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Tempo de MassKara

Tempo de MassKara

Coreografia garrida de um dos grupos participantes na competição de rua do MassKara. 

Bacolod, Filipinas

Um Festival para Rir da Tragédia

Por volta de 1980, o valor do açúcar, uma importante fonte de riqueza da ilha filipina de Negros caia a pique e o ferry “Don Juan” que a servia afundou e tirou a vida a mais de 176 passageiros, grande parte negrenses. A comunidade local resolveu reagir à depressão gerada por estes dramas. Assim surgiu o MassKara, uma festa apostada em recuperar os sorrisos da população.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Chegam as duas e meia da tarde de um Domingo. Desde a aurora que o banho-turco usual da época das chuvas amornava e a atmosfera tropical tornava-se cada vez mais opressiva. Não sabíamos porquê mas era àquela hora que tudo estava para começar. O MassKara tinha nascido do sofrimento. O sofrimento atravessava-o como em tantos outros rituais filipinos de purga espiritual. Bacolod, a capital secular de Negros permanecia no seu modo sedado com as ruas, por comparação com os dias de trabalho, quase desertas. Até que dobramos uma esquina e esbarramos com a bonança que antecedia a tempestade. Um batalhão de MassKarados ocupa o asfalto. Cerca-o uma multidão de apoiantes familiares e amigos, de curiosos ávidos por se embrenharem nos bastidores expostos da parada e reforçarem a diversidade da sua colecção de selfies.

Emulamos os movimentos errantes destes metediços e avançamos rua fora, atentos às peculiaridades dos figurantes. Um elo comum, mais subtil do que poderíamos imaginar, chama-nos a atenção. Abundavam ali os ladyboys filipinos, os baklas como lhes chama a população, de forma algo pejorativa, participantes da comunidade transgénero local. Enquanto caminhávamos, perscrutávamos os seus rostos andróginos e os corpos frágeis, moldados a preceitos femininos e o mais brancos que se conseguiam tornar. Em retorno, os visados contemplavam as nossas objectivas com o olhar perdido entre a timidez e a sedução do protagonismo, beicinhos e sorrisos marotos, ajustes de ancas e outras poses de modelos de rua. Durante todo este estranho preâmbulo, partilharam uma óbvia boa-disposição mas não tardaram a submeter-se ao sufoco das suas máscaras e fatos.

O fim daquela rua passa-nos para uma bem mais larga, a Lizares. Bacolod encontrava-se ali em peso, dividida em duas frentes opostas por cordas esticadas que mantinham livre a passarela de asfalto.

Uma música com ritmo electrónico acelerado e convulso servia de separador a uma série de outras algo menos aflitas, cantadas em tagalog, o dialecto nacional filipino. Também compartimentava diferentes fases do desfile que, no entretanto, começara a umas dezenas de metros a montante de onde nos encontrávamos. Num ápice, sucessivas catadupas de dançarinos em distintos trajes excêntricos, garridos, felpudos ou de tantos outros tipos surgem a dançar estrada abaixo. Orientam-nos um ou mais coreógrafos de danças experientes, alguns, galardoados e disputados, determinados em fazer os seus barangays (bairros), empresas ou escolas ganharem a competição de rua e, como tal, furiosos com cada interferência prejudicial do público ou dos fotógrafos.

Segundo Jesus “Panoy” Cabalcar, um deles, mais conhecido como “Sir Panoy” detém o recorde de triunfos no MassKara, nem mais nem menos que vinte e uma vitórias repartidas entre distintos barangays e escolas: 29, Estefania, Pahanocoy, Villamonte, Alijis, Mandalagan, 17, 16. Esteve ainda por detrás do triunfo da escola elementar ETCS3.

Toda a ilha tem os seus dançarinos e coreógrafos em grande conta e presta-lhes tributo ano após ano, pela entrega incondicional que demonstram - muitos desde a estreia - e pelo mérito de terem tornado o festival o grande momento icónico de Bacolod. O cortejo que acompanhávamos é apenas um de um conjunto de acontecimentos que inclui a competição irmã de arena, concursos de Rainhas de Beleza MassKara e de dança, de tambores e de gastronomia, concertos de música, eventos desportivos e até uma feira agrícola.

Um bando de fotógrafos e videógrafos filipinos antecedem o cortejo. Juntamo-nos ao clã. Como eles, dedicamo-nos a registar a acção o melhor possível sem prejudicarmos o seu fluxo. Nem sempre entre eles, durante quase duas horas, fizemo-lo de marcha atrás, a apreciarmos as coreografias por diante e, ao mesmo tempo, a evitarmos tropeçar na multidão que cruzava o cortejo ou o antecipava.

