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Realidade e fantasia

Realidade e fantasia

Moradora de Basse-Terre passa junto ao mercado principal da cidade.

Guadalupe

Um Delicioso Contra-Efeito Borboleta

Guadalupe tem a forma de uma mariposa. Basta uma volta por esta Antilha para perceber porque a população se rege pelo mote Pas Ni Problem e levanta o mínimo de ondas, apesar das muitas contrariedades.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Um despertar madrugador poupa-nos ao pior do trânsito causado pelo influxo de trabalhadores na capital Pointe-à-Pitre, permite-nos atravessar mais depressa do que esperávamos a Riviere Salée e passar para a outra asa da ilha, que os colonos baptizaram de Basse Terre.  Estamos num dos territórios mais afastados do Velho Continente em que circula a moeda única e a injecção massiva de Euros pela metrópole francesa dotou estes domínios caribenhos de estradas e outras infraestruturas com que alguns dos seus vizinhos não ousam sonhar.

De ambos os lados da via, bananais a perder de vista preenchem a paisagem do litoral até ao sopé das montanhas longínquas que se projectam do interior. Aquele mar de verde assegura a principal exportação de Guadalupe e a subsistência de muitas famílias. Avançamos para sul e damos também com a cultura rival da cana-de-açúcar, em tempos a única a merecer a atenção e dedicação dos colonos que com ela forravam os seus vastos domínios e abasteciam as destilarias de rum.

As vilas de Goyave e Sainte-Marie ficam para trás. Pouco depois, encontramos um templo hindu tão exuberante como desenquadrado destas paragens ocidentais e que só um capricho da história poderia justificar.

Guadalupe abriga uma das maiores populações indianas da América Latina. Por volta de 1850, consequência da Revolução Francesa e da divulgação dos seus ideais, os colonos ora franceses ora britânicos da ilha não podiam contar já com a mão-de-obra escrava para cortar a cana-de-açúcar. As duas potências resolveram unir-se na solução e importaram cerca de 40.000 trabalhadores da região de Tamil Nadu, onde Pondicherry servia como testa-de-ponte para uma eventual expansão francófona no subcontinente. Alguns anos depois, esse recrutamento terminou mas os indianos ficaram e integraram-se. Hoje, são cerca de 55.000. Deixaram de usar o dialecto e nomes tâmis e só alguns idosos preservam laços com a Índia.

Em Capesterre-Belle-Eau, surge o desvio para aquela que tínhamos definido como a primeira escala incontornável da manhã, as Chutes du Carbet, as quedas de água mais impressionantes de Guadalupe, divididas por três saltos distintos nas encostas da grande montanha da ilha, La Soufrière.

À medida que nos afastamos da beira-mar, a estrada secundária torna-se íngreme. Por fim, embrenha-se numa floresta húmida e densa que o nevoeiro matinal afaga e irriga. Durante algum tempo, somos os únicos viajantes a percorrer a via sinuosa. Até que um pequeno Peugeot conduzido por uma senhora que espreita sobre volante surge do nada e nos pressiona a acelerar montanha acima. Temos o pressentimento de que uma funcionária do parque dormira demais e batemos o caminho estreito e íngreme à perseguidora, ao jeito de escolta forçada.

Uma rotunda relvada anuncia o fim da corrida. A nativa corre para picar o ponto. Em seguida, regressa aliviada e sorridente para nos informar que tínhamos chegado antes da hora de abertura e que, como prémio, nos dispensava do pagamento das entradas. Aceitamos de bom grado. Nas dispendiosas Antilhas Francesas, qualquer pequena poupança é bem-vinda.

Em menos de 15 minutos, chegamos a um varandim conquistado à vegetação e ao rio Carbet. Inclinamo-nos sobre a barreira mas quase só vemos uma árvore tropical com folhagem densa. Talvez rendidos às legítimas preocupações ambientais, as autoridades tinham-se esquecido de destapar as atracções do parque.  Para alcançarmos uma perspectiva desimpedida somos, assim, obrigados a invadir o leito rochoso do rio. É sobre um dos seus maiores calhaus que conseguimos desvendar a queda de água majestosa.

