Séche à nossa esquerda, logo, damos com entrada da esquiva comunidade de Cilaos.

A tarde aproxima-se do fim. Os paredões íngremes que se impõem a toda a volta e só admitem o sol quando o astro anda por volta do zénite, precipitam a sombra e a escuridão.

Dessa feita, até tínhamos preparado a pernoita. Após algumas voltas ao quarteirão, encontramos a Casa Celina em que havíamos reservado um quarto. “Bon soir Monsieur, Madame, soyez bienvenus!” é tudo o que compreendemos sem esforço da jovem senhora que nos espera e recebe com simpatia mas um sotaque francês aparentemente nativo que depressa nos faz desesperar. Persistimos e lá desbravamos o briefing exaustivo que nos tinha que transmitir.

Instalamo-nos, abrimos as janelas da varanda. Apreciamos a vista que o lusco-fusco nesse momento azulava. Temos pela frente o casario de Cilaos, feito quase só de vivendas coloridas e, a delimitar a rua principal, de alguns edifícios com um máximo de dois andares, no computo geral, com visuais pouco ou nada históricos, ou demasiado pitorescos ou fotogénicos.

Todos os astros do universo pareciam ter-se instalado no firmamento que uma rara ausência de nuvens exibia resplandecente. Saímos para compras rápidas de víveres. No regresso, jantamos à luz das estrelas. Sondamos as silhuetas do topo da velha cratera em que nos tínhamos metido, apostados em detectar o seu auge e o auge terrestre do oceano Índico, projectado das profundezas de uma das suas mais exuberantes ilhas.

Com uma altitude de 3069 m mas situado no mapa pouco acima do Trópico de Capricórnio, o Piton des Neiges atrai quantidades industriais de chuva. Não se lhe conhecem, há muito, nevões visíveis quanto mais neves eternas. Tratam-se de fenómenos meteorológicos de tal forma raros na zona que se crê que o nome tenha prevalecido do último digno de registo, apreciado com espanto em 1735.

Habituados à vida numa Natureza descomunal, os habitantes da Reunião e grande parte dos visitantes deste improvável limite sul da União Europeia são ávidos randonneurs, caminhantes em formas físicas quase perfeitas que desafiam sempre que podem. Os mais extremos chegam a fazê-lo de formas surreais, como acontece, todos os anos, durante o Grand Raid Réunion, igualmente conhecido por Diagonal dos Loucos tal é a dureza dos seus mais de 160km com quase 10 mil metros de desnível positivo e um tempo limite de término de 66 horas.

Os moradores pioneiros do Cirque de Cilaos também chegaram numa correria insana. Fugiam ilha acima pela liberdade, alguns até mesmo pela vida.

Nessa altura, a Reunião mantinha ainda o seu nome francês original de Île Bourbon, atribuído pelos primeiros colonos gauleses em honra da família real de então. Por volta de 1715, a exportação de café, em breve assistida por uma forte intensificação da escravatura, concedeu à ilha um estímulo económico determinante. Os colonos franceses traziam os escravos da costa oriental africana mais próxima (incluindo Zanzibar e Moçambique) mas também de Madagáscar. Os proprietários chamavam-lhes marrons ou noirs marrons. Como era apanágio dessa era, tratavam-nos de forma sub-humana e despertavam em muitos servos revoltados, a urgência da evasão. Segundo reza a história, terão sido estes escravos, ou apenas um deles a baptizar Cilaos. Uma das teorias defende que o nome do lugar proveio da palavra malgaxe Tsilaosa que tem como significado “onde se está em segurança”. Uma tese concorrente vai mais longe. Diz que o cirque ganhou o seu nome de um único escravo malgaxe chamado Tsilaos que nele se teria refugiado por algum tempo.

O novo dia amanhece. Deixamos a Casa Celina preparados para explorar o quanto antes a povoação e o interior da caldeira. Começamos por percorrer a fascinante D242 que, se estende, até ao seu limite sudoeste, com um traçado próprio de montanha-russa. Passamos por detrás da Église Notre-Dame-des-Neiges de Cilaos, percorremos o ziguezagueado inaugural da rota - de longe, o seu mais curioso e extremo. Descemos em direcção ao leito do rio Bras de Cilaos, junto à Source Tête de Lion. Volvidos alguns quilómetros, detemo-nos para apreciar o casario agora longínquo de Cilaos.

