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1001 Noites Russas

1001 Noites Russas

Cúpulas do kremlin de Rostov, considerado o mais impressionante da Rússia, a seguir ao de Moscovo.

Rostov Veliky, Rússia

Sob as Cúpulas da Alma Russa

É uma das mais antigas e importantes cidades medievais, fundada durante as origens ainda pagãs da nação dos czares. No fim do século XV, incorporada no Grande Ducado de Moscovo, tornou-se um centro imponente da religiosidade ortodoxa. Hoje, só o esplendor do kremlin moscovita suplanta o da cidadela da tranquila e pitoresca Rostov Veliky.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Mais que inesperados, o acolhimento e a visita guiada do padre Ignatio revelam-se mágicos. O sacerdote pouco ou nada falava além do russo. Ainda assim, de dentro da sua batina negra, a face bonacheirona e a barba farta quase ruiva de que pendia um grande crucifixo dourado – convencional católico, não o bizantino - emanava uma espécie de “fiquem à vontade, a igreja também é vossa” que nos estimulava e reconfortava. Alexei Kravchenko acompanhava-nos desde o momento em que, na madrugada anterior, tínhamos deixado o aeroporto de Domodedovo, nos arredores de Moscovo. Percorria, connosco, o labirinto escurecido de escadarias e corredores no interior do Mosteiro Spaso-Yakovlevsky (Santo Jacob o Salvador), há muito venerado como o santuário de São Demétrio de Rostov, um bispo da igreja ortodoxa ucraniana e russa que viveu durante o século XVII.

Alexei traduzia parte das explicações e apelos de Ignatio. Orgulhoso por chegarmos de tão longe e de ali tomarmos conhecimento da sua obra, Ignatio não se poupa a esforços. Subimos por escadarias que servem estruturas complexas de andaimes de madeira erguidos contra as enormes paredes do templo. Ignatio tinha lá instalado uma autêntica escola de pintura de frescos. Distribuídos por vários níveis e a uma luz com tom de mel, jovens alunos aplicavam-se a pintar originais e réplicas inspiradas na prolífica iconografia ortodoxa. Saudamo-los e espreitamos e fotografamos algumas das obras garridas em curso. Mais preocupados com as trajectórias dos sensíveis pincéis, eles retribuem de forma tímida.

À margem destas imagens religiosas, Ignatio também conhecia a riqueza paisagística que o mosteiro nos podia revelar. Prosseguimos, assim, escadarias acima até chegarmos a um varandim central que nos concede uma vista central da abóboda e cúpulas da maior das igrejas do complexo, com o lago Nero por detrás. Regressamos ao interior de tijolo e vidro da abóboda em que estávamos. Um vulto que surge do nada e quase nos assusta apresenta-se em português e deixa-nos ainda mais atónitos: “Olá, como estão amigos, sejam bem-vindos!”  Consciente da nossa nacionalidade, Ignatio achara por bem convidar um compincha a conhecer-nos. “Sabem onde eu vivo e trabalho?” Começa por nos questionar Serguei. “Não vai ser fácil de adivinharem.” Provavelmente ainda fruto dos velhos intercâmbios comunistas entre o partido MPLA e a U.R.S.S., médico de profissão, fazia já muito tempo que Serguei integrava a equipa do Hospital Central de Maputo. Falava um português quase fluído que nos manteve à conversa pelo menos, até que Ignatio o voltou a solicitar.

Daquele recanto elevado, sombrio e esconso do mosteiro, passamos para o seu coro desdobrado. Lá apreciamos a elegância ampla, ortodoxa e multicolor da nave em redor. Do nada, um sacerdote “irmão” de Ignatio trajado com uma casula de um amarelo lustroso aparece e percorre o piso de losangos vermelhos e amarelo-torrados, em trajectórias quase automáticas. Aproxima-se da entrada, abençoa um grupo de mulheres crentes, todas elas com os cabelos envoltos em lenços respeitosos. Enquanto isso, outros que vestem batas negras dispõem-se num reduto oposto ao das senhoras. Lá inauguram uma sequência de cânticos litúrgicos intercalados com as palavras da homília. Naquele cimo panorâmico em que tudo supervisionávamos, a ortodoxia do rito ressoava a dobrar. Entrava-nos pelos ouvidos e pelo cérebro. Com tal volume e gravidade que nos chegava a intimidar.

Tínhamos perdido a noção do tempo. Mesmo se, por aquela altura e àquela latitude, os dias do estivo se mantinham longos, quando deixamos o mosteiro, já a tarde, até então solarenga e resplandecente, apontava às trevas.

Alexei apreciava sobremaneira a Rússia clássica e antiga que nos revelava. Lembrou-se, assim, de uma outra igreja secular, dissimulada no campo verdejante do Yaroslav Oblast (a província da Federação Russa por onde andávamos), a uns 20 km. Encantado com a perspectiva de lá acompanharmos o ocaso, incita-nos a fazermos a viagem. Quando nos confrontamos com o seu edifício de tijolinhos esbranquiçados, estava prestes a começar a liturgia local. Mais mulheres de lenço cruzam um portão centrado numa vedação de madeira. Outras, conversam à sombra do arvoredo circundante. Apressam-se apenas quando por elas passa o sacerdote para ali designado, dono de um caminhar e de um porte soberbo e de feições austeras e sérias que, sob uma batina com longas mangas e de um toucado klobuk, ao contrário do que acontecera com Ignatio, nos inspirava mistério e temor.