Toda esta agitação e fricção humana parecia esquentar mais e mais o ar já de si saturado. Quem sofria eram os desfilantes. Ao fim de algum tempo, alguns deles apareceram a queixar-se e até a cambalear. Certos coreógrafos e auxiliares mais precavidos borrifavam-lhes as faces através das máscaras e ajudavam-nos a ventilar. Nem todos os dançarinos recebiam esse cuidado. Um deles, andrógeno como tantos outros, entra em convulsões mesmo à nossa frente.  Socorrem-no familiares e elementos do seu grupo, primeiro dentro de uma carrinha de apoio do evento, mal os socorristas perceberam que o interior abafado da van só viria a agravar a sua aflição, sentado sobre o assento de um tricycle, na origem, encarregue de recolher fatiotas e máscaras de determinados barangays. Salvas as devidas proporções, a agrura e a cena vivida por aquele jovem rapaz efeminado fez-nos lembrar o passado por Cristo durante a Via Crucis. E esse é um outro evento que os Filipinos – a única grande nação católica da Ásia -  fazem questão de reencenar um pouco por todo o país, semana santa após semana santa. Mas estávamos em Outubro. Neste mês, Negros empregava toda a sua crença nos efeitos terapêuticos do MassKara.

Decorridos trinta e sete anos da noite em que o ferry MV Don Juan colidiu com o petroleiro MT Tacloban City em pleno estreito de Tablas e se afundou, uma boa parte dos familiares das vitimas terá recuperado do desgosto. Já as questões relacionadas com a venda do açúcar produzido na ilha, vêm à tona de quando em quando, ou porque a cotação da matéria-prima desce a níveis sofríveis ou por motivos que a população de Negros considera tão ou mais difíceis de engolir. Desde o início de 2017 que os produtores e trabalhadores da cana-de-açúcar se insurgiam contra o facto de a Coca-Cola da ilha de Negros ter começado a usar, nas suas bebidas, xarope de milho de alta frutose em vez do açúcar local. Cindy Rojas, conselheira da municipalidade levou essa insatisfação mais longe. Repetiu uma medida já antes tomada em anteriores eventos culturais de Negros: fez aprovar um boicote aos produtos da multinacional.

A Coca-Cola e afins pouca falta faziam ao festival que prosseguia, adocicado e cafeinado pela excitação que por si só gerava. À medida que aquela fornalha popular e o entusiasmo se intensificavam, a organização do evento tinha dificuldade em controlar a multidão que as cordas já mal seguravam. Entram em acção polícias sobre motas e alguns militares. Os reforços garantem o recuo das gentes em zonas da rua mais apertadas. Guardiães de cada troupe participante passam a empurrar as cordas longitudinais que abriam caminho aos MassKarados com determinação redobrada. Esse controle apertado acaba por levar de arrastão alguns espectadores, fotógrafos e até elementos da organização. A nós, acontece-nos e mais do que uma vez ficarmos a ver as máscaras de baixo para cima. E que mágicas e impressionantes assim se revelavam.

De início, as faces sorridentes que hoje continuam a ilustrar e a animar o festival tinham visuais filipinos nativos, pintados à mão e decorados com contas e penas típicas da região. Com o passar dos anos, sobrepuseram-se à tradição influências do Carnaval de Veneza e até do do Rio de Janeiro. Foram aceites máscaras modernas de plástico, contas brilhantes, com as penas maiores e mais exuberantes que os responsáveis pelo design e pelas coreografias podiam arranjar. O elemento fulcral do festival, o sorriso aberto, manteve-se o mesmo ao longo do tempo nas muitas faces que formam o MassKara, uma multidão de caras risonhas, como define o curioso nome anglo-hispânico do evento condizente com o mote de Bacolod: “The City of Smiles”.

Mais para o fim da artéria e da longa parada, reparamos em como diversas empresas emblemáticas das Filipinas aproveitavam o magote de gente e participavam na festa para se promover. A Jollybee - uma espécie de MacDonalds pinoy (equivalente filipino de Tuga) - fazia-se representar pela sua abelhinha amarela e vermelha. A mascote começa por acenar aos fãs na beira da estrada com a promessa de alguns doces mas a coisa pouco dura. Quando damos por ela, uma turba de miúdos em êxtase corre para o boneco felpudo e disputa-os de forma selvática. Esta derradeira fase mais comercial e interesseira do cortejo não marcou, todavia, o encerrar da festa. Dobramos a Lizares Street para a Avenida Araneta. Ali, na ausência de dançarinos oficiais e dos carros alegóricos ou corporativos que lhes sucedem e dos refrigerantes da Coca Cola, o povo diverte-se à sua maneira. Alguns músicos dotados de tambores e outros instrumentos básicos marcam o ritmo. Espectadores entregues a um delicioso estímulo criativo alcoólico dançam sem cerimónias ou constrangimentos para gáudio de outros que não resistem a juntar-se-lhes. O MassKara estava longe do fim. Por essa altura e como sempre acontecia, já tinha mais que cumprida a promessa de devolver a felicidade a Negros.

Guias: Filipinas+