Prosseguimos aos esses. Quase 15km depois, damos entrada numa povoação rural disseminada pelo relevo que lhe permitiu o assentamento. Parece-nos algo ressequida e incaracterística o que, naquele domínio em redor luxuriante, nos surpreende. Mesmo assim, reconhecemos-lhe um encanto de retiro derradeiro que as paragens de autocarro modernas e deselegantes não chegam a anular e que protagoniza a história tornada comum de Cilaos. Tínhamos chegado a Îlet-à-Cordes.

Uns dias antes, na casa de campo de um casal de jovens anfitriões franceses, nos arredores de Saint Pierre, Guillaume, adepto incondicional de uma vida simples - como difundia uma sua t-shirt - tinha-nos aconselhado: “eu, se fosse a vocês não ficava em Cilaos. Prefiro Îlet-à-Cordes, é muito mais genuíno.” Não tardámos a sentir que até poderia ter razão mas que, seguirmos a sua fobia pelas máculas da modernidade -  que o fazia, por exemplo, rejeitar Wifi em casa - iria comprometer os nossos planos de trabalho.

Com as suas vinhas, plantações de lentilhas, colmeias e outras produções biológicas exploradas por quase 431 moradores, Îlet-à-Cordes foi uma das primeiras povoações da Caldeira de Cilaos em que se refugiaram os escravos. Os marrons acediam à sua espécie de flanco de montanha com recurso a cordas que, uma vez instalados, removiam para que não deixassem rasto da sua presença, apesar de, ao invés, dali conseguirem avistar o mar e grande parte da costa sul da ilha.

Ainda assim, em 1751, o mais famoso dos caçadores de escravos da Réunião, Mussard, conseguiu aceder ao esconderijo. Lá encontrou dois campos de marrons, abateu três deles e confiscou um lote de armas e de utensílios.

Antes de nos dedicarmos a Cilaos, voltamos a passar por detrás da igreja da povoação e continuamos para estrada “irmã” da D242, a D241.

Achamos aqueles lados que conduziam ao extremo oposto de Bras Sec bem menos apelativos que o caminho para Îlet-à-Cord. Com excepção, claro está, para o início de um dos trilhos que conduzia ao cume do Piton des Neiges, uma ascensão de seis horas que a maior parte dos caminhantes inauguravam por volta da meia-noite, apontados a chegar ao topo a tempo do nascer mágico do sol.

Já tínhamos tido a nossa dose uns dias antes com a subida interminável de Le Maido ao Grand Bénard, dois outros cimos cruciais sobre as arestas dos Cirques. Estávamos prestes a entregar-nos à cansativa descoberta do Piton de la Fornaise, o vulcão activo da ilha. Sem tempo para tudo, vimo-nos obrigados a rejeitar de vez a conquista do Piton des Neiges e a regressar ao acolhimento de Cilaos.

Com a maior parte dos caminhantes a recuperar em suas casas dos trilhos extenuantes, a povoação entregava-se à paz de um novo crepúsculo. Nós, rendemo-nos à fama do doce vinho local.

Pegámos de estaca numa esplanada do centro e, antes que o estabelecimento encerrasse, pedimos dois copos e uma chamuça para cada um. “Só duas?” questionou a dona do bar como se o desejo não fizesse sentido. “Olhem que estas são das melhores chamuças da Reunião. Não querem antes um conjuntinho de cada recheio? “Pouco ou nada nos esforçámos por recusar a oferta. Em vez, deliciámo-nos com o petisco e recarregámos energias para sairmos à descoberta da povoação. À imagem do que acontece na restante ilha, partilham-na, hoje, habitantes das mais distintas etnias: franceses, africanos, indianos, malgaxes, árabes e chineses, entre outros. Enquanto percorríamos a rua principal e fazíamos novas compras na padaria e no supermercado local, algumas das combinações étnicas surreais que encontrávamos nas faces e cabelos dos residentes deixavam-nos abismados: grandes trunfas encaracoladas e alouradas combinavam com peles café com leite e olhos de um azul profundo ou verde-água. Outras, figuras marcadamente indianas, surpreendiam-nos com olhos amendoados, ausência de pálpebras e um ininteligível crioulo francófono, consequência da combinação genética com imigrados chineses. À imagem do que acontecia no resto da ilha, de igual forma na remota Cilaos a ilha fazia jus ao último dos baptismos. Também ali se provava uma exótica Reunião.