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Vítima do Destino

Vítima do Destino

Um moai meio esculpido abandonado na pedreira de Rano Raraku, em tempos usada pelos nativos de Rapa Nui para esculpir as suas figuras mitológicas.

Ilha da Páscoa, Chile

Sob o Olhar dos Moais

Rapa Nui foi descoberta pelos europeus no dia de Páscoa de 1722. Mas, se o nome cristão da ilha faz todo o sentido, a civilização que a colonizou de estátuas observadoras permanece envolta em mistério


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Nenhum outro lugar é tão solitário como este mas, deitadas sobre um pequeno prado verdejante da beira-mar, Amparo Ortiz Sainz e Pau Santibañez sondam o vasto oceano Pacífico em busca de algo. As ilhas habitadas mais próximas, as Pitcairn, distam 2100km e o arquipélago Juan Fernández, de que faz parte a ilha Robinson Crusoe, 3700km. Degredadas da capital Santiago e das famílias, as duas amigas continuam à espera de uma salvação que não chega e que mesmo que chegasse, teriam que rejeitar.

A situação económica agora mais desafogada e estável do Chile não favorece todos os seus jovens. À falta de empregos recompensadores perto de casa, as duas aceitaram mudar-se para o território mais apartado da nação onde, tendo apenas as finanças em conta, a separação lhes pareceu inicialmente vantajosa.

Depois de três dias de intempérie, um sol estranhamente suave para estas latitudes tropicais acaricia Rapa Nui enquanto o mar acalma. Amparo e Pau vinham com vontade de aperfeiçoar os seus dotes de surfistas principiantes mas a preguiça e o deleite fácil levam a melhor e tanto elas como a prancha se ficam por terra. Interrompemos uma caminhada acelerada pela marginal de Hanga Roa para esclarecer uma qualquer dúvida de orientação e acabamos por nos juntar ao seu retiro. A conversa não tarda a fluir com o som das ondas em fundo: “Truman Show. É o que nós costumamos chamar à nossa vida por aqui. Lembram-se daquela cena em que o Jim Carrey choca contra a cápsula invisível do estúdio? Acontece-nos todos os dias. Mesmo os visitantes como vocês que cá ficam uma semana ou mais, descobrem os moais e as melhores paisagens, dão a volta à ilha e depois ficam sem saber o que fazer. Já devem ter começado a perceber, não? Se quiserem, apareçam no Matato’a mais logo. É o único sítio com animação em muitos milhares de quilómetros.” 

Regressamos à pousada que nos hospeda ainda antes do anoitecer  e voltamos ao convívio com dois portugueses do Porto que, por mero acaso, ali se haviam também instalado.

A ilha da Páscoa era o último dos lugares em que esperávamos cruzar-nos com compatriotas mas, inspirados pela histórica vocação lusa de cruzar mares, a Verónica e o Miguel tinham-se mudado da Invicta para estudar arquitectura em Valparaíso e gozavam uns dias de férias algo chuvosos naqueles confins quase ilógicos do Chile.  De regresso, quanto terminámos a contagem, foram a metade dos quatro portugueses que encontrámos num ano de volta ao mundo.

A noite cai e vamos mesmo espreitar o Matato’a Bar, até porque Carole, uma nossa jovem anfitriã francesa de Papeete (Tahiti) tinha passado horas a gabar o espectáculo de dança ali apresentado ou, mais concretamente a forma física – digamos assim – e a beleza dos rapazes protagonistas.

O nome do bar significa o olho do guerreiro e é também usado pelo grupo familiar formado em 1996 por Kevamatato’a Atan. A condizer, as danças masculinas são rápidas e acrobáticas, dramatizadas pela iluminação quente que destaca os corpos suados e as pinturas, marcas inequívocas de uma genética e cultura polinésia que nem a falta de tatuagens parece por em causa. Detectamos as heranças artísticas do que se acredita ter sido o passado intensamente bélico da ilha mas, apesar de estarmos num sector do oceano Pacífico quase oposto ao da Nova Zelândia, identificamos também expressões e movimentos a que o povo maori poderia chamar seus.  Sabemos que a Polinésia encerra incontáveis segredos e a civilização perdida de Rapa Nui, em particular, gera as mais díspares e inesperadas teorias. A função da sua população de moais está no top dos enigmas.

Num dos dias solarengos que se seguem, inspecionamos a estranha formação de Ahu Tongariki, a maior de tantas outras espalhadas pela ilha, constituída por 15 estátuas cabeçudas com muitas toneladas. Interrogamo-nos sobre o que teria justificado as tarefas hercúleas da sua escultura, transporte e posicionamento.   

