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Glaciar Meares

Glaciar Meares

Perspectiva frontal do glaciar Meares com as montanhas Chugach que alimentam o seu caudal de gelo por detrás.

Prince William Sound, Alasca

Alasca Colossal

Encaixado contra as montanhas Chugach, Prince William Sound abriga alguns dos cenários descomunais do 49º estado. Nem sismos poderosos nem uma maré negra devastadora afectaram o seu esplendor natural.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Situado numa extremidade remota da Península alasquense de Kenai, por detrás de montanhas costeiras elevadas, Homer não nos dava qualquer hipótese rodoviária de atalhar caminho em direcção a Valdez. Como aconteceu por várias vezes nesta área retalhada do Alasca, vimo-nos obrigados a retroceder várias centenas de quilómetros para chegarmos a um novo destino. Desta feita, recuámos praticamente toda a extensão da Sterling Highway, Cook Inlet acima até Soldotna, depois para leste até Moose Pass e, através da Floresta Nacional de Chugach, até Whittier.

É com a chegada a Whittier que damos pela primeira vez entrada no domínio vasto de Prince William Sound. Ao contrário do que se passa noutras partes do estado, aqui, a comunidade local é de tal forma pequena e fechada que poucas são as vagas disponíveis para pessoas de fora. Foi, aliás, com esse espírito que esta povoação improvável surgiu no mapa.

Só os interessados pela história bélica do mundo o sabem mas, durante a 2a Guerra Mundial, além de Pearl Harbour, os Estados Unidos foram atacados pelos japoneses no seu 49º estado. O infortúnio calhou a Dutch Harbour e ao arquipélago aleuta, a longa cadeia de ilhas que surge na extremidade da Península do Alasca, mais próxima do território nipónico que qualquer outra parte dos Estados Unidos.

Confrontadas com a iminência de novos ataques, as autoridades militares norte-americanas planearam a construção de uma base militar secreta, onde pudessem esconder parte da sua frota naval. Acharam o lugar ideal, ali, de frente para o Canal Passage e cercado pelas montanhas íngremes em redor, cobertas por gelo e por nuvens densas na maior parte do ano. Por forma a assegurar o acesso por terra, foi aberto um longo túnel, que é, ainda hoje, uma das maravilhas da engenharia do Alasca. 

O exército ocupou Whittier até 1968, ano em que a abandonou e aos seus estranhos edifícios sem que os japoneses a tivessem alguma vez alvejado. Com a afirmação do turismo estival, mesmo entre cordilheiras e glaciares, a cidade fantasma – entretanto colonizada por indígenas – tornou-se numa atracção alasquense à parte, com importância reforçada por se ter tornado numa escala do Alasca Marine Highway, a rota percorrida pelos ferries que liga as povoações do litoral.

Como Valdez – que teve inclusive que ser reconstruída mais longe do mar – também Whittier foi parcialmente destruída pelos tsunamis provocados pelo sismo da Sexta-Feira Santa de 1964 (o mais forte alguma vez registado na América do Norte) que atingiu os 9.2 na escala de Richter e gerou ondas com 13 metros de altura. 

Só quando chegamos à entrada do Anton Anderson Tunnel, descobrimos que não permitia a viagem simultânea aos dois sentidos e que o acesso só era possível de hora a hora. Dedicamos os 40 minutos que faltam às rádios regionais e a apreciar a paisagem glaciar circundante.

Quando o sinal verde finalmente cai, prosseguimos pelo escuro. Levamos 15 minutos a atravessar o longo túnel até que, do outro lado da montanha, damos de caras com um refúgio de visual cimentado, em tudo idêntico a tantos outros que a Guerra Fria viria, mais tarde, a gerar.

Pela dimensão e peso arquitectónico, destaca-se do casario, o Buckner Building que não resistimos a explorar.Até 1968, habitaram ali mais de 1000 pessoas, na maioria ao serviço do exército dos EUA. Hoje, o edifício não é mais que um bunker habitacional abandonado ao tempo e à vegetação.

Destino diferente tiveram as Torres Begich. Com catorze andares e um aspecto civil de prédio suburbano soviético, logo após a desmobilização, foram ocupadas por indígenas da região e alguns imigrantes. Alojam actualmente cerca de 80% dos 172 habitantes de Whittier. No subsolo, um labirinto de túneis liga os edifícios a escolas e lojas, protegendo os moradores das intempéries e poupando-lhes o tempo perdido a retirar neve das entradas das suas casas e das estradas, durante os intermináveis meses frios. 

Com o acumular das décadas, esta nova estrutura habitacional deu origem a uma sociedade única, semi-isolada do mundo exterior pela localização e pela distância, pelo menos enquanto o Verão e os turistas curiosos não chegam.

