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Sombra de sucesso

Sombra de sucesso

Charro (vaqueiro mexicano) puxa um vitelo durante a prova de "colas en el lienzo", que consiste em derrubar um touro puxando-lhe a cauda.

Champotón, México

Rodeo debaixo de Sombreros

Com o fim do ano, 5 municípios mexicanos organizam uma feira em honra da Virgén de La Concepción. Aos poucos, o evento tornou-se o pretexto ideal para os cavaleiros locais exibirem as suas habilidades


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Seguíamos no banco de trás ainda despertos e atentos aos cenários em redor, apesar da viagem longa desde as ruínas de Edzná e os confins trópico-selvagens da península de Iucatão.  Instalado no lugar do morto, Wilberth Alexandro Pech mantinha-se também alerta e, entusiasmado por nos transmitir as peculiaridades dos lugares por que passávamos. “pois amigos, agora estamos a chegar a Champotón. Pode parecer-vos difícil de acreditar mas, o mar do Golfo do México que aí vêem nem sempre está assim imóvel. E foi neste mesmo litoral que, em 1507, Francisco Hernández de Córdoba fez aqui, depois de Campeche, a segunda escala da incursão hispânica ao interior destas partes das Américas. Os indígenas cocomes e tutul xiúes receberam-nos bem. Permitiram que se abastecessem de água e mantimentos e que prosseguissem à descoberta”.

Quando nada o parecia indicar e, chegados por terra, somos prendados com um acolhimento provavelmente ainda mais caloroso.

A tarde já ia a meio e a principal cidade do estado aproximava-se a olhos vistos. Mas um frenesim de beira-estrada desperta-nos a atenção e a curiosidade. “Ah, isto é uma das nossas feiras. Esta realiza-se em homenagem da Virgen de la Concépcion.” adianta-nos Wilberth.  Acho que vai haver mais um charreo. Ainda estamos com tempo. Querem lá ir espreitar?” Não pensamos duas vezes. Saltamos do carro, atravessamos a via e reassumimos um sempre bem-vindo modo de exploração.

Do lado de lá, um grupo de señoritas a cavalo avança ao longo de um muro que estabelece a fronteira da rua para o evento. Trajam vestidos fartos e coloridos de adelitas ou rancheiras. Preparam-se para regressar ao recinto e pouco se importam, muito pelo contrário, que as sigamos.

Damos com uma portão improvisado. Uma espécie de porteiro permite-lhes a passagem. Surpreso pela inesperada sequência, el charro de serviço pede a um colega que vá falar com alguém mais. Quando o emissário trás a resposta, convida-nos a entrar e dá-nos as boas-vindas. Depressa percebemos que tínhamos ingressado no partidero, a secção rectangular do lienzo charro (arena mexicana) em que a competição decorreria. Ali, dezenas de vaqueiros igualmente vestidos a rigor, confraternizam e ensaiam os passos e movimentos que estão prestes a exibir.

Um ou outro charros mais desinibidos abordam-nos com curtos diálogos de ocasião. Até que os congéneres os convocam para novos exercícios e ficamos por conta própria entre os muros brancos e os cavalos e cavaleiros ali encerrados.

A charreria está prestes a ter início. Um vaqueiro mais velho com ar e postura de líder surge do nada e trata de nos acomodar de forma menos inconveniente. “Amigos, se querem fotografar isto o melhor sítio é a varanda lá à frente. Mas olhem que a escada se partiu. Tenham cuidado a subir senão ainda ficam espetados num dos ferros.”

Passamos para o exterior e caminhamos ao longo do muro. Cruzamo-nos com vários outros participantes da charreria e com seus familiares e amigos. É então que começamos a sentir o espírito de comunidade de que se reveste o acontecimento. Com a ajuda de duas madres expectantes, encontramos o tal ponto de acesso, menos problemático do que o organizador o havia feito. Trepamos sem cerimónias e instalamo-nos no pequeno terraço de cimento já semi-ocupado por mais adelitas, por crianças e um anfitrião-apresentador-juiz do evento munido de uma prancha de notas e de um microfone.

“E aí esta Maz. Esse que vem para mais! Já está na porta. Carlos Maz, aí vem ele lá no fundo. Aí se aproxima Maz!”

Também de sombrero e uniforme charro, o apresentador, narra a acção das colas en el lienzo, uma das várias suertes charras em que são avaliados os concorrentes. Um a um, estes perseguem bezerros largados no início do partidero e tentam laçar-lhes as patas ou quartos traseiros de forma a imobiliza-los. O charro seguinte acerta apenas numa das patas e vê o vitelo fugir-lhe a espernear. À parte desse erro, comete outras falhas técnicas. Num hispânico campechano cerrado, o juiz apresentador faz-lhe as contas sem cerimónias. Do tagarelado amplificado, percebemos que tinha conseguido zero menos oito pontos e mais algumas desencorajadoras subtracções.

A feira já vinha a decorrer havia alguns dias e, o público não abundava nas bancadas. Ainda assim, os desfiles, as suertes charreas e as escaramuzas (acrobacias femininas a cavalo) sucedem-se com as jovens competidoras a montarem à la mujeriegas que é como dizer de lado enquanto, sobre o terraço em que permanecemos, outras admiram as exibições a decorrerem logo abaixo.

Bem junto a nós, uma adelita mais nova irrompe num pranto birrento e gera uma discussão que o pai resolve sem grande apelo.

Entretanto, a charreria chega ao fim. Descemos para o solo e, ao passarmos por uma carrinha pick-up, ouvimos de novo o choro que havia começado no terraço. Espreitamos pela janela e damos com a jovenzita que o pai colocara de castigo. Tentamos animá-la e acabamos por compreender finalmente as suas razões: “É que faz muito calor e eu já estava farta de usar a saia e aquela roupa toda. Queria pôr-me mais fresca mas o meu pai dizia que hoje era um dia especial e que tinha que aguentar.”

Conversa puxa conversa, lá conseguimos animá-la. Entre brincadeiras com o volante e muitas caretas, Aisse encanta-nos com a sua beleza mestiça e boa-disposição juvenil.

Lembramo-nos que temos Wilberth há muito à espera. Já nos dirigimos para a saída do lienzo charro quando somos chamados para uma mesa em que decorre um repasto improvisado. “ Sentem-se!” ordena o senhor que nos tinha dado concedido a entrada no evento. “Já trabalharam muito. Agora descansem e comam!”

Servem-nos refrescos e mixiote (carne de borrego assada). Os convivas também satisfazem a sua curiosidade com inúmeras perguntas sobre de onde vimos e o que por ali fazemos.

Saboreamos a refeição e a agradável hospitalidade enquanto podemos até que o sol surge a rondar o horizonte e nos relembra que já estaríamos a abusar da paciência do guia e do motorista.

Despedimo-nos daquela gente de coração quente e subimos mais um pouco pelo litoral oeste da Península de Iucatão, apontados a Campeche.

Guias: México+