Mas também imaginamos a comoção do seu derrube pelas facções inimigas durante as guerras civis de Rapa Nui e, mais recentemente, do seu arrastamento para o interior pelas ondas do tsunami que invadiu a ilha em 1960. Descobrimos ainda a ironia de, depois de recuperados por uma equipa de arqueólogos chilenos, os quinze moais terem sido reposicionados e reerguidos entre 1992 e 1995 pela Tadano, uma empresa do país que baptizou mundialmente o fenómeno natural que os havia movido.

Dali, caminhamos até à cratera de Rano Raraku, a pedreira em que, durante meio milénio, foram fabricadas 95% das estátuas monolíticas da ilha, até ao início do século XVIII. Entre uma comunidade muda de 397 exemplares, descobrimos vários moais gigantescos (até 21.6 metros e 270 toneladas) semi-esculpidos e semi-enterrados. E, tantos outros, já de pé mas erodidos incluindo o pitoresco Tukuturi, mais pequeno, com barba e ajoelhado.

Se poucas dúvidas existem quanto à proveniência dos ídolos obscuros, a da civilização que os concebeu e idolatrou não é cientificamente inequívoca.

A Origem e o Destino da Civilização Rapa Nui

Moa Teru Eru, um dos três mil e trezentos rapa nuis sobreviventes da ilha terá uma opinião mas parece mais preocupado com a continuidade da cultura do seu povo. Nacionalista e voluntarioso,  tornou-se conhecido pelo amor à causa e surpreende-nos em plena acção propagandista quando fotografamos o moai pensativo e inquisidor de olhos brancos do ahu Tahai.

Aparece do nada, pouco trajado à moda dos seus antepassados, com um saiote, uma echarpe, pulseiras e uma bandolete que segura o cabelo também aprisionado por um carrapito de nuca volumoso. Todas as vestes e adereços são naturais, feitos de fibras secas de vegetação da ilha. Como o é a haste portátil da bandeira rapa nui vermelha e branca que faz ondular e brande de forma altiva em direcção ao oceano enquanto profere pequenos discursos cerimoniais no dialecto local. Parece-nos convocar os povos ancestrais para a celebração dos seus feitos mas, se o faz, o apelo é abafado pelo vento contrário e pelo bruar das vagas. Perde-se no isolamento e na origem por confirmar da sua civilização quase sumida. 

Nos dias que correm, a resposta mais popular para a proveniência do povo rapa nui é a de que teria chegado do arquipélago das Marquesas ou do Gambier por volta do século IV ou V. Acredita-se que um desses arquipélagos ou até ambos teriam também fornecido os primeiros habitantes do Havai e da Nova Zelândia e que os seus habitantes haviam atingido os novos territórios insulares de uma mesma forma: em enormes canoas duplas preparadas para transportar a comida e os animais domésticos necessários à colonização.

A hipótese discordante mais famosa foi formulada pelo escritor e aventureiro norueguês Thor Heyerdahl que viajou para o Peru, ali construiu uma balsa rudimentar à vela a que chamou Kon-tiki e a tripulou com cinco outros companheiros durante 101 dias, até que a jangada encalhou num recife do grupo Tuamotu, quase 7000 km de oceano Pacífico depois. Com base nas escavações que levou a cabo em Aku Aku (área de Rapa Nui), na experiência da expedição marítima e noutras coincidências históricas – por exemplo, a existência de batatas doces na ilha, Heyerdahl defendeu que Rapa Nui fora ocupada por peruanos ancestrais ou que, no pior dos casos, teria contacto com aquele povo. Mas as várias análises genéticas e anatómicas efectuadas aos indígenas não o viriam a apoiar e confirmaram uma bem mais provável origem das Gambier ou Marquesas. Além disso, um tripulante que James Cook recrutara em Bora Bora conseguiu comunicar com os indígenas. Nem seria preciso tanto. Como qualquer visitante que chegue daquelas paragens, nós próprios reconhecemos facilmente iorana (olá), maururu (obrigado), entre outras expressões elementares. 

Mesmo assim, em 1999, foi organizada uma viagem com barcos daquelas regiões que navegou de Mangareva (Arquipélago Gambier) até Rapa Nui em apenas 19 dias. As evidências sempre predominaram. Sem surpresa, a Ilha da Páscoa é há muito considerada o vértice sudeste da vasta Polinésia.