Voltamos ao litoral pelo mesmo percurso. A essa hora, já se justificou o despertar de grande parte dos aldeãos em redor. Um deles prepara-se para montar numa bicicleta colorida. Vemo-lo à entrada da sua casa térrea plantada à beira da estrada e paramos entusiasmados com a estranha fotogenia desportiva, reforçada quando pega e afaga um galo de combate branco.

“Por cá, o ciclismo é o desporto favorito”, informa-nos Daril. “Ia agora ter com alguns amigos. Fazemos 150 km por dia para nos prepararmos para as provas mais importantes de Guadalupe e da Martinica. Mas também apostamos nos combates de galos. Se quiserem ver, logo vou estar em Petit Bourg com este e outros. Apareçam por lá!”

Interrompemos o périplo na ponta sul da ilha, para examinarmos algumas praias de areia negra e a silhueta difusa do arquipélago de Les Saintes.

Voltamos a parar em Basse Terre, a principal povoação da sub-ilha homónima, onde deambulamos pelo mercado local, entre as bancas de fruta tropical e de artesanias. 

Alguns dos vendedores provam-se desenvoltos e tentam impingir as suas mercadorias. Outros, preferem refugiar-se da ameaça psicológica das nossas câmaras. De início, é esse o caso de Marie-Louie Jelda e Legois Polycarpe mas, com a devida insistência e conversa, lá conquistamos a confiança das senhoras que se deixam fotografar.

Ismael Patrick chama-nos à banca vizinha para manifestar a sua discórdia: “Se a vossa ideia era levarem imagens de gente de Guadalupe, deviam ter escolhido outras pessoas. Elas são imigrantes haitianas.” Reclama ainda por parte significativa dos comerciantes do mercado venderem produtos chineses mas, depois de justificar o seu visual distinto com a raiz étnica de Tamil Nadu, confessa que, à falta de bons negócios com bens locais, tinha optado por especiarias e essências indianas. Parte, então, para um quase monólogo contestatório que promove o colectivo político LKP (Liyannaj Kont Pwofitasyon) e as suas reivindicações contra as injustiças do governo da metrópole e dos beckés, os colonos todos poderosos que continuam a controlar Guadalupe.

Antes de deixarmos o mercado, divertimo-nos ainda a observar uma mãe idosa que desanca verbalmente o filho, em público, enquanto este a escuta com uma saca pesadíssima às costas, de tronco nu, paciente e gozão.

Continuamos a explorar a ilha agora num percurso sul-norte repleto de curvas que nos cansa. Acabamos por usar esse cansaço como desculpa para algumas paragens para banhos nas praias viradas ao lado caribenho.

Numa delas, um casal de metros (franceses europeus) faz o que pode para atenuar a monotonia da relação. Ele, exibe à parceira e aos restantes banhistas a sua mestria numa qualquer arte marcial. Ela, ignora-o o mais que pode e esforça-se para não perder o fio à meada do romance que lê.

Noutra, Grande Anse, somos recrutados para uma prova de ti punch que Fredy Punch e a esposa Martine levam a cabo, perdidos entre centenas de garrafas folclóricas do licor. Bebericamos várias amostras de rum a saber a frutas tropicais enquanto falamos com o anfitrião nativo. Entretanto, Freddy é abordado por um grupo recém-chegado de interessados. Remete-nos para um mergulho refrescante e fica a aliciar os novos clientes.

Atalhamos caminho na vertente norte da ilha, modernizada, revolvida por construções e com menos interesse visual. Regressamos em três tempos à Grande Terre, a outra “asa” plana de Guadalupe com o objectivo de espreitarmos a Pointe des Chateaux, o extremo de uma língua caprichosa de terra que aponta para leste. A confluência do mar do norte com o do sul, exposta ao elementos pelo isolamento geográfico do lugar provoca uma instabilidade que ali agita as águas, a vegetação litoral rasteira e as bancas dos vendedores de artesanato. Jordan Etienne deixa o abrigo da barraca para nos impingir os seus chapéus feitos de folhas de palmeira entrançada e revela-nos um visual praticamente igual ao de Eddie Murphy. Conversa puxa conversa, piada atrás de piada, confirmamos que Hollywood não era a sua onda. Que tinha estudado artesanato em Algés e que adorava Lisboa onde aprendera algum português e deixara amigos.