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Esqui

Esqui

Habitante de Kuusamo exercita-se nas margens do lago Kuusamo.

Lapónia, Finlândia

Sob o Encanto Gélido do Árctico

Estamos a 66º Norte e às portas da Lapónia. Por estes lados, a paisagem branca é de todos e de ninguém como as árvores cobertas de neve, o frio atroz e a noite sem fim.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


É meia-noite e há horas que não passa vivalma nas ruas de Kuusamo. Apesar da falta de hóspedes e de clientela da cidade, o bar estranho do hotel Sokos inaugura uma nova noite de karaoke que a barwoman de serviço anima, cantando temas populares finlandeses no impenetrável dialecto suomi. As letras das canções sucedem-se no ecrã, repletas de consoantes repetidas e de tremas e as melodias atraem duas ou três almas perdidas nas salas do edifício. Aparecem e movem-se em câmara lenta, uma técnica desenvolvida ao longo dos anos para dissimular os efeitos do álcool. Aos poucos, ganham à vontade. Juntam-se à interpretação do último êxito e escolhem o que vão cantar de seguida para o que se preparam emborcando mais um vodka ou a bebida alternativa da moda, a Valkovenäläinen, uma mistura semi-doce de Kahlua 228 com vodka e leite.

Este espectáculo duvidoso repete-se e é aproveitado por casais de meia-idade que migram do restaurante Torero contíguo, onde o imaginário hispânico é servido em doses industriais. Até que o horário do bar força o seu adiamento.

Na manhã seguinte, mudamo-nos para o campo finlandês e instalamo-nos à entrada do Parque Nacional Oulanka com planos de percorrer parte do trilho de floresta mais famoso da Finlândia, o Karhunkierros. As nuvens passam cinzentas, arrefece a olhos vistos e a neve que cai a espaços vai reforçando o branco do cenário. O caminho serpenteia entre as coníferas da taiga finlandesa e acompanha o rio homónimo que resiste ao congelamento devido à força das suas águas escuras. Atravessamo-lo, algo cambaleantes, sobre pontes suspensas e voltamos a avançar entre as árvores para darmos com áreas conquistadas por vastos pântanos enregelados. Juuma surge no final de uma das direcções do percurso como uma ténue recompensa civilizacional na imensidão árctica circundante. Um núcleo de casas de madeira vermelha ocupa ali a margem do lago Ala-Juumajarvi, próximo a uma rampa de embarque onde um barco de serviço repousa sobre gelo. Quatro ou cinco carros surgem estacionados na proximidade mas o Kavhila Cafe parece nunca ter aberto e só detectamos sinais de vida numa das habitações.

Em tempos pré-históricos, o território da Finlândia foi sucessivamente atropelado e alisado por vagas de gigantescos glaciares e, ao contrário do que se possa pensar, revela-se plano e esburacado por incontáveis lagos deixados para trás pelo degelo. A algumas dezenas de quilómetros da nossa base, Ruka (Rukatunturi) chega apenas aos 500 metros de altitude mas tornou-se no principal centro de desportos de neve da região e um dos mais importantes do país. Como aconteceu no fim de semana passado, a estância acolhe com frequência provas dos campeonatos mundiais de esqui de fundo, de saltos e de outras modalidades praticadas sobre a neve. E recebe também mais de 65000 forasteiros que chegam para participar nas provas ou apoiar os competidores.

Investigamos a vila, exploramos a sua curiosa zona comercial e subimos ao ponto mais alto para apreciar a vista pintada de branco em redor. Dali, contempla-se a Rússia e o PN Paanajarvi – o prolongamento do Oulanka – tal como grande parte do território tomado pela União Soviética à Finlândia por os últimos terem alinhado pelas forças do eixo durante a 2a Guerra Mundial. Essa perda é, ainda hoje, uma frustração nacional de que falam, sem grandes complexos, finlandeses de todas as idades. E é comum encontrarmos estabelecimentos com mapas do território original ou fotos dos seus lugares emblemáticos.

No regresso ao acampamento de Oulanka, passamos por mais aldeias e por campos frígidos de beira de estrada em que pastam manadas de renas. Mas a sua existência pouco tem que ver com a impingida pelo imaginário natalício. Todos os espécimes são identificados com coleiras e chapas coloridas e, de tão habituados que estão aos proprietários, ignoram completamente a presença humana. Há décadas que não existem renas selvagens na Finlândia.

Chegados ao conforto da base, jantamos guisado de rena – noutros dias carne de alce – uma especialidade da Lapónia pouco apreciada no sul da Finlândia. “Alguns miúdos do sul vêm cá e fazem fitas porque não querem comer o Rodolfo” desabafa Satto. Outros infernizam os pais porque notam a diferença de sabor em relação à carne de vaca.”

Novo dia, nova incursão nos domínios remotos da região. A temperatura caiu abruptamente e as estradas ficam de novo cobertas de um gelo perigoso. Sari Alatossava conduz-nos com à vontade mas é surpreendida por duas vezes quando o Land Cruiser derrapa e quase inverte o sentido na estrada, apesar dos pneus especiais, repletos de espigões perfuradores. O susto é relativo. Depressa recuperamos o diálogo e a anfitriã continua a explicar a sua improvável relação com Portugal. Que, em 2001, cumpriu um intercâmbio Erasmus na Faculdade de Letras do Porto porque o queria fazer num país pequeno e porque gostava muito dos livros de Saramago. Que teve um namorado português com família madeirense disseminada pela África do Sul, Malta e até pela Finlândia.

Já a pé, Sari guia-nos ao longo de novo trilho de floresta, com a neve a cair mais abundante que nunca. O caminho é suave e curto mas revela o cenário agreste e selvagem do Canyon de Oulanka que o rio Oulankajoki continua a aprofundar. Mais uma vez, avistamos a Rússia à distância e Sari queixa-se de que, agora, as expedições finlandesas de rafting têm que se acautelar com a posição da fronteira para não trespassarem o território do grande urso. E de que os Russos são como a maior parte dos povos dos países grandes: acham que têm sempre que conseguir o que querem e, para isso, passam por cima de tudo e de todos.

De volta ao ponto de partida, avançamos para norte e cruzamos o Círculo Polar Árctico. Espera-nos Salla “In The Middle of Nowhere”.