Ainda em Papeete, Carole tinha-nos pedido o favor de levarmos no avião algumas saias típicas taitianas que Ika, um dos amigos rapa nui que fizera numa das suas inúmeras visitas à ilha lhe pedira. Quando as entregamos, Ika rejubila: “É isto mesmo! muito obrigado! Vamos usá-las nos nossos espectáculos. Também andamos a ensaiar danças do Taiti e queríamos ter adereços originais. Acabaram de me fazer muito feliz.” Aquela reacção tornou-se na nossa derradeira prova escusada de que, para lá do ADN, os nativos da Ilha da Páscoa se sentiam polinésios, apesar das sucessivas intrusões e invasões forasteiras da sua terra. 

Os Enigmas da Ascensão e da Queda

Em 1700, as embarcações espanholas usavam há muito as passagens austrais do Atlântico para o Pacífico abertas por Fernão de Magalhães e Sir Francis Drake durante o século XVI. Mas, foi a expedição holandesa de Jacob Roggeveen a primeira a dar com a ínfima Rapa Nui, no Domingo de Páscoa de 1722. Ali desembarcada, a tripulação achou os indígenas amigáveis mas espantou-se com a presença dos moais que os nativos esculpiam como caricaturas das suas próprias imagens, com longas orelhas (os nativos usavam peças de madeira nos lóbulos que os distendiam) e que reverenciavam acendendo pequenos fogos e prostrando-se diante das estátuas.

Os próximos visitantes foram exploradores espanhóis que, como esperado, deixaram as primeiras marcas do Cristianismo: três cruzes de madeira sobre colinas da zona de Poike. Mas quando o inevitável James Cook chegou, em 1744, já não viu essas cruzes. Em vez, encontrou grande parte da terra por cultivar e sinais de que o derrube intencional das estátuas – a que os nativos chamavam huri moai –  já acontecia há algum tempo, consequência das divisões e conflitos internos.

Desesperados com o mau tempo, depois de lermos sobre os episódios seguintes da história acabamos por nos render a uma sua versão hollywoodesca. O hotel anunciava, em cartazes afixados pela capital, a projecção de “Rapa Nui”, a obra cinematográfica do realizador Kevin Reynolds, co-produzida por Kevin Costner. Mesmo desconfiados, comparecemos na recepção à hora marcada onde uma empregada chilena nos acolhe com indiferença, pouco surpreendida por sermos os únicos espectadores da pseudo-sessão. Conduz-nos a uma sala de estar contígua e liga o aparelho que projecta de imediato o filme, por cima de uma mesa de snooker e contra a parede oposta. Depois despede-se: “Bueno, que lo disfruten! Yo ya lo vi quiñentas vezes”.

Depressa percebemos que os dois Kevins tinham apostado na acção e no romantismo mas que, em nome do lucro, haviam também sacrificado a presumida veracidade de alguns aspectos. Ainda assim, o enredo fantasiado não omitiu o que se pensa ter sido o cerne cataclísmico da questão. 

Registos arqueológicos provaram que, à data da chegada dos primeiros habitantes, prosperavam na ilha várias espécies de árvores incluindo as que poderiam ser as maiores palmeiras do mundo de então, Aphitonia zizyphoides e Elaeocarpus rarotongensis. Mas o seu uso na produção desenfreada e transporte dos moais provocou uma desflorestação trágica e uma consequente degradação ambiental. A construção de barcos de pesca eficientes tornou-se impossível o que levou à extinção abrupta das aves terrestres – crê-se que as galinhas eram a principal fonte de proteínas – e a uma diminuição drástica das marinhas. Jared Diamond, um cientista norte-americano atreveu-se a sugerir que se poderá ter seguido o canibalismo.  

Seja ou não tudo isto verdade, algo fez a população passar de quase 15.000 habitantes, no apogeu, para cerca de 2000 aquando da descoberta holandesa da ilha. A competição em redor de um culto emergente, o Tangata Manu, não contribuiu em nada para evitar o colapso anunciado.

A tecnologia multimilionária empregue elevou o orçamento de “Rapa Nui”, o filme, a 15 milhões de euros. Revelou-nos a ilha homónima, os cenários em que decorria a prova e os seus momentos mais arrepiantes sob planos e perspectivas a que não podíamos aspirar. Mas não nos mostrou a paisagem viva. Insatisfeitos, no dia seguinte alugamos um pequeno jipe, galgamos estradas de lama e enormes poças até conquistarmos as visões surreais do caldeirão retalhado e semi-alagado de Rano Kau, as ruínas da aldeia cerimonial de Orongo, os penhascos adjacentes e os pequenos motus (ilhéus) que irrompem do azulão do oceano Pacífico.

Tangata Manu: o Misterioso Ritual do Homem Pássaro

Custa-nos acreditar que aqueles lugares são reais quanto mais nos rituais mortíferos que ali se repetiram. Mas quatro olhos não mentem e os acontecimentos foram testemunhados e bem documentados.

