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O louro da selva

O louro da selva

Macaco-capuchinho empoleirado numa árvore do PN Manuel António.

Costa Rica

Um Fenómeno da Natureza

A Costa Rica tem uma das democracias mais antigas do mundo, abdicou de exército e quase não passou por ditaduras. Mas o que salta à vista é a forma incomum como preserva o seu meio-ambiente exuberante.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A expressão nacional costarriquenha é usada por tudo e por nada e, com frequência, como resposta a perguntas como um simples “que tal?” ou “como vão as coisas?”. A famosa “Pura Vida!” é proferida vezes sem conta com espontaneidade e exuberância, tal e qual brota a vegetação tropical densa e viçosa do país. Várias foram as razões que concorreram para a sua instituição e renovação popular. Apesar de inevitáveis obstáculos e dificuldades das vidas dos ticos - como foram alcunhados os nativos – a maior parte acaba por ganhar consciência de que vive num lugar abençoado.

Encaixada no istmo da América Central, a nação é banhada por dois oceanos e sulcada por um eixo longitudinal formado por diversas cordilheiras. Mesmo numa área cerca de dez vezes inferior à da Península Ibérica, acolhe uma manta de retalhos de micro-climas que geram e sustentam uma das biodiversidades mais incríveis à face da Terra. Foi o principal motivo porque resolvemos deixar mais cedo, para sul, a vizinha Nicarágua.

Desde os primeiros dias de exploração, tudo correu pelo melhor numa romagem extenuante aguentada com recurso às proteínas do acompanhamento gastronómico favorito da zona, o gallo pinto, que coloca lado a lado ovo mexido ou omelete com arroz e feijão. Devorámo-lo dia após dia, por si só ou enriquecido com mais proteínas e tostones, as deliciosas “moedas” de banana bem doce, frita ou assada.

Vindos do litoral rude de Montezuma que o oceano Pacífico toma de assalto a cada maré cheia e jovens alternativos de todas as partes do planeta colonizam, apanhámos o ferry para cruzarmos o Golfo de Nicoya de volta a Punta Arenas e um autocarro até Quepos, apenas a sete quilómetros do PN Manuel António, um dos mais conceituados do país.

Com cuidado para evitarmos o gasto excessivo de colónes (moeda da Costa Rica que homenageia Cristovão Colombo), alojámo-nos nesta povoação de pousadas humildes e acessíveis. De lá, partimos, após cada despertar madrugador, para o domínio verdejante, requintado e protegido do parque.

Numa dessas manhãs, instalámo-nos no autocarro ainda antes da hora de partida e em processo de lotação. O motorista lembrou-se de que tinha que resolver algo antes de dar início à viagem e perguntou quem queria sair. Só uns poucos deixaram o veículo. Qual não foi o nosso espanto quando o condutor o fechou por fora e demorou uns bons vinte minutos a voltar.

Após o seu regresso, nós e mais alguns jovens viajantes europeus desancámo-lo por tratar os passageiros como galináceos. De tal maneira que o homem do volante se envergonhou e se fez perdoar o melhor que pôde: “Desculpem-me. Não pensei estar a ser assim tão indelicado. Isto acontece uma vez por outra e ninguém cá da terra se indigna. Mas têm razão. Não foi justo deixar-vos fechados tanto tempo.”

Já a caminho, enquanto admirávamos os cenários luxuriantes tanto da montanha como do litoral no seu sopé, aproveitámos para reflectir sobre o porquê dos passageiros de Quepos se sujeitarem àquela frequente clausura. Em debate com um outro viajante austríaco chegámos à conclusão que, mais ricos ou mais pobres, a maioria dos costarriquenhos pareciam estar demasiado bem com as suas vidas para se stressarem com tais incidentes.

O trajecto foi interrompido e atrasado por uma intervenção das autoridades numa floresta que começava a engolir a estrada asfaltada. Deu-nos tempo adicional que usámos para espreitar num guia escrito a história da nação e compreender a sua surpreendente paz de alma.