Os fiéis reúnem-se no interior da igreja. Desta feita, ficamos os três a usufruir da bênção que a natureza envolvente nos concedia, deliciados com a brisa suave que fazia as árvores ondular, com os voos picados das andorinhas e o grasnar longínquo dos corvos. O sol deixa de dar no castro de cúpulas prateadas de outra velha igreja no extremo oposto do caminho e o arrebol coincide com o término do serviço religioso. Dá-nos o sinal por que esperávamos para voltar a Rostov.

Alexei tinha conduzido boa parte da noite anterior entre São Petersburgo e Moscovo, a tempo de nos receber. Nós, tínhamos sofrido algo semelhante para apanharmos o voo. Sem surpresas, após um jantar despachado de sopa fria okroshka e de uma espécie de nhoquis a que os russos chamam pelmenis, acompanhados de canecas de kvass (bebida fermentada de centeio) regressamos aos aposentos da Khors Guesthouse & Gallery. Pouco depois, rendemo-nos ao sono que tínhamos em débito.

Despertamos com as galinhas e galos da pousada. Deixamos Alexei entregue ao seu cansaço particular e saímos à descoberta. A pousada pouco distava do kremlin de Rostov, uma cidadela muralhada de que despontavam torres e mais torres, e um batalhão de cúpulas sobranceiras. Sucessivos Ladas, Volgas e relíquias automóveis soviéticas afins passam pela base das muralhas que, ao longo de uma das ruas principais, acolhiam vários dos estabelecimentos comerciais convenientes da cidade. A visão surreal das enormes igrejas aguça-nos a curiosidade e a ansiedade e leva-nos a uma incursão precoce. No interior, desvendamos a vida paralela até então oculta do kremlin. Uma sessão fotográfica casamenteira desenrola-se com passagem pelos cantos mais fotogénicos da velha fortaleza. À beira do seu pequeno lago, sucessivas senhoras vestem trajes medievais, sem grandes hipóteses de rivalizarem com a elegância e leveza pré-matrimonial da noiva. Jovens entregues a pequenas telas batalham com as perspectivas desafiantes das suas pinturas. E grupos organizados atrás de guias, seguem a simbologia religiosa e a profundeza histórica da panóplia de frescos que, repletos de sábios e santos ortodoxos, decoravam a nave central.

Foram necessários muitos séculos de guerra e paz para Rostov se engrandecer e merecer as visitas e a reverência que lhe são agora dedicadas. Esses séculos levaram-na de mera povoação da tribo finlandesa Merya, de entreposto comercial viquingue e, depois, cita, a capital de um dos muitos principados que se viram sob controle dos poderosos Tártaros. Pouco depois, a uma das principais cidades do Gran Ducado de Moscovo.

Durante todo este tempo, Rostov manteve-se um assento incontornável dos bispado e arcebispado russo, da religiosidade russa em geral. Erguido durante o século XVII, na ressaca de invasões mongóis e polacas-lituanas, o kremlin que explorávamos estabeleceu o culminar do seu engrandecimento.

E, no entanto, pouco depois, Rostov viu-se ultrapassada em importância administrativa por Yaroslav. O hiato histórico e correspondente marasmo civilizacional em que caiu, não invalida que continue a ser conhecida por Rostov Velicky (a Grande), uma forma também útil de a distinguir da congénere russa Rostov-on-Don, essa, uma cidade moderna, bem maior, às margens do rio Don.

Durante os seus mais de mil anos, Rostov manteve a companhia ora líquida ora gelada do Nero, um lago abastecido por oito rios, mesmo assim, pouco profundo (3.6 m de profundidade máxima, com 13 por 8 km de extensão). Deixamos o Kremlin. Caminhamos ao longo da margem imediata, junto aos canaviais anfíbios que antecedem a sua imensidão esverdeada. Passamos por várias das docas e passadiços que servem as izbas (vivendas de madeira) ribeirinhas. Uma dessas estruturas acolhia uma pequena frota de embarcações metálicas de recreio. Ao chegarmos a outra, um barco aproxima-se de terra e do seu ancoradouro privado. A bordo, um timoneiro cinquentão com chapéu de  comandante naval rema para duas mães e os seus rebentos. A meros cem metros, um vizinho e rival acabado de ancorar é recebido por dois gatos – um preto e um pardo - que o aguardavam, desejosos de embarcar.

Contagiados por estas sucessivas cenas de evasão e de lazer, ambicionamos a nossa própria navegação. Alugamos um barco. Saímos disparados a remar para o meio do lago, conscientes da altura a que o Kremlin se projectava e intrigados pelo que a vista de lá nos reservava.

Umas boas dezenas de remadas depois, o anseio confirma-se. Vemos uma floresta de torres e cúpulas destacar-se do fundo verdejante da margem. Umas são prateadas, outras cinza-chumbo, outras ainda verde-escuras, assentes sobre um grande torreão rosa pálido. Quanto mais nos distanciamos, mais cúpulas se insinuam contra o céu de fim de tarde, estival e continental, carregado de humidade, azulão a condizer. Quantas mais cúpulas desvendamos, mais a história pomposa de Rostov Velicky e da velha Rússia resplandece e nos deslumbra.

 

A TAP voa de Lisboa para Moscovo à 2ª, 3ª, 5ª, 6ª e sábados às 23h10, chegada às 06h20.  

Voa de Moscovo para Lisboa à 3ª, 4ª, 6ª, sábados e domingos, às 07h15, chegada às 11h10.

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