A ligação mais rápida e directa de Whittier para Valdez, no canto oposto do Prince William Sound era, em termos potenciais, a dos ferries do Alaska Marine Highway System. Mas, quando consultamos o calendário de partidas e chegadas das embarcações, percebemos que teríamos que esperar mais do que queríamos pela próxima. Assim sendo, metemo-nos no carro e fazemo-nos a mais uma extensa viagem pelas estradas alasquenses. Rumamos a norte e passamos ao lado de Anchorage e Palmer, para logo apanharmos a selvagem Glenn Highway que contorna as montanhas de Chugach, os seus campos de gelo, glaciares e os muitos lagos a que dão origem.

No entroncamento conhecido por Hub of Alaska, viramos finalmente a sul e, já sem a barreira intransponível das Chugach pela frente, fazemo-nos ao extremo oriental do Prince William Sound de que nos aproximamos pelo interminável Thompson Pass, um desfiladeiro semi-inundado, repleto de troncos e diques naturais, tudo causado pelo degelo inexorável da Primavera. 

Vinte e cinco anos após a sua destruição sísmica, Valdez voltou a estar nas bocas do mundo pelas piores razões. Na origem, uma simples povoação piscatória de Prince William Sound, a cidade acolheu a estação terminal do Trans-Alasca Pipeline. Daí em diante, petroleiros atrás de petroleiros passaram a encher os seus tanques antes de zarparem para as refinarias do Outside. O pior estava por acontecer. Em Março de 1989, o super-petroleiro Exxon Valdez abalroou o recife Bligh e provocou o desastre ecológico com pior impacto no Alasca. 

A natureza recuperou mais depressa que o esperado. Actualmente, de Junho a Agosto, embarcações de recreio fundeadas no porto local não têm descanso a mostrar aos visitantes a trajectória que levou ao acidente, os panoramas deslumbrantes do Prince William Sound - com destaque para os glaciares Columbia e Mears - e a sua incrível fauna .

O Exxon Valdez é, ainda hoje, um tema incontornável. Seguimos a bordo de um dos barcos de Stan Stephens, dono de uma empresa de tours que dão a conhecer a natureza deslumbrante da região aos forasteiros. Passaram vinte anos mas alguns vestígios da maré negra perduram abaixo da areia cinzentas e das rochas, também nas mentes dos locais. 

Passamos por baleias de bossa, por focas e lontras, águias e mergulhões que enriquecem o ecossistema da região. Sobre o convés, o entusiasmo dos passageiros por avistarem e fotografarem de tão perto estes animais é quebrado pela voz monocórdica do narrador que, à passagem pelo recife de Bligh, descreve com pormenor, os trágicos acontecimentos.  

Avançamos pelo estreito paralelos à pista usada pelos petroleiros a caminho do Pacífico. Como no fatídico dia, flutuam pedaços de gelo, agora de pequenas dimensões, que não obrigam a cuidados ou desvios mas fazem prever os glaciares. Passada uma linha de costa preenchida por coníferas, revelam-se, ao longe, as montanhas Chugach e a cobri-las de branco, um gigantesco campo de gelo de que fluem rios de gelo, como o Columbia e o Mears.

O gigantesco Columbia (um dos maiores glaciares do Alasca) projecta, há muito, uma extensa superfície traiçoeira preenchida por icebergs consideráveis e fragmentos de gelos em permanente fluxo em direcção à baía homónima e contra a ilha de Heather. Não concede aos pilotos das embarcações de tours, a confiança para se aventurarem no seu domínio, até pelo exemplo catastrófico que o "Exxon Valdez" representou.

A incursão por que optam é, assim, a do vizinho Meares, bem mais moderado em dimensão e acessível até bem próximo da parede de gelo. À medida que nos internamos na sua enseada escondida , os icebergs aumentam de tamanho e o frio intensifica-se soprado das montanhas de Chugach por um vento norte poderoso. Detemo-nos a duzentos metros e ficamos a observar o cenário árctico. Como é habitual em visitas a glaciares, faz-se silêncio absoluto para que os passageiros possam sentir melhor a grandiosidade da paisagem e captar os sons imprevisíveis das derrocadas de gelo.

No regresso, ainda somos prendados com o avistamento de colónias de lontras e de leões-marinhos. Mesmo à chegada ao porto de Valdez, ainda de duas ou três baleias de bossa.

Com apenas 1000 lares e 2500 habitantes, a terceira grande (leia-se antes principal) povoação do Prince William Sound é Cordova. Desprovida de acesso por terra, a cidade fica perdida na Floresta Nacional Chugach, estendida entre um braço de mar a que os nativos chamaram de Orca e o lago Eyak. Na sombra do monte Eccles, é arrefecida por vários glaciares, com destaque para o Child’s que se prolonga até às aguas do Mar do Alasca.

A autonomia absoluta em que se habituou a viver a comunidade cordovense, apartada da actividade turística que, todos os anos, se apodera do outro lado do estreito pelos altos custos do ferry e dos raros alojamentos é tida com um motivo de orgulho num território em que a genuinidade continua a valer mais que as aparências.