Missionários do fim do século XIX descreveram que, de início, os habitantes de Rapa Nui estavam organizados em redor de um sistema de classes bem estruturado, com um ariki (chefe supremo) acima dos chefes de nove clãs. 

Mas já com a sua existência ameaçada, um grupo de líderes guerreiros terá organizado uma espécie de golpe de estado e fundou uma nova religião que substituiu a febre dos moais. Essa crença venerava Make Make, deus da fertilidade e legitimava o tal sub-culto de Tangata Manu. Todos os anos, representantes de cada clã participavam numa competição que os obrigava a descer a ravina externa da cratera de Orongo e nadar em águas infestadas de tubarões até ao ilhéu vizinho de Motu Nui. Ali, deviam encontrar o primeiro ovo posto por uma andorinha-do-mar-escura a que chamavam manutara, e nadar e escalar de volta às alturas de Orongo, sem o partir. O vencedor era declarado Homem Pássaro e conquistava para o seu clã o direito de controlar a distribuição dos recursos escassos da ilha durante um ano. Testemunhos provaram que este costume estava em vigor quando os navegadores holandeses descobriram Rapa Nui e que só terminou em 1867, por imposição católica.

Os recursos, esses, foram recentemente supridos pelo potencial ilimitado dos abastecimentos aéreos do Chile que inaugurou o seu jugo colonial, em 1888, depois de subtrair outros territórios ao Peru e à Bolívia num ímpeto expansionista eufórico.

Ainda assim, não conseguíamos evitar alguma apreensão perante os preços hiper-inflacionados pela insularidade recordista. Afinal, estávamos a viajar há nove meses e, como as florestas milenares da Ilha da Páscoa, as nossas frágeis contas bancárias sofriam abates desesperantes.

“Chiquillos, los de Lan Chile no nos traen nada hace algun tiempo! Que bueno que los gringos han preparado la pista para recibir el space shuttle de emergencia” brinca Dona Teresa, a proprietária da pousada Cabañas Vaianny quando nos vê repetir o almoço enlatado pela terceira vez”.

Como Pau e Amparo, a sua família começou por sofrer com o abandono do continente mas o tempo passa e, às vezes, sara. Até num espaço diminuto como o de Hanga Roa cabem rotinas recompensadoras: “De mañana, para dejar mi nieta en la escuela, solo tengo que cruzar la calle. Después, llevo casi toda mi vida aquí cerquita”. 

Mesmo de péssima qualidade e sempre “chuvosas” as novelas chilenas e restante programação lamentável da TV parecem disfarçar um vazio que nem nos atrevemos a garantir que exista. Por outro lado, os quartos sem janelas e bafientos do seu lar de aluguer, podem não chegar sequer ao nível de sofisticação das casas de banho do pretensioso hotel Explora, a quase 6km, mas sustentam o seu clã desterrado.

Lógicas semelhantes justificam que a população chilena já perfaça 40% dos 5000 actuais habitantes da ilha. Mas, se a maior parte dos colonos até se uniu com parceiros rapa nuis, isso não impede protestos contra o frequente desrespeito do governo de Santiago pelos direitos indígenas a quem, malgrado as usurpações culturais e de terras, só foi concedida cidadania chilena, em 1966.

Moa garante-nos que prefere a sua estratégia. Depois de terminar a sua cerimónia no ahu Tahai e perceber que somos jornalistas portugueses faz questão que o acompanhemos de táxi até Anakena onde quer comunicar a sabedoria e os valores rapa nui.

O caminho atravessa prados verdejantes em que pastam manadas longínquas de cavalos e termina à vista de pequenos palmeirais.  Quando chegamos, a praia está repleta de veraneantes chilenos e estrangeiros. Moa anuncia-se, com o vento de feição e perdemo-lo, num ápice, para uma multidão curiosa de mulheres e crianças a quem se dedica a explicar técnicas ancestrais polinésias de emprego das fibras de coco.

Precisamos de recuperar energias. Nem de propósito, detectamos várias roulottes-bar no lado oposto da baía e mudamo-nos para uma das suas esplanadas mal amanhadas. A tarde vai a meio e a oferta já é escassa. À falta de especialidades rapa nui, rendemo-nos à solidez colonial das empanadas. O Ahu Ature Huki, reerguido por Thor Heyerdahl com a ajuda dos ilhéus, dista apenas algumas dezenas de metros. E enquanto devoramos os pastéis sul-americanos não conseguimos evitar a sensação de que também aqueles moais nos observam.