Após três décadas de lutas de poder entre famílias da elite produtora de café, as primeiras eleições quase-democráticas tiveram lugar em 1889 com a população pobre ou rica a poder votar, com excepção para as mulheres e os trabalhadores negros. Desde então, numa zona do mundo de que dispuseram ditadores sem conta, alguns tão notórios e maquiavélicos como Noriega ou Somoza, salvo desvios insignificantes, a democracia aperfeiçoou-se e tornou-se uma imagem de marca da Costa Rica. De tal maneira, que o regime do país faz parte dos vinte e dois mais antigos e consolidados do globo.

A própria dispensa de forças militares que dela decorreu permitiu à nação tica investir mais na educação e saúde da população. Em conjunto com os sucessivos bons desempenhos económicos, concedeu ao governo o raro luxo centro-americano de preservar os ecossistemas únicos do seu território e deles lucrar atraindo, ano após ano, milhares de forasteiros apaixonados pela Natureza.

No PN Manuel António, partilhámos com alguns deles praias deslumbrantes escondidas por florestas com orlas aqui e ali íngremes. Caminhámos quilómetros a fio por trilhos húmidos e lamacentos que desembocavam em pontas de terra rochosas e dramáticas com vista sobre manguezais ou ilhotas perdidas no oceano Pacífico.

Com apenas 1625 hectares, o PN Manuel António é o segundo mais exíguo de toda a Costa Rica, onde uns impressionantes 30% do território – a maior percentagem do mundo - são protegidos pelo governo de uma maneira ou outra e cerca de 12% é considerada parque nacional, reserva biológica ou reserva indígena. A Costa Rica abriga, aliás, vinte e uma destas últimas reservas humanas pouco expostas aos visitantes estrangeiros e em que vivem cerca de 25.000 nativos de oito grupos étnicos distintos, com níveis de aculturação e integração na sociedade latina dominante bastante díspares.

A consequência mais valiosa desta política de preservação está em que, malgrado a sua área diminuta e o número crescente de visitantes, a Costa Rica mantém a fauna mais diversificada de qualquer país, se for tido em conta o rácio área/número de espécies.

Em Manuel António, enquanto nos desfazíamos em água a caminhar que nem loucos na selva abafada, avistámos com facilidade diversas espécies de macacos e lagartos, preguiças, coatis, iguanas e guaxinins entre tantos outros.

Alguns dias depois, nas florestas protegidas e irrigadas a bátegas de Monteverde e Santa Helena, no sopé do vulcão Arenal, a fauna e a flora confirmaram-se tão ou mais esplendorosas. Mas em parte alguma se provou tão exuberante como na Península de Osa e no seu PN Corcovado que os visitantes percorrem a alternar entre a selva densa e a praia selvagem, sobrevoados por bandos garridos e estridentes de papagaios e araras. Enquanto o explorávamos, chegámos a vislumbrar o ataque furtivo de um jaguar a um bando de javalis. Foi nessa ocasião que passámos a acreditar no aviso escrito aos trekkers que resolviam fazer-se aos trilhos sem guia de que estariam por sua conta e à mercê dos caprichos daqueles predadores malhados.

Tínhamos o tempo contado. Era escasso para a quantidade de outros cenários naturais imperdíveis que a Costa Rica abrigava, das terras altas de Talamanca aos pântanos, selvas e praias de areia ora branca ora negra do seu litoral atlântico. Ainda nos mudámos por alguns dias para estas paragens caribenhas e constatámos como a “Pura Vida” da nação ali se enrola e desenrola num relaxado ritmo reggae.

No percurso de volta à capital San José, espreitámos o vulcão Irazú, num autocarro que o condutor fez questão de animar com sucessos chorosos da América Central a altos berros: “Lágrima por lágrima lo pagarás, todo lo que hiciste a mi corazón. Lo pagarás, recordando!” lastimava-se o vocalista de forma insistente, a infernizar-nos as cabeças até ao momento em que, a quase 3500 metros de altitude, a visão excêntrica da cratera do Irazú inundada de um lago verde nos permitiu esquecer temporariamente a lengalenga.

Quando entrámos em San José, a capital estava em reboliço. Uma das equipas de futebol mais famosas tinha acabado de se sagrar campeã nacional e a cidade havia sido tomada de assalto por ticos eufóricos e buzinadores. San José provou-se o centro habitacional e de negócios de influência norte-americana contrastante com o resto verdejante do país com que já contávamos. Só nos reteve por uma tarde.